quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Alarmante
Agrotóxicos: dos impactos imediatos ao modelo de produção




Leila Lea*
Os números impressionam: em 2009, foram vendidas no Brasil 789.974 toneladas de agrotóxicos, movimentando US$ 6,8 bilhões e fazendo do país o maior consumidor desse tipo de substância no mundo.

São mais de 400 tipos de agrotóxicos, comercializados sob a forma de 2.195 diferentes produtos. Os dados, do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos Defensivos (Sindag, entidade das empresas produtoras de agrotóxicos), levantam, no mínimo, algumas curiosidades. Como e por que o Brasil se tornou o principal consumidor de agrotóxicos no mundo? Que conseqüências diretas isso traz para a população? Há regulação para esse uso intensivo? Isso é seguro?

Além das questões imediatas, o tema dos agrotóxicos levanta outros debates, que se relacionam ao contexto e às bases materiais desse consumo intenso dos ‘defensivos agrícolas’, como são chamados pelas empresas produtoras, ou ‘venenos’, nomenclatura comumente utilizada entre pequenos agricultores e trabalhadores do campo. Afinal, se o Brasil utiliza os agrotóxicos em larga escala, certamente o modelo de produção agrícola majoritário no país é compatível com o uso dessas substâncias. E que modelo é esse? Por que ele é baseado na utilização dos agrotóxicos? Que tipo de interesses essa questão envolve, e quais seus impactos econômicos, sociais, políticos e ambientais?

Foram temas como esses que deram o tom do Seminário Nacional contra o Uso de Agrotóxicos, realizado entre os dias 14 e 16 deste mês na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema - São Paulo. Organizado pela Via Campesina e pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), o Seminário foi apoiado pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz e contou com a participação de cerca de 90 pessoas, representando mais de 30 movimentos sociais, instituições, entidades ambientalistas e organizações da sociedade civil.

Impactos na saúde

“Aconteceu em outubro de 2009, no interior do Espírito Santo. Foi feita uma pulverização aérea de agrotóxicos em uma plantação de café próxima a uma escola. Os aviões passavam perto da escola despejando os agrotóxicos e as aulas não puderam continuar. Por causa do cheiro forte, as crianças começaram a passar mal e algumas chegaram a desmaiar”. O relato, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), foi apenas um dos apresentados no Seminário para ilustrar alguns dos impactos imediatos do uso de agrotóxicos no dia-a-dia da população. A constatação de que aqueles que lidam com ‘veneno’ ficam frequentemente enjoados, depressivos, adoecem mais de câncer e tem índices de suicídios mais altos do que trabalhadores de regiões em que não há contato direto com agrotóxicos foram alguns dos elementos destacados pelo MPA.

Se a experiência concreta dos trabalhadores aponta problemas decorrentes do contato humano com os agrotóxicos, estudos recentes na área vão na mesma direção. No início de 2008, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), uma das responsáveis pelo monitoramento do uso de agrotóxicos no Brasil, decidiu colocar uma série de ingredientes ativos de agrotóxicos em reavaliação. A decisão, publicada no Diário Oficial da União de 25 de fevereiro daquele ano, aponta alguns dos motivos que determinaram a reavaliação: no caso da substância cyhexatina, “os estudos demonstram alta toxidade aguda bem como apresentam suspeita de carcinogenicidade para seres humanos, toxidade reprodutiva e neurotoxidade”. Isso quer dizer que a suspeita da Anvisa é de que esses produtos possam produzir efeito venenoso ou letal sobre o tecido nervoso de seres humanos, câncer e outros problemas.

Já os motivos que levaram à revisão do glifosato, outro ingrediente ativo de agrotóxicos, foram “sua larga utilização no Brasil, os relatos de casos de intoxicação ocupacional e acidental, a solicitação de revisão [para aumento] da dose estabelecida para a Ingestão Diária Aceitável (IDA) por parte de empresa registrante, a necessidade de controle de limite máximo de impurezas presentes no produto técnico e possíveis efeitos toxicológicos adversos”. Letícia Silva, da Gerência Geral de Toxicologia da Anvisa, apresentou no Seminário dados que comprovam o aumento da utilização de glifosato no Brasil na última década: em 2000, foram vendidas no país 39.515 toneladas da substância. No ano passado, esse número chegou a 299.965 toneladas.

Na lista de reavaliações da Anvisa, itens como suspeita de indução de câncer em seres humanos, efeitos letais sobre tecidos nervosos e possibilidade de efeitos sobre o sistema reprodutivo aparecem diversas vezes para os 14 diferentes produtos colocados em reavaliação. Segundo Letícia Silva, os resultados da avaliação, publicados em agosto deste ano, determinam o banimento total da cyhexatina até julho de 2011 (a substância só será mantida no estado de São Paulo) e apresentam o indicativo do banimento da utilização de acefato, metamidofós e endossulfan, também muito utilizados no Brasil. Esse indicativo está em análise por uma comissão tripartite formada, além da Anvisa, pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama, responsável pela análise ambiental) e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa, responsável pela análise agronômica).

Na água da chuva e na mesa de casa

Além da reavaliação de ingredientes ativos, Letícia Silva apresentou dados do Programa de Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA. Segundo ela, as análises do PARA de 2009 encontraram substâncias que estão em reavaliação pela Anvisa, como o endossulfan. Proibido em 45 países, entre eles Estados Unidos e em toda a União Européia, o endossulfan foi reavaliado por suspeita de desregulação endócrina e toxicidade reprodutiva e teve seu banimento indicado. Como demonstrou Letícia, o endossulfan foi encontrado em culturas de pepino, pimentão e beterraba. Isso significa que produtos consumidos nas grandes cidades estão contaminados por essa substância.

E os resultados não param por aí: o acefato, também indicado pela análise da Anvisa para ser banido no Brasil, foi encontrado em culturas de cebola e cenoura; e o metamidofós, também com banimento indicado e proibido em 37 países, foi encontrado em culturas de pimentão, tomate, alface e cebola. Mas o contato da população com os agrotóxicos vai além: Letícia também contou que, de acordo com dados de um estudo feito pela Universidade Federal do Mato Grosso em parceira com a Fiocruz, foi encontrado endossulfan em águas de chuva coletadas no Mato Grosso. De 104 amostras, 40 continham endossulfan alfa, 58 endossulfan beta e 40 endossulfan sulfato.

Para Alexandre Pessoa, professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz, que esteve presente no Seminário, a presença de agrotóxicos em águas de chuva tem implicações muito profundas: “A apresentação desses dados nos causa imensa preocupação. A contaminação das águas de chuva pela pulverização de agrotóxicos em grandes fazendas, feita através de aviões, tem impactos também para políticas públicas desenvolvidas pelo próprio governo federal. Exemplo disso são os programas Um Milhão de Cisternas e 1+2, através dos quais o governo faz uma parceria com a Articulação do Semi-Árido para utilização das águas de chuva para consumo dos pequenos agricultores. A presença de agrotóxicos nessas águas compromete o projeto”, adverte. E lembra: “As águas têm sido contaminadas em todo o seu ciclo hidrológico. Isso afeta não apenas as águas de chuva, mas também os corpos hídricos superficiais e o lençol freático. Nesse momento, está em revisão a portaria nº 518 do Ministério da Saúde [que estabelece procedimentos e responsabilidades do controle e da vigilância da qualidade da água] e isso precisa ser levado em consideração”.

Rosany Bochner, pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), explicou que os resultados considerados insatisfatórios pelo PARA dividem-se em duas categorias: resíduos que podem causar dano à saúde porque excederam os limites máximos estabelecidos em legislação e resíduos que podem causar dano à saúde porque são agrotóxicos não autorizados para aquele determinado alimento. Segundo dados do último ano, apresentados pela pesquisadora, 10% dos resultados insatisfatórios referem-se ao primeiro caso, e 85% ao segundo.

Esses danos à saúde podem ser divididos em agudos e crônicos. “Os efeitos agudos são aqueles mais visíveis, e que aparecem durante ou após o contato da pessoa com o produto e apresentam características mais marcantes. Já os efeitos crônicos podem aparecer semanas, meses, anos ou até mesmo gerações após o período de uso ou contato com o produto”, explicou. E completou: “Hoje temos uma situação que chamamos de iceberg da informação. Os problemas que mais conhecemos são os decorrentes das intoxicações por exposição aguda, o que é apenas uma ponta que fica mais visível. Os casos de intoxicações por exposição crônica, muito maiores, ficam escondidos”, analisou. Rosany é pesquisadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), criado em 1980 e vinculado à Fiocruz. O Sinitox é responsável pela coleta, compilação, análise e divulgação dos casos de intoxicação e envenenamento registrados pela Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica, e desde 2002 atua em conjunto com a Anvisa.

Economia política dos agrotóxicos

Os dados apresentados pela Anvisa também apontam elementos que remontam ao papel econômico da venda de agrotóxicos: enquanto o mercado mundial movimentado pela venda dessas substâncias cresceu 94% no mundo na última década, o índice de crescimento específico no Brasil no mesmo período foi de 172%. Segundo Letícia Silva, o fato de o país ser o maior consumidor de agrotóxicos do mundo amplia em muito as disputas judiciais no setor. Ela explica que a pressão política das empresas produtoras de agrotóxicos contra as reavaliações na Anvisa vem crescendo, o que passa inclusive pela tentativa de desqualificação técnica das restrições impostas pela Agência.

Ela lembra, ainda, que após países como China e Estados Unidos proibirem substâncias que ainda são permitidas no Brasil, essa pressão aumentou. A representante da Anvisa lembra que a legislação que rege o uso de agrotóxicos, a Lei 7802, de 1989, é avançada no sentido de regular o uso dessas substâncias. “Mas o que vemos desde que ela foi aprovada é uma pressão política que se reverteu em uma série de decretos, todos no sentido de flexibilizar a fiscalização e estender os prazos de adaptação às empresas produtoras”.

Segundo Horário Martins, engenheiro agrônomo que foi debatedor no Seminário, o mercado de agrotóxicos é extremamente concentrado. Ele explicou que as grandes empresas multinacionais que controlam a oferta e demanda de agrotóxicos atuam também nos ramos de sementes, na farmacêutica e veterinária, concentrando as áreas da biotecnologia. Os dados confirmam: as seis maiores empresas produtoras de agrotóxicos no mundo (Syngenta, Bayer, Monsanto, Basf, Dow e DuPont) concentram cerca de 70% de todo o mercado dessas substâncias. Horácio destacou, ainda, que somente a Monsanto reponde, hoje, por 25% do mercado brasileiro de sementes de hortaliças, estimado em US$ 200 milhões anuais. Segundo ele, essa alta concentração reflete um modelo de produção agrícola voltado para os lucros, que pressiona o setor público e consegue, direta ou indiretamente, influenciar os processos de construção dos marcos regulatórios para o uso dos agrotóxicos. “Estamos diante da perspectiva de o capital financeiro, representado por essas grandes empresas, controlar as áreas de saúde e alimentação”, analisou. O engenheiro agrônomo apontou que o agronegócio, representado pelas grandes empresas que controlam o mercado de sementes, agrotóxicos e também de transgênicos, determina um novo sistema agroalimentar mundial. A modificação genética de sementes para recebimento de agrotóxicos, segundo ele, demonstra como os transgênicos fazem parte de uma estratégia para vender pesticidas e aquecer esse lucrativo mercado.

Dados apresentados por Sílvio Porto, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), confirmam: a utilização de transgênicos não minimiza os custos e nem o uso de agrotóxicos, como muitas vezes afirmam as empresas. No ramo da soja, a venda de herbicidas passou de 73.302 toneladas em 2000 para 142.169 toneladas em 2005 e atingiu 226.825 toneladas em 2009, o que representou um aumento de 209% na década. Já a área plantada passou de 13, 97 milhões de hectares em 2000 para 22,74 milhões de hectares em 2005 e chegou a 23,35 em 2009, um aumento de 67%.

