domingo, 28 de setembro de 2014

There is a river above us: Antonio Donato Nobre at TEDxAmazonia


O pó de fadas da Amazônia

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Antonio Nobre, revela os cinco segredos da floresta amazônica e alerta sobre o perigo de seu desmatamento
el país
Lima 23 AGO 2014 - 14:50 BRT

O cientista brasileiro Antonio Nobre. / Pablo Correa

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Antonio Nobre, revela os cinco segredos da floresta amazônica e alerta sobre o perigo de seu desmatamento.

- ...E fazer com a que a chuva chegue até a Patagônia.
E aos Andes, por 3.000 ou quase 4.000 quilômetros. Outras partes do mundo que estão longe do oceano, como o deserto do Saara, não recebem água. Mas na América do Sul não há esse problema, e isso se deve ao primeiro segredo: os jatos de água verticais.

- E qual é o segredo desse segredo?
 É que as árvores da Amazônia são bombas que lançam no ar 1.000 litros de água por dia. Elas a retiram do solo, a evaporam e a transferem para a atmosfera. A floresta amazônica inteira coloca 20 bilhões de toneladas de água na atmosfera a cada dia. O rio Amazonas, o mais volumoso do mundo, joga no Atlântico 17 bilhões de toneladas de água doce no mesmo intervalo de tempo.

- É incrível. Como isso foi descoberto?
 Fazendo medições. Com torres de estudo, com satélites que detectavam esse transporte de vapor d’água, que é um vapor invisível.

- Produzido pelas árvores quase que por magia.
A magia vem no segundo segredo. Como é possível que caia tanta chuva, se o ar da Amazônia é tão limpo, já que o tapete verde cobre o solo? O oceano também ter um ar limpo, mas não chove muito sobre ele. Nós, cientistas, desvendamos um mistério.

- Qual?
Para formar uma nuvem de chuva, que são gotas de água em suspensão, é preciso transformar o vapor baixando a temperatura. Mas se você não tem uma superfície de partículas, sólida ou líquida, para gerar essas nuvens, o processo não começa.

 Então o que é que a floresta faz?
 Produz o que chamamos de pó de fadas. São gases que saem das árvores e que se oxidam na atmosfera úmida para precipitar um pó finíssimo que é muito eficiente para formar chuva.

Parece uma fábula.
É que a floresta manipula a atmosfera constantemente e produz chuvas para si própria, uma coisa quase mágica. Os gases saem das árvores. São como perfumes e se volatilizam.

- Uma espécie de grande fragrância sustentável.
É um oceano verde, diferente do azul. O azul não tem esse mecanismo porque carece de árvores. Tem as algas, que produzem um pouco, mas não como o verde.

A bomba natural e os rios voadores



- Vamos ao terceiro segredo.
Vamos. Na Amazônia, o ar que vem do hemisfério norte cruza do Equador, entra e vai até a Patagônia. Até lá chega esse ar úmido, que vem do Atlântico equatorial.

- Com os ventos alísios.
Sim, com os ventos alísios que trouxeram as caravelas dos europeus, há 500 anos. Mas os alísios do oceano sul sopram para o norte. O que faz esses ventos irem contra a tendência de circulação global? Dois físicos russos com quem eu colaboro responderam a essa pergunta ao estudar o efeito do vapor dos jorros verticais amazônicos.

- Mais uma vez os jatos verticais.
Eles descobriram que, pela física fundamental dos gases, essas condensações de vapor puxam o ar dos oceanos para dentro do continente e criam uma espécie de buraco de água. É como uma bomba natural. A floresta traz sua própria umidade do oceano.

ainda tem mais...
O quarto segredo é a transferência dessa umidade amazônica para outras regiões: os Andes no Peru, os páramos da Colômbia... Se você olhar o mapa do mundo, vai descobrir que existe um cinturão úmido que passa pelo Equador, pela África e pelo sudeste asiático.

