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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ativista diz que Brasil será levado a cortes internacionais por causa de Belo Monte

Luana Lourenço/Agência Brasil


Crianças brincam nas águas de um braço do rio Xingu no povoado de Santo Antonio, local onde está prevista a construção da Casa de Força Principal da Hidrelétrica de Belo Monte

O desrespeito a uma convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no processo de licenciamento da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), poderá levar o Brasil a julgamento em cortes internacionais.

Relatório apresentado nesta quarta-feira (7) pela Plataforma Brasileira dos Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca Brasil) diz que o país desrespeitou o direito dos indígenas de serem ouvidos e informados sobre um empreendimento que os afetará diretamente – previsto na legislação brasileira e na Convenção 169 da OIT.

“O Estado brasileiro descumpriu a convenção da OIT e mais uma vez vai ser levado aos tribunais internacionais por desrespeitar tratados que ele assinou”, afirmou um dos autores do relatório, Guilherme Zagallo.

Além do suposto descumprimento da regra internacional, o relatório Missão Xingu: Violações de Direitos Humanos e Impactos Socioambientais no Licenciamento da Usina Hidrelétrica de Belo Monte também aponta gargalos em outros aspectos do processo que levou à liberação da licença prévia pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

As críticas vão da ausência de audiências públicas em todas as comunidades que serão afetadas pelo empreendimento ao subdimensionamento das emissões de metano (gás de efeito estufa) pela usina durante a construção e o funcionamento

Ao apresentar o relatório, Zagallo questionou a viabilidade econômica de Belo Monte, que apelidou de “usina vagalume”. De acordo com o relator, a vazão do Rio Xingu não é suficiente para garantir a potência prevista pelo governo no projeto, de 11 mil megawatt/hora de energia elétrica. “A potência média vai ser de 4 mil megawatt/hora. Em alguns meses essa barragem não gerará um 1 kilowatt de energia sequer”, calculou.

O impacto da migração de trabalhadores para a região – estimados em 100 mil – também não foi considerado pelo governo na concepção do projeto, de acordo com o relatório. “A população de Altamira vai dobrar, o que vai aumentar também o desmatamento na região”, acrescentou Zagallo.

No documento, o grupo de movimentos sociais recomenda a suspensão do leilão da usina, marcado para o dia 20 de abril, e o cancelamento da licença prévia concedida pelo Ibama. Também pede que o Ibama exija complementação dos Estudos de Impacto Ambiental de Belo Monte e que a Fundação Nacional do Índio (Funai) apresente um levantamento detalhado sobre os índios isolados que vivem na região da construção da usina.

O relatório ainda recomenda que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) se abstenha de financiar o projeto e que o Tribunal de Contas da União (TCU) analise novamente a viabilidade da obra. “Belo Monte é apresentada como a redenção para o sistema elétrico, mas não vai gerar a energia prometida. Será uma usina vagalume, no momento de necessidade não vai estar disponível para a população”, argumentou o autor.

Em mais um capítulo da briga judicial por Belo Monte, o Ministério Público Federal em Altamira anunciou que entrará amanhã (8) como uma nova ação civil pública contra o empreendimento.
Folha Online

Odebrecht e Camargo Corrêa desistem da usina de Belo Monte

MARCIO AITH


O consórcio formado pelas construturas Carmargo Corrêa e Odebrecht acaba de desistir do leilão da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, previsto para o próximo dia 20.

Cemig entrará na construção de Belo Monte
Procuradoria pede cancelamento de leilão de Belo Monte
Governo estuda ceder em negociação com empresas no leilão

A decisão foi tomada após um estudo rigoroso das condições do edital e das respostas que a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) divulgou ontem a indagações feitas pelos técnicos das duas construtoras.

Com a desistência da Camargo e da Odebrecht, o governo tenta às pressas convencer algum outro grupo empresarial a competir com o único consórcio que já registrou-se para a licitação, formado pela Andrade Gutierrez, a Neoenergia (associação entre a Iberdrola, a Previ e o Banco do Brasil) e dois autoprodutores de energia: a Vale e a Votorantim.

Na prática, a desistência deu-se quando o consórcio não aderiu ao cadastramento da Eletronorte, cujo prazo venceu hoje às 17h. Segundo as normas da licitação, os consórcios poderiam associar-se a empresas do grupo Eletrobras para participarem do pleito. Dado o tamanho do empreendimento, Camargo e Odebrecht só entrariam na disputa com a participação da Eletronorte.