Agroecologia como alternativa

O Seminário realizado na Escola Nacional Florestan Fernandes também se dedicou à discussão das alternativas ao modelo do agronegócio, sustentado e impulsionador do uso abusivo de agrotóxicos. Segundo Denis Monteiro, da Articulação Nacional de Agroecologia, a agricultura familiar vem sendo discutida cada vez mais entre os movimentos sociais e deixando de ser considerada ‘coisa de fundo de quintal’: “A agroecologia e agricultura familiar têm aparecido como uma real alternativa ao agronegócio. Esse debate está na pauta dos movimentos sociais e estamos conseguindo mostrar que sementes produzidas e guardadas pelos povos agricultores são mais produtivas e têm menor custo do que as sementes transgênicas do agronegócio”, disse, lembrando que o enfrentamento aos transgênicos deve se dar conjuntamente ao enfrentamento aos agrotóxicos: “Trata-se da mesma lógica. Os transgênicos também estão relacionados à monocultura, degradação ambiental, dependência tecnológica de grandes empresas e determinam o aumento do uso de agrotóxicos”.

Como encaminhamento concreto, o Seminário aprovou, consensualmente, a construção da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Segundo Alexandre Pessoa, a iniciativa combinará denúncias e proposições: “As organizações presentes decidiram organizar-se em dois eixos, que são o combate aos agrotóxicos e o desenvolvimento da alternativa de produção saudável consolidada na agroecologia. A Campanha, que deverá ser construída nacional e internacionalmente, deve estabelecer um conjunto de ações permanentes que revelarão com estudos, pesquisas e mobilização social os impactos e riscos à saúde pública decorrentes do uso intensivo de agrotóxicos no Brasil. Isso será combinado com desenvolvimento de ações de agroecologia, que deve ser difundida como alternativa no país”.
, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio

(Adital/MercadoÉtico)

20% das espécies de plantas no mundo corre risco de extinção



O habitat mais ameaçado são as florestas tropicais, como a Amazônia.

As plantas são tão ameaçadas pelo risco de extinção como os mamíferos, de acordo com uma análise global realizada por instituições europeias. O estudo revelou que uma em cada cinco espécies de plantas no mundo corre risco de extinção.

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção, com os resultados da análise realizada pelo Royal Botanic Gardens de Kew e pelo Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido, e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), foi divulgada nesta terça-feira (28/9), na capital inglesa.

O estudo, considerado uma das principais bases para a conservação, revelou a verdadeira extensão da ameaça às plantas do mundo, estimadas em cerca de 380 mil espécies.

Cientistas das três instituições realizaram avaliações a partir de uma amostra representativa de plantas de todo o mundo, em resposta ao Ano Internacional da Biodiversidade das Nações Unidas e às Metas de Biodiversidade – 2010.

Os resultados anunciados deverão ser considerados na Cúpula da Biodiversidade das Nações Unidas, que reunirá governos em meados de outubro em Nagoia, no Japão, com o objetivo de estabelecer novas metas.

O trabalho teve apoio principalmente na ampla base de informações botânicas do Herbário, Biblioteca, Arte e Arquivos de Kew – que inclui cerca de 8 milhões de espécimes preservadas de plantas e fungos –, nos 6 milhões de espécimes do herbário do Museu de História Natural, em dados digitais de outras fontes e nas bases de informação da rede de parceiros dos Royal Botanic Gardens em todo o mundo.

“O estudo confirma o que já suspeitávamos: as plantas estão sob ameaça e a principal causa é a degradação induzida por humanos em seus habitats”, disse Stephen Hopper, diretor dos Royal Botanic Gardens de Kew.

“Pela primeira vez temos um retrato global claro do risco de extinção das plantas mais conhecidas no mundo. Esse relatório mostra as ameaças mais urgentes e indica as regiões mais ameaçadas”, afirmou.

Segundo Hopper, existem questões cruciais para serem respondidas, como qual a velocidade e a causa da perda de espécies e o que pode ser feito com relação a isso.

“Para responder a essas questões, precisamos estabelecer uma base a partir da qual possamos medir as transformações. A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção faz exatamente isso, avaliando uma ampla amostra de espécies vegetais que são coletivamente representativas de todas as plantas do mundo”, disse.

O cientista acrescentou que as Metas de Biodiversidade para 2020, que serão discutidas em Nagoia, são ambiciosas. Mas um aumento de escala nos esforços se faz necessário em um momento de perda pronunciada da biodiversidade. “As plantas são o fundamento da biodiversidade e sua relevância para as incertezas climáticas, econômicas e políticas tem sido negligenciada por muito tempo”, afirmou.

“Não podemos ficar de braços cruzados olhando as espécies vegetais desaparecer – as plantas são a base de toda a vida na Terra, fornecendo ar limpo, água, comida e combustível. A vida de todo animal e ave depende delas, assim como a nossa. Obter as ferramentas e o conhecimento necessários para reverter a perda de biodiversidade é agora mais importante que nunca. A Lista Vermelha dá essa ferramenta aos cientistas e conservacionistas”, destacou.

Alguns dos dados revelados pelo estudo:

* Cerca de um terço das espécies (33%) da amostra é conhecida em grau insuficiente para permitir uma avaliação de conservação. Isso demonstra a escala da tarefa de conservação que será enfrentada por botânicos e cientistas – muitas plantas são tão pouco conhecidas que não é possível saber se estão ou não em perigo.
* De quase 4 mil espécies que foram cuidadosamente avaliadas, mais de um quinto (22%) foi classificado como ameaçado.
* Plantas são mais ameaçadas que aves, tão ameaçadas como mamíferos e menos ameaçadas que anfíbios e corais.
* Gimnospermas – o grupo vegetal que inclui as coníferas – são o grupo mais ameaçado.
* O habitat mais ameaçado são as florestas tropicais, como a Amazônia.
* A maior parte das plantas ameaçadas é encontrada nos trópicos.
* O processo mais ameaçador é a perda de habitat induzida pelo homem, em especial a conversão de habitats naturais para uso da agricultura.
Foto: Araquém Alcântara
Agência Fapesp/Minha caa Meu mundo

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Homenagem a Mi Sato

Editus DVD 360 - ¨Tocú¨


Só para ajudar a alegrar o seu dia........

Vote pelos animais!




Uma campanha genial dá as dicas de como votar nestas eleições em quem também leva em conta o bem-estar animal. A promotora da campanha é a Sociedade Mundial de Proteção Animal(WSPA), que fez um mapeamento dos candidatos das várias regiões do País, segundo seu histórico de ética e e preocupação com a causa animal.



Confira a lista de candidatos antes de fazer sua escolha e não deixe sua vaca ir pro brejo!Confira o site da WSPA

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pantanal ameaçado pelas mudanças climáticas. Entrevista especial com Paulo Teixeira de Sousa Júnior


Por Redação IHU


Além do clima extremamente seco nesta época do ano, a baixa produção da pecuária contribui para a maior intensidade de focos de queimada no Pantanal, menciona Paulo Teixeira à IHU On-Line. Ele explica que com a perda da competitividade econômica do gado pantaneiro e, progressivamente, a redução desses animais no ecossistema, a biomassa cresceu na região. “Esses animais pisam na grama e a presença deles, na época das secas, acabava tendo um impacto positivo no sentido de evitar as queimadas porque a biomassa estava menor. Temos hoje um volume muito maior de biomassa, grama e outros resíduos que o gado come e, nessa época, isso seca e pega fogo”.

Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, Teixeira aponta as mudanças climáticas como uma ameaça ao Pantanal e outras áreas úmidas. “De acordo com o pior cenário apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC (sigla em inglês), podemos ter uma redução de até 85% das áreas úmidas com a questão das mudanças climáticas. Isso será desastroso, porque estima-se que as áreas úmidas armazenam uma quantidade de carbono duas vezes superiores ao que já tem na atmosfera”. Em contrapartida, áreas úmidas como a pantaneira são fundamentais para mitigar os efeitos das mudanças climáticas na medida em que regulam o ciclo hidrológico e purificam a água.

Paulo Teixeira de Sousa Júnior é graduado em Química pela Universidade de Brasília - UnB. Obteve os títulos de mestre e doutor em Química Orgânica pela Universidade de São Paulo - USP e pela University of East Anglia, na Inglaterra, respectivamente. Atualmente, atua como voluntário no Centro de Pesquisas do Pantanal. É também diretor Pantanal Regional Environmental Programme, um dos 14 centros de pesquisa da United Nations University, e professor da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Mato Grosso registra o pior desastre de sua história em função das queimadas. Quais os motivos das queimadas na região e seus efeitos para o Pantanal?

Paulo Teixeira – Uma das principais razões dessas queimadas é o clima extremamente seco deste ano. No mês de setembro, na região Centro-Oeste, o clima é bastante seco e isso origina as queimadas. Outra razão dessa maior intensidade de focos de queimadas no Pantanal diz respeito à produção de gado. Nos últimos anos, com a perda da competitividade econômica do gado pantaneiro, reduziu-se o número de cabeças de gado na região e isso começou a permitir que a biomassa crescesse: esses animais pisam na grama e a presença deles, na época das secas, acabava tendo um impacto positivo no sentido de evitar as queimadas porque a biomassa estava menor. Temos hoje um volume muito maior de biomassa, grama e outros resíduos que o gado come e, nessa época, isso seca e pega fogo. Esse é um fato que vai contra o senso comum de outras regiões: enquanto em alguns locais do país o gado é o causador do impacto ambiental, no Pantanal, o que está causando impacto ambiental é a saída do gado.

Outra razão que tem influenciado o avanço das queimadas é a retirada da mata do Pantanal para produzir carvão para carvoarias.

IHU On-Line - Quais as consequências caso o fogo se espalhe?

Paulo Teixeira – As consequências são a perda da biodiversidade e prejuízos para a pecuária local, a qual já está abalada.

A questão do fogo no Pantanal não é incomum. Alguns pesquisadores inclusive advogam a questão da queimada controlada no Pantanal. Há uma controvérsia na região a respeito de dever ou não ser permitido fazer queimadas controladas, as quais vêm sendo feitas há alguns anos. Não é a queimada em si que geraria o problema, mas a forma descontrolada e o volume de fogo que está acontecendo neste momento.

IHU On-Line - Qual a necessidade de preservar as áreas úmidas, por exemplo, o Pantanal, como uma resposta para as mudanças climáticas globais? O ecossistema corre algum risco em função das mudanças climáticas e do aquecimento global?

Paulo Teixeira – O Pantanal contribui para melhorar os impactos das mudanças climáticas na medida em que regula o ciclo hidrológico e purifica a água, atuando como se fosse uma esponja: na época das chuvas, ele absorve lentamente a água e, na época das secas, essa água vai sendo lentamente liberada. De acordo com o pior cenário apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC (sigla em inglês), podemos ter uma redução de até 85% das áreas úmidas com a questão das mudanças climáticas. Isso será desastroso, porque estima-se que as áreas úmidas armazenam uma quantidade de carbono duas vezes superiores ao que já tem na atmosfera. Mas isso se aplica mais a outras áreas úmidas do que ao Pantanal, como a tundra, no norte do Canadá e a região do norte da Escócia, que têm áreas úmidas com solos ricos em carbono. O Pantanal não é um bom poço de carbono, ele armazena mais carbono na biomassa e na vegetação existente no ecossistema.

Caso essa previsão do IPCC se confirme, esse carbono será liberado para a atmosfera, alimentando o efeito estufa e gerando um ciclo perverso: mais CO2, agravamento do efeito estufa e redução do nível das áreas úmidas.

IHU On-Line – O impacto das mudanças climáticas é diferente em áreas úmidas e áreas secas?