- É a linha do Equador.
Sim, mas é na linha dos trópicos, o de Câncer ao norte e o de Capricórnio, ao sul, que estão todos os desertos. O do Atacama, no Chile, o da Namíbia, na África. Mas essa área que concentra 70% do PIB da América do Sul - que vai de Cuiabá a Buenos Aires, de São Paulo aos Andes – é úmida! Apesar de estar na linha dos desertos.

- E qual o mistério dessa área?
Chama-se rios voadores. É uma grande massa de ar úmido bombeada pela Amazônia contra os Andes, que são uma parede de mais de 6.000 metros de altura. É assim que essa massa chega a áreas onde deveria haver deserto. Por isso chove na Bolívia e no Paraguai.

- Falta, finalmente, o quinto segredo.
 O quinto segredo é que, se você colocar em um gráfico todos os furacões que já aconteceram na história – e a NASA já fez isso – na região das florestas equatoriais não há nenhum deles. E essa região é a que tem mais energia porque a radiação solar é muito intensa.

- Deveria haver ciclones, como na Índia e no Paquistão.
 Eles não existem porque o topo da floresta, onde estão as copas das árvores, é áspero e faz com que os ventos sejam obrigados a dissipar sua energia, o que acalma a atmosfera.

- Mas ocorrem tempestades.
 Claro, mas elas não costumam ser destruidoras. Onde há florestas não há secas, nem excesso de água, nem furacões, nem tornados. É como uma apólice de seguros contra os fenômenos atmosféricos extremos.

A guerra contra a ignorância



- Agora esses cinco segredos estão em risco...
O problema se chama desmatamento. Se tirarem a metade do fígado de um bêbado, vai ser difícil para ele lidar com o álcool. É isso o que está acontecendo com a Amazônia. Estamos retirando um órgão do sistema terrestre.

- Então a Amazônia não é o pulmão, mas sim o fígado do planeta?
 É o pulmão, o fígado, o coração... É tudo! Essa bomba natural da qual falei é um coração que pulsa constantemente. O pó de fadas também funciona como uma vassoura química contra substâncias poluentes, como o óxido de enxofre. O melhor ar é o da Amazônia.

- E, apesar disso, continuamos destruindo a floresta.
Se você chega com uma motosserra, com um trator ou com fogo, a Amazônia não pode se defender. As intervenções do homem podem ser benéficas, como na medicina, mas também terríveis, como a motosserra. Por isso eu proponho um esforço de guerra.

- No que consistiria esse esforço?
Seria uma concentração de forças para resolver um problema que ameaça tudo. Hoje a ciência nos permite saber que a situação é gravíssima. E o que eu proponho é lutar contra a ignorância, o principal motivo da destruição da floresta amazônica.

- Parece que as prioridades mundiais são outras.
Em 2008, os bancos foram salvos em 15 dias. Foram gastos trilhões de dólares nisso. A crise financeira não é nada comparada à crise ambiental.

O que está acontecendo? Estamos embriagados com a civilização?
 É uma embriaguez primitiva. Quando você vai ao médico e ele diz que você tem uma doença em estágio avançado, o que você faz? Continua fumando? O sistema terrestre é um organismo e está muito doente. A parte contaminante é a parte mais degenerada do ser humano.

- Podemos curar a Amazônia dessa doença?
 Eu acredito que se tivermos uma capacidade semelhante à que tivemos para salvar os bancos, sim. Porque a floresta tem um poder de regeneração impressionante.

- E, além disso, ela deveria ser importante para todo o mundo.
 A atmosfera tem uma coisa chamada teleconexões. Um modelo climático pode demonstrar que as mudanças na Amazônia vão afetar os ciclones na Indonésia.