Na hipótese de apenas um consórcio participar da disputa, ficará extremamente comprometido o ambiente de competição que a ex-ministra da Casa Civil e virtual candidata ao Planalto, Dilma Rousseff, deseja dar à construção da terceira maior hidrelétrica do mundo (depois de Três Gargantas, na China, e Itaipu).
Folha Online

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Nestlé financia destruição de floresta e põe orangotangos no rumo da extinção


As florestas tropicais da Indonésia e seus orangotangos estão precisando desesperadamente de um refresco! Participe da cyberação e peça para a Nestlé dar um tempo as florestas! clique aqui!

Na manhã do último dia 17, protestos pipocaram por toda a Europa contra a destruição das florestas que servem de habitat para orangotangos na Indonésia. O motor dessa devastação, que colocou os primatas à beira da extinção, é a conversão do uso do solo de mata virgem para o plantio de palmáceas.

A Nestlé, que sustenta essa atividade comprando óleo de palma da Indonésia para produzir chocolates como o Kit kat, foi o alvo das manifestações no continente europeu, parte de uma campanha global que o Greenpeace lança hoje contra a companhia. A Nestlé por enquanto continua jogando de ponta de lança no time das empresas que estimulam a destruição das florestas tropicias.

Além de financiar a derrubada em massa de mata na Indonésia e empurrar os orangotangos para o abismo da extinção, a Nestlé está contribuindo para agravar o aquecimento global. Florestas ajudam a regular o clima e acabar com o desmatamento, uma das maneiras mais rápidas de reduzir as emissões de Co2 na atmosfera.

Foi por isso que escritórios da Nestlé na Inglaterra, Holanda e Alemanha acabaram sendo palco de protestos por ativistas do Greenpeace, pedindo para que a empresa deixe de utilizar óleo de palma proveniente da destruição de área antes ocupada por florestas na Indonésia.



As manifestações concidiram com o lançamento de um novo relatório do Greenpeace – 'Pega com a mão na cumbuca: como o emprego de óleo de palma pela Nestlé tem um impacto devastador na floresta tropical, no clima e nos orangotangos' (em inglês) – que expõe os laços entre a Nestlé e fornecedores de óleo de palma, como a Sinar Mas, que estão ampliando suas plantações em florestas de turfa (ricas em carbono) e nas florestas tropicias da Indonésia.

Além da produção de óleo de palma, a Sinar Mas também é proprietária da Ásia celulose, a maior empresa de papel da Indonésia. A empresa também infringe a lei da Indonésia ao destruir as florestas protegidas para cultivar plantações de óleo de palma.

Como todos devem saber, a Nestlé é a maior empresa de alimentos e bebidas do mundo. O que ninguém sabia até então era que a empresa também é um grande consumidor de óleo de palma produzido às custas do desmatamento das florestas tropicais. Nos últimos três anos, a utilização anual do óleo quase duplicou, alcançando a marca de 320000 toneladas que entram em uma enorme gama de produtos, incluindo o chocolate mega popular KitKat, que não é vendido no Brasil.

"Toda vez que você der uma mordida em um KitKat, você pode estar dando uma mordida nas florestas tropicais da Indonésia, que são fundamentais para a sobrevivência dos orangotangos. A Nestlé precisa dar aos orangotangos uma pausa e parar de utilizar óleo de palma de fornecedores que estão destruindo as florestas", disse Daniela Montalto, do Greenpeace internacional.

A fornecedora da Nestlé, Sinar Mas, é responsável por considerável destruição da floresta que serve de habitat para orangotangos




O lançamento do relatório segue numerosas tentativas de convencer a Nestlé a cancelar seus contratos com a Sinar Mas. Recentemente, o Greenpeace contactou várias vezes a empresa com provas sobre as práticas da Sinar Mas, mas mesmo assim a Nestlé continua usando o óleo de palma da Indonésia em seus produtos.