Paulo Teixeira – O impacto em si não muda; vamos conviver com eventos extremos: chuvas e secas serão mais intensos. As áreas úmidas tendem a mitigar o impacto das mudanças climáticas porque elas contribuem para a estabilização do microclima regional. Se, com as mudanças climáticas, se reduzirem as áreas úmidas, se reduz também a zona tampão. Então, perderemos esse serviço ambiental das áreas úmidas.

IHU On-Line - Qual é a importância de áreas de transição como o Pantanal para o equilíbrio do ecossistema?

Paulo Teixeira – Esse fenômeno, que chamamos de pulsos de inundação, que é exatamente esse movimento de vai e vem das águas, é fundamental para a manutenção do ecossistema na região. Isso porque, na época das cheias, a água carrega nutrientes e se amplia a área de pastagem para os organismos aquáticos e, na época da seca, esses organismos aquáticos se restringem a corpos d’água menores e passamos a ter locais ricos em organismos aquáticos que servem de pastagem para os organismos terrestres. É exatamente esse vai e vem das águas o responsável pela riqueza da biodiversidade de áreas úmidas tropicais com as características do Pantanal.

IHU On-Line - Quais os impactos da alteração ambiental do planalto do Pantanal e como isso se reflete no ecossistema?

Paulo Teixeira – Infelizmente, a maneira como a agricultura vem sendo praticada no planalto, em alguns casos, causa impactos bastante negativos porque ela tende a causar assoreamento dos rios. Há um carreamento muito grande de detritos sólidos por causa da compactação dos solos e do uso intensivo de pesticidas. Por exemplo, no Mato Grosso do Sul temos o rio Taquari, que foi completamente assoreado, já perdeu a calha por conta disso. A agricultura empresarial, da forma como tem sido feita no planalto, em alguns casos, onde a legislação não tem sido seguida, tem sido bastante prejudicial. Temos legislação adequada para que isso não ocorra, mas nem sempre essa legislação é obedecida.

IHU On-Line - Áreas úmidas como a pantaneira têm um papel importante na garantia de água limpa e produção de alimentos?

Paulo Teixeira – Tem. Esse papel que as áreas úmidas têm na produção de alimentos é algo muito antigo. Vemos a própria história do rio Nilo, no Egito; é nada mais do que isso. Na época da cheia, o rio Nilo levava nutrientes para o solo e em toda aquela região em volta deste rio se planta muita coisa até hoje. O mesmo ocorre aqui. Só que a planície pantaneira não é apropriada para a agricultura. Mas temos lá criação de gado, temos uma região que dá muito peixe. Não dá para fazer agricultura em larga escala naquela região, mas ela produz alimentos na medida em que produz gado e peixe.

IHU On-Line - Que fatores estão causando alterações no meio ambiente e na biodiversidade do Pantanal?

Paulo Teixeira – Um pouco tem relação com essa questão da forma com que a agricultura é praticada no planalto. Os principais impactos ambientais que o Pantanal sofre vêm do planalto e não da planície, mas não são os únicos. Existem também impactos ambientais que ocorrem na planície pantaneira. Temos, no Mato Grosso do Sul, um problema de desmatamento da planície para abastecer carvoarias. Lá e também no Mato Grosso, no Pantanal em geral, um problema que tem ocorrido é a perda de competitividade do gado pantaneiro. Se olharmos uns 40 anos atrás, as músicas que falavam em gado sempre o associavam ao Pantanal. Hoje não é mais assim. O gado daqui perdeu a competitividade para o gado de outras regiões e isso está empobrecendo a população local com consequências no meio ambiente. Isso porque esse gado vem sendo criado aqui há mais de 300 anos e o ecossistema de adaptou à presença dele.

Na época da seca, ele come a biomassa e pisa encima do capim, de maneira que onde tem gado, em época de seca, não temos um volume de biomassa muito grande. A retirada do gado está fazendo com que essa biomassa cresça bastante e na época da seca pega fogo e causa impacto em função disso. Ademais, os fazendeiros tradicionais têm um processo que se chama limpeza de campo, que vem sendo feito de maneira sustentável há bastante tempo, porque o gado já está acostumado com o bioma local.

O empobrecimento da região está levando a um barateamento das terras, que vêm sendo vendidas para pessoas de outras regiões que, por desconhecimento, têm causado impactos quando vão fazer a limpeza de campo de maneira inadequada. Podemos colocar as ameaças ao Pantanal em três níveis: da planície (com as fazendas de gado); do planalto (com a agricultura em larga escala que tem causado assoreamento dos rios); e sob o ponto de vista ainda do planalto podemos citar a questão das pequenas hidrelétricas. Tem-se implantado uma série de hidrelétricas e o que as autoridades têm visto é o impacto de cada uma isoladamente.

Com relação ao aspecto global, a principal ameaça que temos hoje no Pantanal ou nas áreas úmidas em geral são as mudanças climáticas. Segundo as previsões mais pessimistas do IPCC, podemos ter uma redução de 85% das áreas úmidas, com todas as consequências nefastas que isso acarreta, de perda dos serviços ecossistêmicos dessas áreas.

IHU On-Line - Alguns especialistas dizem que, nos EUA, a destruição de áreas úmidas ocasionou grandes enchentes. Isso é real? No Brasil, isso pode ocorrer caso não haja uma política de preservação no Pantanal?

Paulo Teixeira – É um risco, porque, se desregulamos o ciclo hidrológico, pode acontecer uma série de consequências, inclusive enchentes.

IHU On-Line – A nova proposta do Código Florestal pode ser boa para o Pantanal?

Paulo Teixeira – Essa nova proposta que está em debate não é boa para ninguém. É boa só para o agronegócio. O lobby da bancada ruralista no Congresso em cima da proposta foi muito forte e há uma rejeição muito grande de vários setores da sociedade a essa proposta. Acreditamos que o bom senso ao final vá prevalecer, porque a pressão social está muito grande. Antes das eleições não deve sair a votação. Mas se passar, essa proposta será preocupante. Mas acredito que não passe. Temos que ser otimistas.
(Envolverde/IHU On-Line)

domingo, 26 de setembro de 2010

ONG britânica escolhe Fotógrafo de Meio Ambiente de 2010


A edição de 2010 do prêmio Fotógrafo de Meio Ambiente do Ano da ONG britânica Instituto para a Gestão do Meio Ambiente e da Água (CIWEM, na sigla em inglês) premiou o alemão Florian Schulz pelo registro de um grande grupo de arraias na costa do México.

A competição aceita inscrições de amadores e profissionais contanto que seus trabalhos reflitam questões climáticas, sociais e a natureza.

Criado em 2008, o prêmio já é considerado uma referência internacional.

As fotos são julgadas em cinco quesitos: impacto, criatividade, originalidade, composição e qualidade técnica.

Os vencedores do concurso irão participar de uma mostra na galeria londrina The Air entre 25 e 30 de outubro. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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Estadão

sábado, 25 de setembro de 2010

Dia Mundial com Carro... Compartilhado


Por Helio Mattar*, do Instituto Akatu

E com mais e melhores redes de metrô e trem, corredores de ônibus, hidrovias e ciclovias.

Ouço no noticiário do rádio e leio nos portais e blogs de internet comentaristas e cidadãos indignados com a cidade parada em congestionamentos, como ocorre diariamente. “Mas hoje não é o Dia Mundial sem Carro?”, questionam quase furiosos.

Assim que os relógios bateram zero hora de hoje, nossos problemas de excesso de veículos e falta de transporte público suficiente e decente não acabaram. O planejamento de nossas cidades não passou à meia noite de ontem, feito um lobisomem do bem, a priorizar o transporte coletivo de massa – sustentável e sustentado, amplo, articulado, ramificado e vascularizado – em vez dos carros. Não deixamos, de um minuto para outro, de construir túneis e pontes para investir mais em trens, metrô, ciclovias, corredores de ônibus e outras inovações que atendam às necessidades das grandes cidades e apontem para um transporte público de baixo carbono e eficiente.

Não, isso é processo. Depende de conscientização, reflexão e mobilização. E é precisamente para isso que existem as intervenções do Dia Mundial sem Carro, das quais o Akatu participa. Para que nos próximos Dias Mundiais sem Carro tenhamos efetivamente menos carros nas ruas; percamos menos tempo, saúde e dinheiro no trânsito e ganhemos em qualidade de vida, disposição no trabalho e convivência com a família e os amigos.

Se ao poder público falta muito ainda que avançar em planejamento e realizações de mobilidade, o que nós, consumidores, temos feito para contribuir? Dia Mundial sem Carro é momento para refletirmos. Exceto pelo reconhecimento social, precisamos mesmo de carro próprio? Ou precisamos de transporte? Precisamos nos deslocar?

No ano passado, o Brasil produziu 3,1 milhões de veículos. Já somos o sexto produtor mundial, atrás de China (13,7 milhões), Japão (7,9 milhões), EUA (5,7 milhões), Alemanha (5,2 milhões) e Coreia do Sul (3,5 milhões).

Projeções do governo e da indústria apontam que nesse ano, produziremos mais 3,4 milhões, e a produção brasileira deve dobrar até 2025. Somando-se à massa de metal que já circula pelas nossas cidades.

Será que a vida no planeta agüenta? Ainda que achemos solução para a equação da energia, que encontremos tecnologias novas e baratas de motores elétricos a partir de energia solar ou eólica para substituir os combustíveis de petróleo, resta-nos a equação da matéria física. A Terra é finita, hoje já exploramos 30% a mais de recursos que o planeta pode repor. De onde tiraremos minérios e água? E onde poremos todos esses carros? As grandes cidades já mostram sua saturação.

Segundo pesquisa do Movimento Nossa São Paulo, o paulistano economicamente ativo médio perde por dia duas horas e quarenta minutos no trânsito. São 973 horas em um ano. Em uma vida, são 58,4 mil horas ou 2.433 dias ou 81 meses ou quase sete anos. Quase sete anos da vida no trânsito!

Na cidade de São Paulo, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), R$ 33 bilhões são perdidos na produção por ano por causa do trânsito. Esse montante corresponde a 10% do PIB do município. O crescimento desordenado da frota e dos sistemas de trânsito da cidade se vinga na própria cidade. Em dez anos, a (falta de) mobilidade em São Paulo consome um ano inteiro de São Paulo.

Além de mais ciclovias, mais metrô, trens, ônibus e de tornar nosso rios navegáveis – como ocorre na Europa e na Ásia –, uma opção para mobilidade mais sustentável é o sistema de carros compartilhados – o car sharing como é chamado nos EUA e Europa.

Tão simples quanto eficiente, o carro compartilhado fica disponível em estacionamentos estrategicamente localizados na cidade e pode ser alugado e devolvido em qualquer uma. O usuário faz um cadastro, paga uma mensalidade ou anuidade, e recebe um cartão magnético que lhe dá acesso ao serviço. Passa o cartão tanto na retirada como na entrega do veículo e paga por hora ou quilômetro rodado. A conta é fechada mensalmente e debitada em cartão de crédito.

Impostos, combustível, seguro e manutenção do carro correm por conta da locadora. O sistema funciona integrado com os outros modais de transporte, e os estacionamentos ficam próximos a estações de trem, metrô, bicicletários, terminais de barco e ônibus.

O car sharing pode também potencializar o uso do táxi, indo de casa, do consultório ou do escritório até o estacionamento mais próximo. E para levar alguém ao aeroporto ou ao porto? Reuniões ou consultas distantes? Estádios de futebol também são pontos estratégicos, imagine não ter mais de procurar estacionamento no jogo do seu time...