- Então, o maior segredo é acordar...
E saber que o que fazemos agora é determinante. As gerações posteriores vão sofrer com as más escolhas de hoje. A geração que está na Terra hoje tem nas mãos os comandos de um trem que pode ir para o abismo ou uma oportunidade para se viver muito mais.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

“O crescimento já é um genocídio em câmara lenta”

“O crescimento já é um genocídio em câmara lenta”

Cerca de 250 cientistas, acadêmicos, intelectuais, ativistas e políticos, entre eles Ada Colau, Pablo Iglesias ou Alberto Garzón, assinaram um manifesto para pedir uma “mudança radical” de modelo diante da crise ecológica e civilizatória em andamento.

A reportagem é de L. Villa e publicada no jornal espanhol Público, 07-07-2014. A tradução é de André Langer.

Cerca de 250 autores, entre eles Ada Colau, Pablo Iglesias, Alberto Garzón, Cayo Lara, Joan Herrera, Florent Marcellesi, Juantxo López de Uralde, Teresa Forcades, Juan Diego Botto ou Yayo Herrero, tornaram público um manifesto pelo qual pedem de maneira urgente uma mudança de modelo de consumo diante do provável “colapso civilizatório” que virá no século XXI.

“Atualmente, acumulam-se as notícias que indicam que a via do crescimento já é um genocídio em câmara lenta. A diminuição na disponibilidade de energia barata, os cenários catastróficos da mudança climática e as tensões geopolíticas em torno dos recursos mostram que as tendências de progresso do passado estão sendo interrompidas”, assinala o texto intitulado ‘Última chamada’ e que está aberto a novas assinaturas na sua página na internet.

O texto, promovido por vários grupos sociais, é um apelo aos novos partidos e organizações que surgiram com o “despertar de dignidade e democracia que representou o 15M” diante da necessidade de assumir “mudanças radicais nos modos de vida”.

Escritores, cientistas, jornalistas, intelectuais, professores universitários, representantes de movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos, reivindicam, sobretudo, que já não servem as receitas apoiadas sobre o capitalismo keynesiano, nem “os mantras cosméticos do desenvolvimento sustentável, a mera aposta nas tecnologias ecoeficientes, nem uma suposta economia verde”.

“Necessitamos de uma sociedade que tenha como objetivo recuperar o equilíbrio com a biosfera e utilize a pesquisa, a tecnologia, a cultura, a economia e a política para avançar rumo a esse fim. Necessitaremos para isso de toda a imaginação política, generosidade moral e criatividade técnica que conseguirmos desdobrar”, afirmam.

Além disso, recordam que a crise ecológica não é um tema “parcial” que afete exclusivamente os ecossistemas ou os recursos, mas que a urgência da mudança está precisamente em que “determina todos os aspectos da sociedade: alimentação, transporte, indústria, urbanização, conflitos bélicos... Trata-se, em suma, da base de nossa economia e das nossas vidas”.

“Uma civilização está acabando e devemos construir outra nova. As consequências de não fazer nada – ou fazer muito pouco – nos levam diretamente ao colapso social, econômico e ecológico. Mas, se começarmos hoje, ainda poderemos ser as e os protagonistas de uma sociedade solidária, democrática e em paz com o planeta”, sentencia.

sábado, 30 de novembro de 2013

30 tribos e culturas que estão desaparecendo


Quem vive em uma caixa de concreto, com água quente caindo do chuveiro, geladeira e wi-fi pode não conseguir imaginar como é um dia na vida de uma tribo como os Tsaatan. Eles se mudam de cinco a dez vezes por ano, constroem cabanas para se manterem protegidos da temperatura de -40º C, e criam renas para transporte, roupas e alimentos. 