Diversas empresas importantes, incluindo a Unilever e Kraft, cancelaram os contratos de óleo de palma com a Sinar Mas. A Unilever cancelou um contrato de 30 milhões de dólares no ano passado. A Kraft cancelou o seu em fevereiro. "Outras grandes empresas estão agindo, mas a Nestlé continua fechando os olhos para os piores infratores. É tempo de a Nestlé cancelar seus contratos com a Sinar Mas e parar de contribuir com a destruição das floresta tropical e de turfas," frisou Montalto.
Greenpeace Brasil

segunda-feira, 29 de março de 2010

Minerais de sangue em nossos computadores e celulares


Por Sérgio Abranches (*)

A alta tecnologia está ligada à guerra e à barbárie não apenas por meio da indústria de armas. Computadores, celulares e outros equipamentos eletrônicos podem ser parte de uma trágica conexão entre tecnologias avançadas e o sofrimento humano, o trabalho escravo e guerras intermináveis. Parece exagerado?

Basta ler o relatório publicado em 2009 “Faced with a gun, what can you do? War and the militarisation of mining in eastern Congo” (“Diante de um revólver, fazer o quê? Guerra e a militarização da mineração no leste do Congo”) da ONG Global Witness. Ele nos conta sobre os “minerais da guerra” ou “minerais de sangue”, que são amplamente usados na indústria eletrônica. Matérias primas na cadeia de suprimentos dessas indústrias de alta tecnologia podem ser provenientes de várias partes das províncias de Kivu, onde grupos armados e o próprio exército congolês controlam o comércio de cassiterita (minério de estanho), ouro, columbita-tantalita, volframita (tungstênio) e outros minerais. O relatório documenta uma história bilionária de brutalidade, tirania e corrupção. Não é muito diferente do que a maioria de nós sabe sobre diamantes, depois de ter visto o filme “Diamantes de Sangue”, dirigido por Edward Zwick, com Leonardo Di Caprio, Djimon Hounsou, e Jennifer Connely, ou o documentário da National Geographic, Blood Diamond (Diamond of War).

Na sua luta mais ampla para conquistar poder econômico, político e militar, todas as facções guerreiras cometeram os mais horríveis abusos dos direitos humanos, incluindo matança generalizada de civis desarmados, estupros, tortura e pilhagem, recrutamento de soldados infantis para lutar em suas fileiras, e o deslocamento a força de centenas de milhares de pessoas. A atração das riquezas minerais do leste do Congo é um dos fatores que os incentiva. Quando esses minerais chegam a seus destinos finais – os mercados internacionais da Europa, Ásia e América do Norte – sua origem e o sofrimento causado por esse comércio já foram esquecidos há muito.

Esses minerais terminam dentro de produtos avançados de grandes companhias globais, relata a Global Witness:

Muitos dos principais comptoirs – atacadistas baseados em Goma e Bukavu – compram, vendem e exportam minerais produzidos por esses grupos armados ou que os beneficiam. Eles incluem o Groupe Olive, Muyeye, MDM, Panju e outros. O fato de que esses comptoirs sejam licenciados oficialmente e tenham registro junto ao governo congolês serve de cobertura para a lavagem de minerais que estão financiando o conflito. Entre os clientes desses comptoirs estão companhias da Ásia e da Europa, como a Thailand Smelting and Refining Corporation (THAISARCO), a quinta maior produtora de estanho do mundo, propriedade da gigante dos metais britânica Amalgamated Metal Corporation (AMC); a britânica Afrimex; e várias companhias belgas como Trademet e Traxys. Essas empresas vendem minerais a uma gama de processadoras e manufaturas incluindo firmas da indústria eletrônica. Agentes econômicos estão fazendo vista grossa para o impacto de suas atividades. Eles continuam a alegar ignorância sobre a origem de seus suprimentos e se escondem por trás de um amontoado de outras desculpas por não serem capazes de excluir minerais que alimentam a guerra de sua cadeia de suprimentos.

O relatório diz que a cassiterita (minério de estanho) é o mais importante dos minerais de sangue tanto em termos de quantidade, quanto de preço. Ela tem muitos usos como componente na produção de soldas, revestimento de estanho e ligas. Os usuários finais são as indústrias eletrônica e de latas de estanho. Soldas eletrônicas representaram mais de 44% de todo o estanho refinado em 2007. Em 2007 e 2008, diz a Global Witness, a assim chamada República Democrática do Congo respondeu por 5% da produção global de minério de estanho.