O sistema ainda engatinha, em São Paulo. É o primeiro da Amércia Latina e começou com sete veículos há dois anos; são 12 carros hoje distribuídos em 11 estacionamentos na região da avenida Paulista. Mas em Londres, Paris e Nova York já é comum; na Suíça, o car sharing já soma 75 mil clientes e 2.000 carros à disposição.

A modalidade começou há 20 anos na Alemanha e era ridicularizada, vista como iniciativa de “ecochato”. Mas o negócio cresceu a taxas anuais de 20%, inclusive na crise de 2008 e 2009.

A idéia não é obrigar o usuário a deixar o carro em casa. Nenhuma “mobilização” forçada funciona. Mas é dar informação sobre os impactos do uso do carro individual e oferecer opções. Além de desafogar o trânsito, a prática ajuda o meio ambiente. Segundo uma empresa que opera na cidade de Colônia, na Alemanha, um carro compartilhado tira cinco carros privados das ruas. Estudo norte-americano aponta que lá são 13 carros particulares retirados de circulação.

Em Paris, já virou política pública: a prefeitura criou um programa para oferecer 3.000 carros compartilhados no ano que vem. A meta é reduzir 200 mil toneladas de emissões de CO2 por ano. O custo? Cerca de 40 milhões de euros (aproximadamente R$ 96 milhões).

Só na cidade São Paulo, segundo o Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP, 4.000 pessoas morrem todos os anos por causa da poluição do ar, 80% de origem veicular. O custo disso para o sistema de saúde chega a R$ 1,5 bilhão anual.

Alguém se anima a estender a implementação do carro compartilhado nas várias metrópoles brasileiras?

*Helio Mattar é diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e não usa carro de casa para o trabalho

(Envolverde/Instituto Akatu)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

ALERTA! Estudo denuncia invasão de terras indígenas no Mato Grosso


Redação Repórter Brasil

Terra Indígena Maraiwatsede, dos índios Xavante, tem 90% de sua área tomada por fazendeiros. Dois projetos de soja são responsáveis pelo maior desmatamento em Unidades de Conservação do Estado, destaca levantamento.

O Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA) da ONG Repórter Brasil lançou, nesta semana, novo estudo sobre os impactos da soja, com foco nos reflexos em Terras Indígenas (TIs) do Mato Grosso.

Maior produtor do grão no país, Mato Grosso abriga também o maior número de TIs. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2008, apenas 44 (ou 31,2%) dos 141 municípios do Estado não cultivam soja ou não tinham registro da cultura. No mesmo ano, 54 cidades (38,3%) tinham entre 10 mil e 575 mil hectares de soja. Das 78 TIs listadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) em terreno mato-grossense, ao menos 30 ficam em municípios com mais de 10 mil hectares de soja.

Problemas inerentes à produção de soja no Cerrado, como desmatamento, desertificação, pressão sobre os territórios, contaminação de solos e de cursos d´água já têm afetado várias aldeias indígenas.

Um dos casos mais graves é a invasão e o desmatamento dentro da TI Maraiwatsede. Homologada pelo governo federal em 1998 com extensão de 165 mil hectares, a área permanece com 90% de seu território tomado ilegalmente por fazendeiros e posseiros não indígenas, majoritariamente criadores de gado e produtores de soja e arroz. Estas atividades são responsáveis por um dos maiores desflorestamentos registrados em áreas protegidas no Mato Grosso: 45% da mata nativa da TI Maraiwatsede já foi destruída, como aponta o Relatório 2010 do Programa de Monitoramento de Áreas Especiais (ProAE) do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam).

Entre os invasores, estão “personalidades” - o ex, o atual e o irmão do prefeito de Alto Boa Vista (MT), o prefeito de São Félix do Araguaia (MT), e vários vereadores. Mas são duas fazendas de soja as maiores responsáveis pelo desmatamento ilegal da área, tendo sido multadas várias vezes pelo Instituto Brasileiro de Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e agora denunciadas também pelo Ministério Público Federal (MPF).

O estudo destrincha este caso e aborda ainda a pressão da sojicultura em outras áreas, como a TI Sangradouro, também dos Xavantes, e terras de Paresi, Irantxe e Nambikwara, que passaram a cultivar soja em parcerias com fazendeiros, questionadas pelo poder público.

Por fim, o relatório do CMA/Repórter Brasil discute alternativas e boas práticas do setor, como o projeto Y Ikatu Xingu, que busca recuperar as áreas degradadas da cabeceira do Rio Xingu.

(Repórter Brasil)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ambientalistas criam "praia" no Tietê, em São Paulo



Os canteiros da marginal Tietê, em São Paulo, foram tomados na manhã desta quarta-feira por pessoas em trajes de banho, guarda-sóis, cadeiras e esteiras, entre as pontes das Bandeiras e Cruzeiro do Sul.


ONG lança campanha Vá de Galinha em SP

Foi a segunda edição do "Praia no Tietê", um movimento organizado pela Fundação SOS Mata Atlântica com o objetivo de chamar a atenção para a despoluição do rio, cujo dia oficial é hoje.

Além da "praia", entre as 9h e as 13h, artistas de circo e de teatro apresentaram-se à beira do rio. Dois botes infláveis, cada um com quatro pessoas usando roupas especiais que protegiam da poluição, navegaram pelo Tietê da barragem da Penha até a ponte das Bandeiras.

De acordo com a fundação, a iniciativa pretende mostrar que o rio pode voltar a ser limpo e se tornar uma opção de lazer e de meio de transporte para os paulistanos.

Fundação SOS Mata Atlântica colocou banhistas com guarda-sois, cadeiras e esteiras à beira do rio Tietê

A iniciativa aproveitou o período eleitoral para cobrar políticas públicas voltadas à qualidade de vida e à continuidade das obras de descontaminação do rio.

A Sabesp iniciou também hoje a terceira fase de despoluição do Tietê, que deve consumir US$ 1,05 bilhão (em torno de R$ 1,8 bilhão) em investimentos. Só o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) investirá US$ 600 milhões na empreitada, segundo a companhia.

Nessa fase da despoluição, a Sabesp pretende construir redes coletoras de esgoto para 1,5 milhão de pessoas e tratar o esgoto coletado de outros 3 milhões de moradores da cidade. Até hoje, a companhia já investiu US$ 1,6 bilhão no Projeto Tietê.

Aproveitando o mote do Dia Mundial Sem Carro, lembrado também nesta quarta, a SOS Mata Atlântica montou uma simulação de ciclovia à beira do rio, como alternativa de transporte limpo na marginal.

A fundação também lançou a campanha "Vá de Galinha", para incentivar o motorista a deixar o carro em casa.
Folhaonline
Danilo Verpa/Folhapress

O que faltou nos debates políticos

Leonardo Boff


Nos debates políticos da campanha presidencial, temas fundamentais sequer foram tocados: que papel o Brasil vai desempenhar diante do horizonte sombrio que se está armando, para os próximos anos, sobre o planeta Terra com a acelerada exaustão de bens e serviços naturais e a gravidade dos eventos extremos de secas, enchentes e desertificação crescente, sem falar dos milhões de refugiados climáticos que não param de crescer?

Somos um país com vantagens comparativas inigualáveis em termos de água, de florestas úmidas, de biodiversidade e de fontes de energia alternativa e limpa, entre outras. Tais vantagens implicam uma responsabilidade irrenunciável de nossa parte, no sentido de ajudar nações em crise e na busca do equilíbrio perdido do sistema-Terra. Sobre tais questões quase nada se falou, à exceção de Marina Silva. Não queremos que se torne verdade o que advertiu recentemente o físico Stephen Hawking: “O ser humano precisa abandonar a Terra nos próximos 100 anos ou tornar-se uma espécie extinta”.

O Brasil está repleto de contradições. Por um lado, participa da tragédia global da humanidade pelas injustiças sociais que carrega e, por outro, possui todos os ingredientes para uma alternativa civilizatória de significado universal, como já o apontava, há tempos, o senador Cristovam Buarque.

Além da significativa contribuição ecológica que pode oferecer, vejo, entre tantos valores relevantes de nossa experiência como povo, dois que podem configurar positivamente a fase planetária da humanidade: nossa criatividade o nosso capital de esperança.

A criatividade pertence à essência do ser humano, pois ele não é um ser pronto, mas está sempre por fazer. Criatividade supõe capacidade de improvisação, descoberta de saídas surpreendentes e espontaneidade na ruptura de tabus ligados a traços culturais. Penando sob a colonização e a escravidão, o povo inventou mil formas de dar um jeito na vida, de resistir, de negociar, de protelar e de sobreviver, nunca perdendo o sentido de humor, de festa o encantamento pela vida.

Bem dizia Celso Furtado: “uma sociedade só se transforma se tiver capacidade para improvisar… ter ou não acesso à criatividade, eis a questão” (O longo amanhecer 1999 pp. 79 e 67). A maioria dos gestores públicos não sabe valorizar esse enorme potencial criativo do povo e democratizá-lo para todos.

No mundo globalizado faz-se urgente a criatividade para dar uma moldura diferente a esse fenômeno inédito. Há o risco de que seja mais do mesmo, prolongando o velho paradigma, baseado na dominação dos outros e da natureza, sempre em função dos mais fortes e opulentos.

Depois, há o superávit de esperança, própria da alma brasileira. A esperança é a última que morre. É por ela que temos a confiança de que Deus escreve direito por linhas tortas. A esperança projeta continuamente visões otimistas. “Um dia a coisa vai mudar… se Deus quiser” ouve-se frequentemente na boca do povo. Nossas canções estão perpassadas de esperança. Assim cantam as comunidades eclesiais de base: “virá um dia em que todos, ao levantar a vista, veremos nesta terra, reinar a liberdade”. Essa aura de esperança permite relativizar e tornar suportáveis os dramas que milhões padecem. Por causa da esperança de que o Inesperado pode ocorrer, resistem e se organizam para torná-lo real e não deixá-lo apenas mera utopia que é a má utopia.

A crise econômico-financeira de 2008 projetou, por todas as partes, uma nuvem escura da desesperança principalmente entre os pobres, cujo numero cresceu em 200 milhões. Se não houver esperança de dias melhores através de políticas mundiais de solidariedade e de corresponsabilidade coletiva, conheceremos a violência da insurreição das vítimas e da repressão dos poderosos, de dimensões inimagináveis.

A carga utópica que caracteriza a cultura brasileira que se traduz por inarredável confiança no futuro com algo promissor e benfazejo, poderá ajudar a remover a sensação de impotência e a superar a cultura do cinismo. O Brasil pode ser o antecipador da “Terra da boa Esperança” (Ignace Sachs), de uma civilização biocentrada, cordial e ecumênica.

Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.
Mercado Ético

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pátria Madrasta Vil

REDAÇÃO QUE VENCEU CONCURSO DA UNESCO

Por Clarice Zeitel Vianna Silva

Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez... Contraditórios? ? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições.
Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil.
A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão.
Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.
Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve uma mãe que não afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo. Cada um por todos.
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão ou excluído? Como gente... Ou como bicho?

Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel, de 26 anos, estudante que termina faculdade de direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários.
Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e a desigualdade'

A redação de Clarice intitulada `´ foi incluída num livro, com outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca Virtual da UNESCO.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A teia da vida está se desfazendo



Edward Norton*

Se para algo serviu a tragédia do vazamento de petróleo no Golfo do México foi para recordar ao mundo que a biodiversidade e a saúde dos ecossistemas não são abstratos conceitos científicos. A diversidade biológica e o bom estado dos ecossistemas são a base vital da sociedade humana e devemos defendê-los já dos muitos perigos que os cercam.

A produção de alimentos e energia na terra e no mar, o turismo, a construção e muitas outras indústrias e atividades mostram ser muito destrutivas dos hábitats marinhos e terrestres. E, embora o estreito vínculo entre a variedade de formas de vida vegetal e animal e o bem-estar humano se compreenda melhor agora do que nunca, são sombrias as notícias sobre o insuficiente esforço mundial para preservar a biodiversidade do planeta.