De valor estético e antropológico incalculável, a matéria de hoje traz diversas culturas remanescentes que convivem a margem de uma cultura global de consumo, cada uma delas registrada em um trabalho fotográfico de grande plasticidade e beleza, um momento onde nos é permitido uma escapada desse mundo de espetáculos que beiram o tédio para uma paisagem mais verdadeira. “Before They Pass Away” é um projeto do fotógrafo Jimmy Nelson, que apresenta ao mundo mais de 30 tribos isoladas que estão desaparecendo lentamente. Trazemos essa perspectiva também para nossos leitores e amigos de outros continentes, com quem frequentemente conversamos sobre nossa cultura natal, sempre que nos perguntam sobre nosso chimarrão que sempre nos acompanha e temos oportunidade de mostrar e falar algo sobre os gaúchos (espalhados pelo sul do Brasil, Uruguai e Argentina), tão particulares em sua adaptada maneira de viver quanto cada uma das tribos e povos retratados aqui.
Jimmy passou duas semanas com cada tribo para realizar seu trabalho. A intenção é fazer com que a sociedade não se esqueça dessas pessoas, que mostram como o mundo costumava ser. Conheça o projeto e delicie-se com a diversidade cultural na galeria abaixo.

Kazakh

 

Himba



Huli



Asaro


Kalam


Goroka




Chukchi




Maori





Gauchos




Tsaatan



Samburu




Ribari




Mursi


Ladakhi


Vanuatu


Drokpa



Dassanech



Karo


Banna



Dani



Maasai


Nenets




 Fonte: http://jardimdomundo.wordpress.com

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Índios, ribeirinhos e pesquisadores se reúnem para pensar novas formas de proteger o Xingu


Exposição "Xingu+, Diversidade Socioambiental no Coração do Brasil"

O Encontro Xingu + Diversidade Socioambiental no coração do Brasil aconteceu entre 27 e 29/9, em Altamira (PA). O objetivo foi compartilhar informações sobre a diversidade dos povos do Xingu e da biodiversidade da região, as ameaças que pesam sobre as Áreas Protegidas e refletir sobre estratégias de valorização do corredor de diversidade socioambiental da Bacia do Xingu ao longo dos 27 milhões de ha, um dos maiores do mundo, formado por Terras Indígenas e Unidades de Conservação.
A abertura do evento contou com uma exposição fotográfica retratando os 25 povos indígenas que vivem no Xingu. Veja aqui algumas imagens que fizeram parte da exposição.

 Índios, ribeirinhos e pesquisadores se reúnem para pensar novas formas de proteger o Xingu

Esta notícia está associada ao Programa: 
Ameaças como desmatamento, estradas, hidrovias e hidrelétricas no Rio Xingu e articulações para proteção do patrimônio socioambiental da bacia foram temas debatidos no encontro realizado em Altamira (PA) entre 27 e 29/9
Versão para impressão
O Encontro Xingu + Diversidade Socioambiental no coração do Brasil teve como objetivo compartilhar informações sobre a diversidade dos povos do Xingu e da biodiversidade da região, as ameaças que pesam sobre as Áreas Protegidas e refletir sobre estratégias de valorização do corredor de diversidade socioambiental da Bacia do Xingu ao longo dos 27 milhões de ha, um dos maiores do mundo, formado por Terras Indígenas e Unidades de Conservação.

Cacique Sadea Juruna, Aritana Yawalapiti, Eduardo Viveiros de Castro (Museu Nacional), Philip Fearnside (Inpa), Michael Heckenberg (Universidade da Flórida) e Antonio Guerreiro (Unicamp)