Os atacadistas – comptoirs – são, de acordo com a Global Witness, uma parte crítica nessa cadeia de suprimento e exportação de minerais, em um quadro de violência, exploração e degradação humana e ambiental.

“Nós todos acabamos comprando minerais que, de alguma forma, foram produzidos ilegalmente. Vocês não podem apenas nos pedir para parar. Não teríamos outra alternativa se não fechar”, um representante de comptoir disse à Global Witness.

A Global Witness escreveu para perto de 200 empresas, no mundo todo, perguntando sobre suas práticas de comércio na República Democrática do Congo.

Algumas das empresas que responderam à Global Witness afirmaram que estavam comprometidos com a aplicação e o aperfeiçoamento de melhorar suas políticas de auditoria e verificação. Contudo as políticas ou códigos internos de conduta a que eles se referem são bastante genéricos e não incluem salvaguardas específicas contra o comércio de minerais que financiam a guerra.

A visão da Global Witness à época do relatório era que a indústria não tinha um plano coerente para enfrentar a dimensão da guerra no comércio mineral.

A indústria tomou algumas medidas para enfrentar o problema, coordenadas por sua associação, a ITRI – International Tin Research Institute (Instituto Internacional de Pesquisa sobre o Estanho). O Instituto defende que a “Fase 1” de seu projeto, implementada em julho de 2009, foi “um abrangente plano de auditoria e verificação para minérios de estanho exportados da República Democrática do Congo (RDC)”. Ele está agora anunciando a “Fase 2” dessa política, chamada de Iniciativa para a Cadeia de Suprimento do Estanho (iTSCi, na sigla em inglês).

O ITRI diz que a iTSCi representa “o primeiro teste de campo prático concebido para enfrentar as preocupações com os “minerais de conflito” daquela região e demandou comprometimento significativo e financiamento da ordem de US$ 600 mil para ser concebido e poder ser implementado”.

A Fase 2 consiste em um “teste piloto que começará a rastrear minerais e prover informação verificável sobre sua procedência de províncias minerais específicas no leste da RDC; algo que não era possível até agora”.

A iniciativa tem o apoio de um grupo de consumidores finais pesos pesados da indústria eletrônica, como Apple, Dell, HP, IBM, Intel, Lenovo, Microsoft, Motorola, Nokia, Nokia Siemens Networks, Philips, RIM, Sony, Telefônica, Western Digital e Xerox.

Kay Nimmo, Diretor de Sustentabilidade e Assuntos Regulatórios diz que a indústria pode agora, “dar um passo adiante no projeto iTSCi” o qual “demonstra realmente o compromisso do setor de estanho, e agora do tântalo, em encontrar uma solução para essa difícil questão”.

É uma atitude positiva e bem vinda, mas parece ainda uma resposta fraca para um problema tão brutal. A Global Witness reconhece que muitas empresas de mineração e de eletrônica – principalmente TI e celulares – têm políticas claras para sustentabilidade de suas cadeias de suprimento, mas os procedimentos de auditoria e verificação não são adequados à identificação do controle dos paramilitares sobre uma larga fatia do suprimento de minerais.

Um Grupo de Especialistas foi indicado pela ONU em 2004 para examinar a questão e, em 2008, divulgou um relatório recomendando que estados membros da ONU “tomassem medidas apropriadas para garantir que exportadores e consumidores de minerais congoleses sob sua jurisdição conduzissem auditorias e verificações em seus supridores e não aceitassem garantias verbais de compradores sobre a origem de seu produto”.

O plano do ITRI de rastrear minerais e prover informação verificável de procedência pode ser um instrumento importante para a certificação de origem na cadeia de suprimento. Casos similares de bens ilegais entrando no processo de produção de grandes empresas globalmente competitivas mostram que só os consumidores industriais finais têm o poder de impor o cumprimento de regras para limpeza da cadeia de suprimento. Daí a importância do envolvimento de empresas como Apple, Dell, HP, Microsoft, Xerox.

A situação não parece ter mudado muito desde que a Global Witness publicou seu relatório e o ITRI implementou a Fase 1 de seu projeto. Annie Dunnebacke, recém-chegada de uma viagem de campo de um mês ao Congo, relata que:

Por mais de uma década a riqueza mineral do país tem incentivado e fornecido base financeira para que o conflito no Congo continue. A não ser que o governo e doadores internacionais implementem uma estratégia abrangente que elimine de uma vez por todas os motores econômicos desse conflito, a população local continuará a sofrer e o futuro do país continuará ameaçado.