A rede da vida, da qual todos dependemos, se faz em frangalhos a uma velocidade cada vez maior, enquanto as ações para preservá-la ainda são penosamente lentas e inadequadas. Nosso fracasso pode ser atribuído, em parte, à percepção equivocada de que conservar a biodiversidade é antes de tudo um legado para o futuro. Porém, as conclusões da terceira edição da Perspectiva Mundial sobre a Biodiversidade (GB03) jogaram por terra esse mal-entendido.

Publicada em maio e baseada em 120 informes nacionais dos países partes do Convênio sobre a Diversidade Biológica, a GB03 alerta que, sem uma ação coletiva, os ecossistemas enfrentarão situações extremas que exporão as vidas e o sustento humanos a uma degradação e um colapso irreversíveis.

Embora os pobres sejam particularmente vulneráveis, ninguém no planeta está imune aos impactos do desmatamento, da extinção de espécies, da morte dos arrecifes de coral, da perda de lagos e da acidificação dos oceanos. Cerca de um bilhão de pessoas nos países em desenvolvimento dependem da pesca como fonte primária de alimentação. Mas 80% das zonas pesqueiras estão esgotadas ou excessivamente exploradas.

“A ideia de que o crescimento econômico é independente da saúde ambiental e de que a humanidade pode expandir indefinidamente sua economia é uma falsa e perigosa ilusão”, afirmaram biólogos da Stanford University, da Califórnia. Assim, somente por meio de uma firme conservação dos recursos naturais, as gerações futuras poderão atender suas necessidades de alimentação, saúde, energia e segurança. As principais causas da perda de biodiversidade foram identificadas: alteração dos hábitats, exploração excessiva, contaminação, expansão invasiva de espécies exóticas e mudança climática.

O compromisso e a educação são aliados para lutar contra estas ameaças. Mas somente uma dedicação mundial mais profunda e uma ação concertada de todos os Estados servirão para deter e provavelmente reverter essas intimidantes tendências. Teremos nos próximos dias duas oportunidades importantes para dar uma resposta global a essas ameaças.

No dia 22 deste mês, em observância ao Ano Internacional da Biodiversidade, os governantes mundiais terão uma ocasião única para definir uma nova estratégia em matéria de biodiversidade, como a introdução de novas práticas sustentáveis no uso da terra e dos recursos, a expansão das áreas protegidas e a colocação em prática de planos para conciliar o desenvolvimento com a conservação. Pela primeira vez na Organização das Nações Unidas, chefes de Estado e de governo de 192 nações terão um encontro exclusivamente dedicado à crise da biodiversidade.

E acontecerá, em outubro, na cidade japonesa de Nagoya, a reunião dos 193 Estados-partes do Convênio sobre a Diversidade Biológica, na qual adotarão um novo plano estratégico para o período 2011-2020, com objetivos renovados e uma nova perspectiva da biodiversidade para 2050. Conseguir um resultado significativo deste esforço exigirá total compromisso de todas as nações. Neste aspecto, os Estados Unidos não estão à altura das circunstâncias, pois no momento continuam sendo um dos três países do mundo que não ratificaram sua adesão ao Convênio.

O presidente Barack Obama expressou energicamente seu compromisso para enfrentar a crise ambiental. Na Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, realizada em dezembro de 2009 na Dinamarca, falou de “nossa responsabilidade de deixarmos para nossos filhos e netos um planeta mais limpo e mais seguro”. Por ser o mais amplo tratado sobre biodiversidade aprovado até hoje, o Convênio proporcionará uma oportunidade única a Obama para que assuma essas responsabilidades e estimule uma renovada dedicação da comunidade internacional.

Esperamos com ansiedade o momento em que os Estados Unidos se unam aos campeões da biodiversidade e se convertam formalmente em uma nação empenhada em preservar e proteger a vida no planeta.

* Edward Norton é astro do cinema norte-americano e Embaixador de Boa Vontade das Nações Unidas para a Biodiversidade. Direitos exclusivos IPS.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

(Envolverde/Terramérica)

O Ártico preso em um círculo vicioso


Uxbridge, Canadá, 21/9/2010 – Cada vez mais quente, o Oceano Ártico emite enormes volumes de calor adicional na atmosfera, alterando os padrões meteorológicos do hemisfério Norte, afirmam vários cientistas climáticos. As emissões de dióxido de carbono derivadas da queima de combustíveis fósseis derretem os gelos do Mar Ártico, alterando perigosamente o equilíbrio energético de todo o planeta, acrescentam.

“O gelo do Ártico alcançou seu quarto nível estival mais baixo nos últimos quatro anos”, disse Mark Serreze, diretor do Centro Nacional de Dados sobre Gelo e Neve em Boulder, no Estado norte-americano do Colorado. O volume de gelo que resta no Ártico provavelmente tenha alcançado este mês o menor registro da história, afirmou Mark à IPS. “Reitero minhas declarações anteriores de que a cobertura gelada do Mar Ártico no verão experimenta uma espiral de morte. E não se recuperará”, acrescentou.

Não pode haver recuperação porque a cada verão somam-se à região enormes quantidades de calor extra, enquanto mais de 2,5 milhões de quilômetros quadrados do Oceano Ártico ficam expostos ao calor do Sol de verão durante 24 horas. E um Oceano Ártico mais quente não só demora mais para congelar como também emite enormes volumes de calor adicional na atmosfera, alterando os padrões meteorológicos do hemisfério Norte, confirmaram os cientistas.

“O inverno excepcionalmente frio e nevado de 2009-2010 na Europa, Ásia oriental e no leste da América do Norte está vinculado com os processos físicos únicos que se produzem no Ártico”, disse à IPS James Overland, do Laboratório Marinho Ambiental do Pacífico da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, em entrevista exclusiva concedida em junho em Oslo.

Paradoxalmente, um Ártico mais quente significa que “futuros invernos frios e nevados serão a regra e não a exceção” nestas regiões, acrescentou. Cada vez há mais evidências dos impactos generalizados de um Ártico mais quente, concorda Mark. “Capturar todo esse calor adicional tem que ter impactos, que aumentarão no futuro”, disse.

Um efeito local que já se faz sentir é o rápido aquecimento das regiões costeiras do Ártico, onde as temperaturas médias agora estão entre três e cinco graus mais elevadas do que há 30 anos. Se a temperatura média mundial aumentar do atual registro de 0,8 grau para dois graus, como parece provável, toda a região do Ártico se aquecerá pelo menos entre quatro e seis graus, e possivelmente oito, devido a uma série de processos conhecidos como “amplificação” da área.

Se o Ártico ficar seis graus mais quente, então metade do permafrost (gelo permanente) do mundo provavelmente derreterá vários metros, liberando a maior parte do carbono e metano ali acumulados durante milhares de anos, disse Vladimir Romanovsky, da Universidade do Alasca em Fairbanks e especialista mundial em permafrost. O metano é um gás-estufa aproximadamente 25 vezes mais potente do que o dióxido de carbono. Isso seria catastrófico para a civilização humana, afirmam os especialistas.

A região do permafrost ocupa 13 milhões de quilômetros quadrados de Alasca, Canadá, Sibéria e partes da Europa, e contém pelo menos o dobro do carbono agora presente na atmosfera: 1.672 gigatoneladas, segundo um estudo publicado em 2009 na revista Nature. É três vezes mais carbono do que o contido em todas as florestas do mundo. “O derretimento do permafrost é observado consistentemente em toda a região desde a década de 1980”, disse Vladimir em uma entrevista.

Um estudo de 2009, realizado no Canadá, documentou que nos últimos 50 anos o limite mais meridional do permafrost diminuiu 130 quilômetros na região da baía de James, na província de Quebec. Em seu limite norte, pela primeira vez em uma década, o calor do Oceano Ártico se estendeu para além da área continental neste verão, acrescentou Vladimir.

Não há estimativas certeiras sobre quanto dióxido de carbono e metano emite o permafrost ao derreter ou o permafrost submarino, que atua como cobertura sobre quantidades desconhecidas de hidratos de metano (um tipo de metano congelado) ao longo da plataforma do Ártico, afirmou este especialista. “O metano sempre está em qualquer parte onde se perfure o permafrost”, destacou.

Na primavera passada, no hemisfério Norte, os colegas de Vladimir informaram que anualmente cerca de oito milhões de toneladas de metano saem à superfície na forma de bolhas, das planícies árticas do leste da Sibéria, segundo as primeiras medições feitas ali. Se apenas 1% do metano submarino do Ártico chegar à atmosfera, poderá quadruplicar a quantidade de metano que atualmente existe nela.

O atual derretimento do permafrost, relativamente lento, pode acelerar em poucas décadas, liberando enormes quantidades de gases-estufa, disse Vladimir. Tanto ele como outro especialista em permafrost, Ted Schuur, da Universidade da Flórida, concluíram que “em questão de décadas poderemos perder boa parte do permafrost”.

Nem as emissões de dióxido de carbono nem as de metano derivadas do derretimento do permafrost são consideradas nos modelos do clima mundial, e passarão vários anos antes que isso possa ser razoavelmente bem aceito, disse Ted à IPS. Envolverde/IPS
(IPS/Envolverde)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Desenvolvimentismo ganha do meio ambiente nas eleições brasileiras


Por Leonel Plügel, da IPS

Rio de Janeiro, Brasil, 17/9/2010 – Faltam poucos dias para as eleições no Brasil, mas já existe um ganhador: o desenvolvimentismo dos dois principais candidatos, que deixou de lado na campanha os cruciais temas ambientais, embora pela primeira vez a terceira nas pesquisas seja a candidata do Partido Verde (PV).

Nos primeiros debates na televisão, os temas ecológicos foram marginalizados do discurso de Dilma Rousseff, candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), com 53% das intenções de voto, e de seu principal adversário, José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), com 23%.

Pouco pode fazer a respeito a candidata Marina Silva, do PV, que fez do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável os eixos de sua proposta. A ex-ministra do Meio Ambiente (2003-2009) conseguiu arranhar os 9% das intenções de voto em um panorama eleitoral muito polarizado.

A campanha eleitoral entrou na reta final para as eleições do dia 3 de outubro e, se Dilma, a previsível ganhadora, não obtiver metade mais um dos votos, haverá segundo turno, no dia 31 de outubro, entre os dois mais votados. “Dilma e Serra provêm do desenvolvimentismo e industrialismo, por isso os assuntos ambientais não aparecem em suas primeiras linhas de discurso”, explicou à IPS Claudio Roberto Gurgel, especialista político, economista e professor de administração na Universidade Federal Fluminense.

William Gonçalves, catedrático de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, afirmou que o desenvolvimentismo de Serra “é de cunho privatizante e liberal”, enquanto o de Dilma e “claramente estatista”. Claudio Roberto destacou que a candidata do PT, primeiro como ministra de Energia e depois como chefe da Casa Civil do governo de Lula, “foi uma das principais incentivadoras do investimento em infraestrutura”.

“Dilma é a principal artífice do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que prioriza os investimentos em habitação, transporte, energia e recursos hídricos”, destacou o especialista. O presidente Lula lançou, em 2007, o conjunto de políticas do plano quadrienal, ao qual foram destinados este ano US$ 284 bilhões. Agora, a aposta foi redobrada com a iniciativa de lançar um PAC2, ao qual seriam destinados US$ 564 bilhões.

Para Aspásia Camargo, candidata a deputada estadual pelo PV no Estado do Rio de Janeiro, Marina Silva “não conseguiu” impor o debate sobre a questão ambiental porque “Serra e Dilma se negam a discutir sobre isso”. Aspásia disse à IPS que os meios de comunicação são cúmplices desse “pacto de silêncio” dos candidatos do PT e do PSDB sobre meio ambiente, e recordou que nos debates “não foram feitas perguntas” sobre o assunto.