Organizado pelo ISA, entre 27 e 29/9, em Altamira (PA), a abertura do evento contou com uma exposição fotográfica retratando os 25 povos indígenas que vivem no Xingu, e teve a participação de aproximadamente 120 pessoas, entre lideranças indígenas, extrativistas, especialistas, representantes de organizações da sociedade civil e governo federal. Cacique Raoni observa as fotos históricas de seu povo Mebengokrê
Veja aqui a galeria de fotos da exposição.
“Pela primeira vez temos a oportunidade de pensar todo o rio e todos os povos que habitam o Xingu como uma unidade ligada por este rio. A diversidade tem que ser transformada em uma grande unidade. O desafio está em unir os diferentes povos”, disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, sócio-fundador do ISA, no início do encontro.
André Villas Bôas, secretário executivo do ISA, abriu o encontro lembrando que também estava se iniciando a Mobilização Nacional Indígena que reuniu povos indígenas de todo o país. “Nós estamos aqui para fortalecer a luta do Xingu sem perder de vista a luta do Brasil”, disse.
Durante três dias os participantes, que participaram de quatro rodas de conversa, falaram sobre o que existe e como se deve cuidar da “Casa Grande do Xingu”, definição usada pelo cacique xinguano Aritana Yawalapiti ao falar da Bacia do Xingu, onde vivem cerca de 600 mil pessoas.
Participantes do encontro abrem faixa em apoio à mobilização nacional indígena
Os participantes falaram sobre o patrimônio a ser protegido, as ameaças de desmatamento, projetos de estradas, ferrovias, hidrovias e hidrelétricas que pretendem cortar a Bacia do Xingu para gerar energia e escoar a produção de grãos. Falaram também sobre as possíveis articulações entre os povos e instituições para fortalecer o patrimônio socioambiental da bacia.

O antropólogo Mauro Almeida, que ao lado do líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988, e de outros líderes seringueiros, ajudou a criar e consolidar as primeiras Reservas Extrativistas do Brasil, falou sobre os desafios de integrar a gestão dos territórios indígenas e outras Unidades de Conservação, sobretudo com as Reservas Extrativistas, áreas dos seringueiros.

Mauro, que é sócio do ISA, acredita que é preciso criar uma nova organização política entre os povos na gestão da Bacia do Xingu. “Nos Estados Unidos eles chamam de Shadow Government, ou governo sombra. Aqui eu acredito que poderia funcionar um conselho entre os povos que pudesse falar, opinar e trazer uma unidade de discurso que fortaleça a organização política entre índios e seringueiros (extrativistas) de todo o Xingu”. Benki Pianko Ashaninka, liderança do povo indígena Ashaninka, do Acre, lembrou da experiência da Aliança dos Povos da Floresta formada na época de Chico Mendes entre seringueiros e indígenas.

O presidente da Associação Terra Indígena Xingu (Atix), Winti Kisêdjê ressaltou a importância de proteger o Xingu. “É preciso criar esta linha entre todos os povos do Xingu para continuar este diálogo sobre uma rede de informação e proteção sobre o nosso território, muitos povos não estão aqui, precisa organizar outro encontro com mais povos, principalmente os da região [de Altamira]”.

Obras de infraestrutura

Um diagnóstico preciso e alarmante sobre as ameaças à bacia foi debatido. Segundo a advogada do ISA, Biviany Rojas, neste momento, estão em trâmite projetos de construção e pavimentação de mais de dois mil km de rodovias, uma delas cortando a Bacia do Xingu. Trata-se da antiga BR-080, hoje MT-322, principal estrada do projeto Mato Grosso Integrado.

Felício Pontes (MPF), André Villas Bôas (ISA), Antônia Mello (Movimento Xingu Vivo), Juan Doblas (ISA) e Biviany Rojas (ISA)
Já Juan Doblas, especialista em geoprocessamento do ISA, alertou para a chegada de grandes projetos de mineração na Amazônia. Citou a empresa canadense Belo Sun, que aguarda licença ambiental da Secretaria de Meio Ambiente do Pará (Sema-PA) para iniciar o maior projeto de mineração a céu aberto do país, distante cerca de 10 km da barragem principal da usina de Belo Monte e a 9,5 km da Terra Indígena Paquisamba.

“A pressão sobre a floresta da Bacia do Xingu está aumentando em diferentes formas e por diferentes motivos, com a aprovação do novo Código Florestal, a política governamental e alta de preço das commodities. Além do aumento do desmatamento, crescem os ramais na floresta para retirada ilegal de madeira, proliferam garimpos ilegais e o fogo”.