“A tradição política no Brasil é criticar o desmatamento e os problemas de contaminação depois que os eleitos assumem, e não discuti-los durante a campanha”, explicou. “Dilma e Serra têm uma visão industrializadora dos anos 1950”, disse Aspásia, e por isso “veem como um progresso investir em usinas nucleares e hidrelétricas, em lugar de energias limpas”.

Para Claudio Roberto, a candidata verde não conseguiu maior apoio porque “não encontrou o tom de campanha. Marina Silva não parece uma candidata ideologicamente definida, não se sabe se é oficialista ou de oposição”, afirmou. Claudio Roberto também destacou que se tivesse assumido um papel claramente de oposição, teria batido de frente com Lula, cuja imagem pessoal e de governante é positiva para 80% dos 190 milhões de brasileiros.

Além disso, acrescentou, Marina Silva não esquece que foi por cinco anos ministra de Lula, embora tenha deixado o governo por suas abertas desavenças sobre o adiamento de projetos ambientais. William coincidiu em catalogar a candidatura do PV como “sem definição”. Marina Silva “atende a um setor do eleitorado que se comporta como grupo de pressão, e qualquer um que defende o meio ambiente terá seu apoio e o de seu partido”, acrescentou.

Adriana Ramos, secretária-executiva do independente Instituto Socioambiental (ISA), destacou que os programas e as ofertas do PT e do PSDB carecem de diferenças “do ponto de vista ambiental”. Considerou que a candidatura verde “trouxe, de alguma forma”, o assunto ambiental ao debate eleitoral sobre políticas públicas. Mas, como Aspásia, criticou o fato de “a imprensa, na hora de debater plataformas políticas, deixar o assunto de lado”.

Adriana reconhece como “positivo” o compromisso do governo de “reduzir a emissão de gases-estufa”, anunciado antes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada em dezembro de 2009, na cidade de Copenhague. Porém, criticou como “um retrocesso” negativo o projeto de flexibilização do Código Florestal em debate no Congresso, onde a bancada ruralista, que representa os grandes interesses agrícolas e pecuários, pressiona para reduzir as exigências de preservação ambiental a favor do agronegócio”. Justamente, este setor é o que maior crescimento experimentou no Brasil durante o primeiro semestre do ano.

Números do estatal Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o agronegócio representou US$ 30 bilhões do total do produto interno bruto no período janeiro-julho, que totalizou US$ 508 bilhões. O Brasil é o maior exportador de carne do mundo e um dos maiores exportadores de grãos. Essa expansão da agroeconomia se baseia em monoculturas intensivas e pecuária de grande escala.

Este modelo “é um sinal de como os governos do PSDB e do PT” veem o desenvolvimento do campo, em detrimento da “agricultura sustentável” e do cuidado ambiental, alertou Aspásia. “Nossa candidata é a única que aposta em investir forte nos biocombustíveis, como a celulose de cana-de-açúcar, e de fazer isso de maneira sustentável”, afirmou a dirigente regional do PV.

Entretanto, Claudio Roberto disse que Marina Silva “não assume uma posição clara” sobre este ponto, pois para produzir biocombustíveis “necessitará do agronegócio atual” e essa vinculação “pode lhe custar votos” entre a base ambientalista. Envolverde/IPS

(IPS/Envolverde)

Por que não uma versão Science Commons?


Ganha força na internet o projeto colaborativo Science Commons, que propõe um novo modelo de compartilhamento de dados científicos, com outra lógica e uma licença autoral alternativa com o objetivo de superar uma realidade paradoxal: os resultados dos estudos científicos - financiados na maior parte por recursos públicos em países como o Brasil - acabam publicados em revistas caras e de acesso restrito.

Portal Ciência Hoje

Quantas vezes você já ouviu falar em ‘livre compartilhamento’ na internet, livre circulação de ideias? Agora, reformulemos a questão: quantas vezes você ouviu os mesmos termos e a palavra ‘ciência’ vindo em seguida? A lógica de troca é muito mais vezes associada ao conhecimento artístico e humano do que ao universo das ciências exatas e naturais.

A internet oferece um grande volume de páginas que tratam de cultura com livre circulação de informação, o mesmo não acontece no cenário da ciência. Mas isso não quer dizer que essa discussão não esteja em curso. As revistas da família PLoS (sigla em inglês para ‘Biblioteca pública de ciência’) e o portal SciElo, que reúne periódicos latino-americanos de livre acesso, são apenas alguns exemplos de iniciativas que rompem com a lógica predominante no meio da publicação científica.

É uma realidade paradoxal: os resultados dos estudos científicos - financiados na maior parte por recursos públicos em países como o Brasil - acabam publicados em revistas caras e de acesso restrito. O contribuinte, que financiou as pesquisas, nem sempre tem como fiscalizar como seus impostos estão sendo aproveitados.

“A ironia é que a ciência real é baseada em um certo tipo de compartilhamento. Mas nós tratamos os artigos como o objetivo final da pesquisa, não como insumo para outras pesquisas”, diz o filósofo norte-americano John Wilbanks, uma das cabeças por trás do Science Commons, projeto criado em 2005 que visa, justamente, incentivar a livre troca de conhecimento científico.

A iniciativa é um dos braços do projeto Creative Commons - conhecida licença autoral alternativa ao copyright, que permite aos criadores de conteúdo licenciar suas obras com diferentes graus de abertura. O Science Commons é, portanto, uma área de troca de informação aberta - daí o uso do termo inglês commons, originalmente empregado para designar terras de uso coletivo na Inglaterra. “Recompensamos cientistas para atuar competitivamente, para o ‘não compartilhamento’. Não há infraestrutura para compartilhamento generalizado na ciência, é o que queremos oferecer”, conta John, por e-mail.

Licença aberta

O objetivo do projeto capitaneado por John é oferecer a reconhecida chancela commons e um mapa detalhado de como fazer com que seu projeto científico possa ser compartilhado por meio de uma licença mais aberta. Tendo como alicerce uma comunidade de cientistas e instituições que partilham (palavra importante) do mesmo ideal, o pesquisador terá uma base sólida de discussão e dados para trabalhar.

Um exemplo do que já acontece por lá é o Projeto deTransferência de Material Biológico, que tem como objetivo implementar contratos alternativos que barateiem o custo de troca de materiais biológicos, como o DNA e linhagens celulares.

“Levou bastante tempo para criar esses problemas [licenças autorais fechadas na ciência], e vai demorar muito tempo para corrigi-los. Mas podemos começar com alguns métodos simples. Primeiro, os financiadores das pesquisas podem assumir a responsabilidade sobre o acesso ao conhecimento dos produtos financiados com seu dinheiro”, defende John. E completa: “Isso significa o acesso aberto a artigos escritos por cientistas financiados. Significa assumir compromissos sobre as questões relacionadas com o compartilhamento de dados, materiais e patentes.”

Mas não se trata de abolir os direitos autorais na ciência. “Acreditamos no commons como um conceito, algo em que o local e o privado vêm juntos”, afirma John. “Não queremos eliminar o conhecimento privado, queremos eliminar a ideia de que o conhecimento é privado, por padrão, como um primeiro princípio.”

Jonh finaliza: “Gostaria de ver o conhecimento privado ser algo que fazemos apenas quando precisamos, e também construir um mundo no qual não precisemos disso com muita frequência”.
(Portal Ciência Hoje/IHU-On line)

símbolo do aquecimento global, esculturas de gelo são expostas na Noruega



As miniesculturas de formas humanas em gelo da artista brasileira Néle Azevedo, que tornaram-se símbolo da luta contra o aquecimento global, voltam a ser exibidas na Europa e nos EUA. A intervenção abriu a Bienal do Ártico nesta quarta-feira (15), em Stavanger, na Noruega.

As frágeis esculturas que derretem, expostas em São Paulo em 2005, também estarão até 10 de outubro em Berlim, na Alemanha, na exposição "Recommended for Imitation - Expeditions in Aesthetics & Sustainability". E depois passará por sete outros países, entre os quais Rússia (São Pestesburgo), Austrália (Melbourne) e Grécia (Atenas).

O tema meio ambiente não foi o foco da artista mineira, com formação em São Paulo, no início. "O que motivou o trabalho foi uma busca de conciliação entre a esfera pública e a esfera privada, entre o eu subjetivo e a cidade", conta a artista. "A homenagem é dirigida aos anônimos e os corpos desaparecem na cidade em uma experiência compartilhada", acrescenta, explicando que a intervenção funciona como um "antimonumento".

As imagens das esculturas circularam na internet e foram entendidas como um trabalho de alerta contra as alterações climáticas, o que propiciou um convite da WWF, em 2009, para fazer uma intervenção em Berlim para conscientizar a população sobre os efeitos do aquecimento global.

A artista também terá seu trabalho apresentado em livro da Taschen, editora alemã que é uma das maiores do mundo especializadas em arte. O livro será lançado em Nova York no dia 28 de setembro e, em Miami, no dia 2 de dezembro, reunindo 150 artistas contemporâneos. Com o título "Trespass - A history of UncommissionedUrban Art", a obra reúne 320 páginas de street art, grafites, performances e protestos.
UOL/São Paulo

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Guerrilha verde


Foi uma espécie de milagre da multiplicação das árvores. Um punhado de pessoas decidiu plantar 18 árvores nas áridas, sujas e cinzentas calçadas da Vila Buarque e rapidamente já havia 400 delas no entorno do local. Isso ocorreu porque o governo estadual, obrigado a fazer uma compensação ambiental por causa das obras da marginal do Tietê, percebeu aquele movimento e resolveu aumentar o plantio nas redondezas do bairro, localizado no centro de São Paulo.



Por trás dessa multiplicação está Rebeca Lerer, que decidiu trocar a selva amazônica por uma espécie de guerrilha verde na cidade de São Paulo. Do lugar em que está instalada -um prédio até pouco tempo atrás abandonado-, quase não se nota nenhuma área verde. Nem na vizinha praça Roosevelt, tomada pelo concreto. "Aqui eu me sinto tão envolvida na proteção ambiental quanto estava no meio da selva amazônica."



Militante do SOS Mata Atlântica e do Greenpeace, ela passou boa parte de sua vida metida em questões ambientais. Montou "raves" com temáticas ecológicas, organizou campeonatos de skate com pistas feitas de madeira certificada, promoveu shows cuja iluminação e cujos equipamentos usavam apenas a energia solar. Formada na Fundação Cásper Líbero, ele constatou rapidamente que, embora gostasse de se comunicar, não tinha nada a ver com o jornalismo.



Depois de perambular pelo mundo e por várias cidades brasileiras, Rebeca Lerer, ex-moradora do Bexiga, voltou para São Paulo. "A verdade é que meu habitat é mesmo a cidade de São Paulo."



O cineasta Ricardo Costa convidou-a , no ano passado, para ajudar a construir um novo espaço para exibir arte alternativa ligada à cultura urbana. Conseguiram, então, um prédio abandonado na rua Rego Freitas, que se tornou a sede da Matilha Cultural.



Rebeca transformou o local numa espécie de quartel-general da guerrilha verde.



A Matilha Cultural preparou para este mês um evento batizado de "Setembro Verde" -composto por uma série de shows, debates, mostras de arte e filmes. Entre as ações programadas está a "vaga viga": ocupam-se vagas de estacionamentos para transformá-las em pequenas praças. "É um jeito de as pessoas perceberam como o carro desumaniza a cidade."



O assunto, neste mês, está especialmente em alta. Há uma mobilização em torno do Dia sem Carro, que ocorrerá na próxima semana. Pesquisa divulgada hoje pelo Ibope mostra que 81% dos paulistanos já estão conscientes de que a poluição afeta muito a sua saúde. Esse é, segundo o Ibope, um dos cinco maiores problemas de São Paulo.



Mas não existe sinal de diminuição do número de carros na rua. Muito pelo contrário, as ruas estão cada vez mais congestionadas e o ar está cada vez mais poluído. Ao mesmo tempo, morre-se mais no trânsito do que por violência. Isso só mostra que a tarefa de civilizar a cidade de São Paulo é amazônica e talvez seja uma obra para guerrilheiros, que tentam ganhar cada centímetro como uma pequena vaga de carro.
Gilberto Dimenstein do Aprendiz
(Envolverde)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Coleta de água para salvar plantações e vidas


Por Isaiah Esipisu, da IPS




Nairóbi, Quênia, 14/9/2010 – Em seu meio século de vida no leste do Quênia, o agricultor Peter Kivuti nunca confiou nas previsões meteorológicas. Mas mudou de opinião há três anos, quando as chuvas na região começaram a ser menos previsíveis. Como outros agricultores da aldeia de Rwanguondu, Peter se baseava nos métodos tradicionais de previsão do tempo usados há séculos por seus antepassados.

“Desde que eu era muito garoto que chove muito no dia 25 de março de cada ano. Isto significava que todas as fazendas tinham que estar preparadas com tudo que era necessário para plantar no dia 26”, recordou Peter. Esta tendência foi observada em todo o distrito de Embu por séculos, até três anos atrás, quando os padrões de chuva começaram a variar.

Em 2007, as precipitações chegaram no dia 20 de março, cinco dias antes do esperado, fazendo muitos produtores perderam suas semeaduras. “Estávamos totalmente desorientados. Pelo tempo que plantamos era muito tarde. A chuva acabou antes que nossas plantações estivessem resistentes, o que causou perdas naquele ano”, disse o agricultor.

Um novo informe, publicado no dia 6, pelo Instituto Internacional para o Manejo da Água (IWMI), com sede no Sri Lanka, alertou que as mudanças no tempo e as condições climáticas podem inclusive piorar. O documento afirma que as chuvas irregulares relacionadas com a mudança climática ameaçam ainda mais a segurança alimentar e as economias de muitos países, particularmente na África e na Ásia.

Por sua vez, a Agricultural Market Development Trust, uma organização que trabalha com fazendeiros do Quênia, aconselhou os agricultores a se prepararem para plantar antes devido às mudanças nos padrões de chuva, e, segundo informe do IWMI, isto não pode ser uma solução de longo prazo. A solução – diz o documento – é que países, organizações e indivíduos aumentem seus investimentos nas diversas formas de armazenamento de água.

“Assim como os investidores modernos diversificam suas participações financeiras para reduzir riscos, os pequenos agricultores precisam de uma ampla gama de contas de água para amortizar os impactos da mudança climática.”, disse Matthew McCartney, principal autor do informe, em uma nota de imprensa publicada junto com o relatório. “Dessa forma, se uma fonte de água seca, terão outras às quais recorrer”, acrescentou Matthew, também especialista em hidrologia do IWMI.

O IWMI é uma organização de pesquisa científica focada no uso sustentável dos recursos da água e da terra na agricultura, para o beneficio das pessoas em situação de pobreza em países em desenvolvimento. A entidade tem apoio do Grupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola Internacional.

O informe aparece justo quando o Programa Mundial de Alimentos, das Nações Unidas, coloca em prática no Quênia um plano conhecido como Food for Assets (FFA), que tem camponeses de zonas áridas e semiáridas do país captando e armazenando água para uso doméstico e agrícola. A captação é feita quando chove. A água é dirigida a reservatórios e acumulada. Por meio do programa, os beneficiários são obrigados a fazer algum trabalho no sentido de aumentar a segurança alimentar de sua comunidade.

“Na Província Oriental, escolhemos a construção de represas como um projeto para atenuar a pobreza, porque a água sempre era o problema”, disse Jacobus Kiilu, da ActionAid Kenya, a organização que executa o FFA na região. Como resultado, os moradores ainda têm acesso à água que captaram nas fortes chuvas que caíram há mais de cinco meses. “Este é o período mais longo que ficamos com água de chuva graças às represas”, disse Mwende Kisilu, um dos beneficiados da aldeia Kyuso, leste do Quênia.

Na África subssaariana, segundo o informe do IWMI, até 94% dos agricultores dependem da agricultura de terra seca, ainda que as chuvas sejam altamente imprevisíveis na região. “A falta de previsão sobre quantidade e duração das chuvas faz com que essa agricultura seja extremamente difícil”, diz o texto.

Isto se deve ao fato de os agricultores terem dificuldade para escolher quando plantar. “Se você semeia antes do tempo, corre o risco de as sementes não germinarem no caso de as chuvas caírem. E, quando plantamos muito tarde em 2007, as chuvas minguaram antes que a semeadura amadurecesse, provocando perdas”, disse Peter.

Porém, se os governos, especialmente da África e Ásia, as organizações e os indivíduos tomarem medidas para aumentar o investimento em diversos métodos de armazenagem de água, estima-se que 500 milhões de pessoas na África e na Índia seriam beneficiadas por uma melhor gestão deste recurso na agricultura, diz o informe.

Embora governos de países em desenvolvimento com economias de rápido crescimento tenham investido fortemente em grandes represas na década atual, o estudo do IWMI diz que deve ser dada maior ênfase a colocar uma gama de opções de menor escala, bem planejadas para melhorar a segurança alimentar.

O documento cita evidência do Zimbábue, onde esses métodos aumentaram o rendimento do milho, com ou sem chuva. No Níger, também impulsionou em grande parte a produção de milho. No nordeste do Estado indiano de Rajasthan, a construção de aproximadamente dez mil estruturas de captação de água tornou possível irrigar cerca de 140 quilômetros quadrados de campos agrícolas, beneficiando aproximadamente 70 mil pessoas.

Entretanto, sem planejamento adequado das instalações de armazenamento de água, os benefícios obtidos podem facilmente se converter em um fardo. “Depósitos mal planejados não só desperdiçam dinheiro como pioram os efeitos negativos da mudança climática, por exemplo, gerando habitat para a reprodução de mosquitos transmissores da malária”, alerta o informe. Envolverde/IPS

domingo, 12 de setembro de 2010

Ceva de onças ocorre no Pantanal



Felipe Milanez
Miranda (MS) - Estou tentando me ajeitar encima do burro. E não está fácil. Quero chegar perto de seu Zé, o velho pantaneiro, que anda na frente em perfeita harmonia com sua besta de trabalho. Esse dia inteiro vou passar ao seu lado, aprendendo sobre o Pantanal, o gado e os animais. “Seu Zé”, digo. Ele me escuta, mas não responde. Ouço o chiado do rádio portátil que está na sua cintura. Vem uma voz. “A onça pegou um bezerro.” Chiado. “O peão tava indo buscar a tropa e deu com ela deitadona encima dele”. Chiado. “Daí ela saiu”. Chiado. Já me perco no assunto. Um ataque de onça? “Pois é”, comenta o velho. “E foi bem pertinho do mangueiro, ele ta dizendo aqui. Antes não tinha disso não.”

Quarta-feira, 11 de agosto. Pantanal da subregião de Miranda. As 4:30, chego no retiro da fazenda Refúgio Ecológico Caiman aonde José Carlos Cleto, 60, pantaneiro, filho de índio terena, trabalha e vive durante os dias úteis. Cedo pela manha, depois de um reforçado café e uma roda de terere, seguimos para dar ração ao gado em uma invernada. No caminho escutamos sobre o ataque da onça, ocorrido cerca de 500 metros da sede da fazenda, onde também funciona um hotel. Não longe do curral – chamado aqui de mangueiro.
Onça raramente ataca humanos. Mas quando o faz, põe o medo na gente. Recentemente, no Pantanal, tem aumentado o número de ataques. Senhor já viu onça? Pergunto. “Vê eu já tinha visto. Mas no ano passado eu passei foi um aperreio”.

Seu Zé foi atacado. Passava com seu burro perto da mata de um capão. A bichona pulou encima. Tava protegendo carniça. O burro assustou. Ele olhou e viu aquele bicho grande vindo pra cima. Fez, por instinto, como faria com touro bravo. Jogou o chapéu encima dela. “Eu não sei o que deu. Mas ela parou pra olhar e eu meti o pé. Corri com o burro. Fiquei com muito medo.”

Ele conta essa passagem devagar. Com peso na voz. Eu fico constrangido de ouvir. Pantaneiro topar com onça, e quase ser predado, é susto sério demais. Minha curiosidade com a história, e com o bicho, parece coisa de guri bobo da cidade. No seu silêncio que segue, percebo que falta intimidade minha para lidar com tema tão caro a um pantaneiro. “Onça”, me diz seu Zé, “a gente respeita.”

E agora, uma come um bezerro do lado de onde estive, ontem, em um cooper no fim da tarde.

Zé Carlos foi picado por cobra, uma jararaca boca de sapo. Quase perdeu a perna. Cobra por perto, ele não gosta. Onça também não. Antes, diz, tinha o “caçador de onça”. O último deles foi o celebre Celestino, o “bugre”, outro descendente do povo terena. Matar onça era coisa de quem sabia. Especialista. Tinha o “matador”, e era só ele. Pelo menos, conta Zé, espantavam elas. “Esse negócio de deixar a onça vivendo do lado da gente...”, desconversa. Seu temor da ousadia é pelo respeito ao bicho.

O dia cai, e volto para a sede da fazenda. Passo, tomado de curiosidade, pela carniça do bezerro. A proximidade de onde ficam os turistas, pesquisadores ou pantaneiros é desagradável. No pescoço do bicho vejo uma corda vermelha que amarra os restos a uma arvore. Penso se o bovino estava amarrado, e a onça o pegou de covardia. Mas não. A corda fora colocada para a carniça continuar ali e a onça voltar. Os urubus haviam feito a festa durante o dia, comendo as vísceras. Logo adiante, na cerca, uma câmera trap – armadilha fotográfica para tirar foto quando a onça vier se fartar de novo. Estirada no pasto ao lado do capão aonde a onça está, a vitima virou uma ceva para atrair onças para os turistas que chegam por ali.

A noite, vejo passar uma caminhonete preta. Tem luz forte iluminando o caminho. É a focagem, o método mais utilizado para encontrar onça. Ver onça é o fetiche maior de quem vem a um safári no Pantanal. Mas que deveria ocorrer de forma natural, topando com ela no ambiente, sem que seja incentivada pela comida fácil a aproximar-se.

Penso nos antigos povos tupis, que tinham um respeito profundo pela onça. No mito da criação, onças eram tidas como a encarnação dos inimigos que haviam devorado seus antepassados. Onças eram espíritos poderosos. Comer o inimigo, a vingança, alimentava a vida social, numa complexa ordem descrita em clássicos da literatura antropológica.

A força da onça, de certa forma, fascinava e amedrontava. Mas o que escuto do gerente da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Dona Aracy Klabin (Caiman é composta pela fazenda de pecuária, da pousada, e da reserva, que deve ter um biólogo para gerenciar a preservação), o biólogo paulista Helder Brandão, no business do metier do ecoturismo, são justificativas mais mundanas do que as sagradas tupis para a aproximação forçada do animal. “Vai ficar que nem essas capivaras, os veados. Mansa”, ele me diz. “As onças vão ficar igual. Cada vez mais perto.” Não tem perigo? “Não, ela se acostuma.”

Amansar onça? Sim. Para o turista ver. Coitada da onça, que sequer foi consultada, e vai estar correndo risco também. E para profissionalizar a iniciativa, diz que o trabalho está sendo feito junto com um grupo de sul-africanos. Diz que eles entendem do negócio.