Em relação à usina de Belo Monte, o cientista Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) afirmou que não será a única hidrelétrica do Xingu. “Durante quatro meses do ano Belo Monte vai ficar sem girar uma turbina sequer. As turbinas representam a parte mais cara na construção de uma usina hidrelétrica. Porque governo e empresas privadas iriam investir tanto dinheiro em turbinas?”. Fearnside acredita que o governo deverá construir ao menos mais uma hidrelétrica acima de Belo Monte para compensar o tamanho do reservatório da usina.

Reservas Extrativista na Terra do Meio

Os extrativistas também deram seu depoimento. Raimundo Belmiro, presidente da Associação de Moradores da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio (Amora), falou em nome dos mais de mil extrativistas que vivem na região Terra do Meio, centro do Pará, trabalhando na comercialização de produtos não madeireiros.

“O governo criou as unidades e foi embora”, desabafou Belmiro. O extrativista passou mais de um ano sob escolta da Força Nacional, depois de receber inúmeras ameaças de morte de grileiros e pistoleiros da região. As Resex do Riozinho do Anfrísio e do Iriri foram decretadas, entre 2004 e 2006, como parte de um grande pacote ambiental que serviu como resposta do governo federal à série de assassinatos, principalmente à morte da irmã Dorothy Stang. [A missionária Dorothy Stang foi assassinada em Anapu (PA), em 2005, quando caminhava para o trabalho em um assentamento do Incra]. (saiba mais)

Hoje, apenas três funcionários do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), são responsáveis pela proteção, fiscalização e desenvolvimento social de populações que vivem em de mais de oito milhões de hectares de Áreas Protegidas na Bacia do Xingu.
“Enquanto bilhões são investidos em hidrelétricas, mineradoras, asfaltamento de estradas, incentivos para a soja e gado, os recursos investidos nas Áreas Protegidas não garantem o mínimo necessário para o desenvolvimento das populações e valorização da diversidade socioambiental que existe no Xingu”, analisou Marcelo Salazar, coordenador adjunto do Programa Xingu do ISA.

ICMBio planeja ações na Terra do Meio
 

O presidente do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), Roberto Vizentin, admitiu empenho do órgão na criação de um mosaico de Áreas Protegidas no Xingu. “Temos um foco de criar um mosaico de conservação na região da Terra do Meio, onde se concentram as Terras Indígenas e Unidades de Conservação, para que lideranças, gestores da Funai e do ICMBio participem juntos de um planejamento e definição do que fazer, onde fazer e como fazer ações neste mosaico Terra do Meio”.

O cacique kayapó Raoni Metuktire, que aos 84 anos ainda lidera com muita disposição a luta dos povos indígenas do Xingu por seus direitos, encerrou o encontro com um recado ao povo Juruna, uma das principais etnias atingidas pela construção de Belo Monte “Eu quero estar com vocês, mas vocês vão apanhar e vão ter que se unir pra se defender”. Em seguida, Raoni chamou a jovem Juma Xipaya, liderança indígena da região, para dividir com ela o discurso final.

“Nós aqui em cima não temos uma associação como a dos Kayapó, nós não temos uma organização como os índios do Parque (Parque Indígena do Xingu), como a Associação Kabu, nós estamos perdidos. Por isso este encontro tem que acontecer ano que vem e quantas vezes forem possíveis”, disse Juma.
 
Uma carta assinada por povos indígenas, comunidades tradicionais, cientistas e pesquisadores que atuam na Bacia do Xingu, foi divulgada no final do evento, exigindo o fim da destruição da Bacia do Xingu, da PEC 215, do PLP 227 e da Portaria 303 da AGU. (leia aqui a íntegra da carta).
e da Portaria 303 da AGU. (leia aqui a íntegra da carta).
Leticia Leite ISA