A ceva é seriamente criticada por biólogos conservacionistas. Em 2008, quando aumentaram os casos de ataques de onças no Pantanal (um pescador foi morto), houve grande debate condenando a prática (e uma série de matérias no site ambientalista OEco). Em casos extremos, pousadas utilizam até animais nativos. O bicho se acostuma. Muda seu modo de vida. Fica dependente. Passa a comer o que lhe dão. E, na falta do rango pronto, atacam os humanos mais próximos. A comida fácil pode atrair vários animais. Com tantos por perto, vem as disputas forçadas por território, que podem ser ferozes e violentas. E um contato mais indesejado com os seres humanos. Toda a ecologia da onça é transformada.

A Caiman, de propriedade de Roberto Klabin, um histórico ambientalista e presidente da ong SOS Mata Atlântica, sempre foi considerada uma das bem sucedidas iniciativas ecológicas de produção agropecuária, ecoturismo e conservação. Antes funcionava lá o Projeto Onça para o conhecimento da espécie e da conservação. Mas sem o caráter científico das aproximações recentes, como a corda no pescoço do bezerro para a carniça não ser levada embora, o rumo das relações com as onças pode ter mudado.

“O senhor já viu onça mansa?”, pergunto ao mestre pantaneiro. “Ela pode até se acostumar. Mas manso esse bicho nunca fica. Uma hora, ela vai te comer”, ensina seu Zé. Conta o caso de uma onça, criada por um fazendeiro, que certo dia deixou de ser gatinho e pulou encima dele. Não chegou a comer o sujeito. Mas depois, nunca mais tiveram confiança um no outro. E ela foi para a jaula.

“Onça a gente tem que respeitar”, ele me diz. Seu Zé sabe de gado. O velho sábio sabe como conviver com os animais selvagens, lado a lado, eles lá, ele cá com a boiada. Respeito mutuo. “Ela é esperta. A gente é que acha que sabe de tudo.”
Zé Carlos: "Onça a gente respeita" (foto: Felipe Milanez)

Bezerro amarrado na Fazenda Caiman. À espera da onças para o deleite dos turistas. (foto: Olivia Lyster)
O ECO

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

"O solo é o grande reservatório de carbono orgânico terrestre"


O professor da Universidade Federal de Viçosa, Carlos Schaefer¸ explica, na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, como o solo está sendo afetado pelo aquecimento global. Para que possamos entender como funciona o solo e que mudanças serão essas, ele traz dados de pesquisas que estão sendo realizadas na Antártida. Seu grupo de pesquisa tem monitorado a vegetação, o derretimento dos solos e o impacto que isso causa no meio ambiente. Segundo Schaefer, “algumas plantas têm se adaptado bem a esse cenário de aquecimento e passam a ocupar novas áreas. E essas plantas eram de latitudes um pouco menos frias que estão adaptadas agora, cada vez mais, a latitudes mais altas em regiões que eram antes cobertas de neve e gelo”.

Carlos Schaefer é graduado em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa, onde também fez especialização em Solos Tropicais e mestrado na área de Solos e Nutrição de Plantas. É doutor em Ciência do Solo pela University of Reading (Inglaterra) e pós-doutor pela University of Western Austrália. É autor de Ecossistemas Terrestres e Solos da Antártica Marítima (Viçosa: Neput-UFV, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Devido ao aquecimento global, que consequências sofrem os solos e as plantas?

Carlos Schaefer – O aquecimento global, do ponto de vista prático, a partir do que temos pesquisado na Antártida, afeta bastante a região que chamamos de Antártica Marítima. A Antártica Marítima é uma das áreas que tem a maior variação de temperatura, o maior incremento no aumento de valor da temperatura média global já medido em todo o planeta. É uma região bem sensível em termos de variação de temperatura medida e os impactos ecológicos são muito grandes. A temperatura na Antártida ficava sempre próxima de zero ou abaixo de zero, e agora, algumas vezes, a temperatura sobe, o que faz com que a água saia do estado sólido para o líquido.

Esse derretimento cria várias oportunidades de plantas e animais ocuparem áreas que antes estavam cobertas de neve, de gelo e, essas áreas, então, são colonizadas por plantas. Algumas dessas plantas já começam a mostrar adaptações a latitudes mais próximas das regiões polares, justamente devido a essa tendência de aquecimento na direção das latitudes maiores. O que nós monitoramos lá é isto: a vegetação, o derretimento dos solos e o impacto que isso causa no meio ambiente. Algumas plantas têm se adaptado bem a esse cenário de aquecimento e passam a ocupar novas áreas. E essas plantas eram de latitudes um pouco menos frias que estão adaptadas agora, cada vez mais, a latitudes mais altas em regiões que eram antes cobertas de neve e gelo.

IHU On-Line – Os solos têm poder de se readaptar ao meio ambiente, mesmo aqueles que já foram alterados pelo aquecimento global?

Carlos Schaefer – A grande questão que envolve o solo no aquecimento global, no caso das regiões polares, a Antártica principalmente, é que ele encontra-se num estado congelado, que chamamos de permafrost. Quando ele deixa de ser congelado, derrete esse permafrost e a temperatura se eleva para acima de zero, o que propicia um crescimento microbiano. Então toda aquela bola que estava congelada, estocada no solo, passa a ser mineralizada e emitir gás carbônico para a atmosfera.

Por outro lado, como eu relatei antes, a vegetação também passa a colonizar essas áreas. Temos, portanto, dois balanços importantes aí que precisamos estudar. Estamos codificando para entender, primeiro, se produtibilidade das plantas coloca mais carbono no solo e, segundo, se o solo está emitindo carbono em função desse aquecimento. Então, são duas coisas que são concorrentes entre si, digamos assim. Uma é a planta sintetizando carbono, morrendo, crescendo, vivendo e depositando esse carbono como matéria orgânica no solo, e o outro é o solo, por estar derretendo o gelo, o congelamento, o permafrost, está aumentando a emissão de carbono para a atmosfera.

Esse balanço, nós já temos alguns trabalhos em andamento, mostra um potencial de emissões de gás carbônico bem elevado mesmo para a Antártica. Em outras regiões do planeta, no Ártico, por exemplo, o potencial de emissão de carbono é muito, mas muito grande, muito maior do que o potencial de sequestro de carbono da vegetação.

IHU On-Line – Estudos mostram que o aquecimento global vem causando a liberação de imensos estoques de carbono guardados nos solos. Quais são as consequências deste fenômeno a médio e longo prazo?

Carlos Schaefer – O solo é o grande reservatório de carbono orgânico terrestre, é mais importante do que a própria vegetação. Toda a mídia fala da vegetação, mas é porque não vemos o carbono que está no solo, todo mundo vê uma árvore, mas ninguém vê a matéria orgânica que está no solo. Quando fazemos a conta, essa matéria orgânica é mais importante em termos de quantidade total. Então, nessas regiões em que há pouca matéria orgânica, pouca planta grande, a matéria orgânica que está no solo pode ser muito expressiva, é uma matéria orgânica de plantas pequenas, presente em musgos, por exemplo.

No entanto, eles produzem muito carbono, que, congelado, é um estoque muito grande nesse sistema. Esse carbono acumulado, uma vez que o planeta esteja aquecendo, começa a ser emitido em taxas muito rápidas. O aquecimento está afetando essas latitudes onde há presença desse carbono acumulado de uma forma muito forte. Nossos estudos lá na Antártica pretendem conhecer como são essas taxas de emissão de carbono para essas áreas da Antártica. Já se sabe que é uma quantidade muito significativa.

IHU On-Line – Qual a região do Brasil mais vulnerável aos impactos das mudanças climáticas?

Carlos Schaefer – As regiões tropicais, de maneira geral, são muito frágeis quanto às mudanças climáticas porque os trópicos já são quentes suficientes para produção agrícola. Os trópicos de todas as regiões da Terra talvez sejam as regiões que tenham os maiores impactos negativos, por serem regiões que não têm benefício com o aumento da temperatura. As regiões temperadas, pelo contrário, se beneficiam. Na região Nordeste, o efeito deve ser de aumento da estação seca, e na região Sul e Sudeste haverá os extremos de temperatura, muito frio no inverno e muito calor no verão e tempos fortes de chuva.

As latitudes subtropicais, nessas épocas de mudança, passa por períodos com essas características. Isso tudo causa incerteza na agricultura, que trabalha com tendências de equilíbrio, portanto muitos ciclos de altos e baixos de temperatura ou umidade não é algo bom. Na região Sul, além dos verões muito quentes e secos, haverá falta de água. E, nas regiões Norte e Nordeste, a falta de água será generalizada, agravando a seca. Na Europa, por exemplo, o aquecimento não é mau. No norte do continente o fenômeno está viabilizando várias áreas agrícolas; onde não se plantava nada antes está ficando quente suficiente para se plantar trigo, cevada e aveia.

IHU On-Line – Com a elevação da temperatura e do degelo no continente Antártico, constata-se que a disponibilidade de água no solo de determinadas regiões está aumentando…

Carlos Schaefer – Não, nem sempre. Na verdade, a água de degelo vai ter uma permanência no solo pequena, depois vai para o mar. O degelo do solo provoca aumento da água do nível do mar, mas não na água do solo. Você não tem um grande aumento desse jeito que estão falando.

IHU On-Line – E quais as consequências deste fenômeno do aumento do nível do mar?

Carlos Schaefer – Para nós a situação também é um pouco complicada, porque teremos cada vez mais erosão costeira nas áreas mais baixas.

IHU On-Line – O Brasil também vive esse problema?

Carlos Schaefer – Todos os países que têm grande concentração urbana no litoral vão padecer desse tipo de problema. Isso já é uma coisa esperada, mesmo com meio metro de aumento de nível do mar já se terão problemas grandes. Eles estão falando aí da ordem de chegar a um metro.

IHU On-Line – O senhor falou da relação do aquecimento global e a agricultura. Uma agricultura sem planejamento pode prejudicar as consequências do aquecimento da Terra?

Carlos Schaefer – Os sistemas que se usam na agricultura, por exemplo, no Sul, onde o pessoal faz muito cultivo mínimo, que são sistemas que colocam carbono no solo, o que contribui para a diminuição de carbono, e isso pode ser um bom caminho para diminuir o impacto de emissão. O que sabemos hoje é que o modelo agrícola que é realmente conservador de carbono ajuda nessa mitigação, ou seja, na diminuição de emissão.

Agora, outras coisas têm que ser feitas, não basta só a agricultura contribuir com isso. A diminuição das emissões de combustível fóssil é a importante e urgente. A queima de combustível fóssil continua sendo o principal vilão. Não adianta discutirmos coisas menores, cuidarmos de aspectos menores. É a mesma coisa que você estar marcando um médico para extrair uma verruga e estar com dois cânceres, entendeu?

IHU On-Line – Com a elevação da temperatura e o aumento da frequência de chuvas em algumas regiões, e a falta dela em outras, quais são suas projeções para o futuro diante desta realidade?

Carlos Schaefer – O que se diz na climatologia é que o clima vai ficar cada vez mais errático, vai ficar cada vez mais cheio de altos e baixos e imprevisível. Ele vai poder ter condições de inverno severos, verões extremamente quentes e precipitações desiguais, com variações enormes entre os anos.

IHU On-Line – E tudo isso nos leva para que tipo de cenário?

Carlos Schaefer – Leva a uma condição de instabilidade, das pessoas não poderem mais confiar na meteorologia, no clima, seja para sua atividade agrícola ou pecuária, para o planejamento rural de maneira geral. Isso cria uma incerteza muito grande do ponto de vista do planejamento. Isso é muito ruim. Por sorte o Brasil está numa condição em que é um trópico úmido, o trópico mais úmido. Por isso, pode ser que nós, em relação às outras regiões tropicais, ainda soframos menos relativamente, mas ainda assim as consequências serão grandes.

(IHU On-Line)