Emilie Serralta, também parte time de campo da Global Witness recém chegado do Congo, acrescenta que a capacidade dos ex-rebeldes de retirar renda das minas significa que eles podem se rearmar, se decidirem que a paz não lhes interessa mais. Esse é perigo particularmente agudo considerando a história dos ex-comandantes de reverter à rebelião quando não conseguem o que querem.

A Global Witness disse, em uma nota de imprensa recente, ter evidência de que companhias do leste do Congo e de Rwanda continuam comprando diretamente das minas militarizadas.

Algumas firmas da indústria se comprometeram no papel a adotar práticas de rastreamento mais preciso na cadeia de suprimento e de compras responsáveis, mas até agora, empresas comprando minerais do leste do Congo não saíram da retórica e não colocaram em prática medidas de auditoria e verificação que tenham credibilidade.

Annie Dunnebacke argumenta, nessa nota de imprensa, que não é suficiente as empresas se apoiarem em promessas ou guias preenchidas por seus supridores. Se as empresas querem evitar serem cúmplices no conflito armado e nos abusos de direitos humanos, têm que fazer investigações para descobrir exatamente de que minas os produtos estão saindo e quem está se beneficiando desse comércio. A informação sobre quem controla que minas é de conhecimento geral nas cidades mercantis do leste do Congo. As empresas comprando minerais das áreas militarizadas não podem alegar ignorância.

Leia a mtéria original no link - http://www.ecopolitica.com.br/2010/03/23/minerais-de-sangue-em-nossos-computadores-e-celulares/.
(Envolverde/Ecopolítica)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Belo Monte
BNDES é notificado sobre co-responsabilidade de impactos da usina

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que já se dispôs a ser o maior financiador da hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, em Altamira, no Pará, será advertido da co-responsabilidade pelos impactos da obra, que assumirá com a efetivação do empréstimo. Nesta quarta-feira (24/3), às 11h, integrantes de movimentos sociais e ONGs, além de representantes das populações indígenas e ribeirinhas de Altamira, realizam uma manifestação criativa em frente à sede do BNDES, para acompanhar a entrega da notificação à direção do banco.

Hoje os movimentos sociais de Altamira, com apoio de organizações nacionais, entregam ao BNDES uma notificação extrajudicial que adverte o banco sobre a fragilidade da licença ambiental expedida pelo Ibama. De acordo com o instrumento jurídico, a licença não oferece nenhuma garantia de que a obra é viável do ponto de vista socioambiental, uma vez que a avaliação técnica do órgão, que afirmou que “não há elementos suficientes para atestar a viabilidade ambiental do empreendimento”, foi desconsiderada no ato do licenciamento. Nesse sentido, o financiamento pelo banco seria ilegal, e se a obra vier a ser construída, ele será, de acordo com a legislação brasileira, responsabilizado pelos prejuízos socioambientais que não foram previstos.

Segundo a notificação, se os eventos danosos anunciados nos pareceres técnicos do Ibama vierem efetivamente a ocorrer, o BNDES seria passível de ser cobrado por todos os custos decorrentes dos impactos sobre a fauna, flora e pessoas da região, quaisquer que sejam os seus valores, e inclusive aqueles que são impossíveis de se valorar.

A notificação também aponta que, como gestor de recursos públicos, e comprometido, conforme seu estatuto social, a realizar “exame técnico e econômico-financeiro de empreendimento, projeto ou plano de negócio, incluindo a avaliação de suas implicações sociais e ambientais” para aprovar qualquer transação financeira, o BNDES tem o dever de considerar todas as variáveis que envolvem a obra.

Impactos de Belo Monte

A notificação destaca o atropelo com que o Ibama concedeu a licença prévia de Belo Monte, desconsiderando as observações da equipe que fez o Parecer Técnico 06/2010, que não aceitava a solução proposta para alguns dos impactos socioambientais que afetarão a região.

Um dos importantes impactos que não foi considerado diz respeito à qualidade da água. Estudo realizado por especialistas da Universidade de Brasília (UnB), a pedido do Ibama, e entregue poucos dias antes da emissão da licença, afirma que a modelagem utilizada no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) é equivocada e insuficiente para fazer prognósticos futuros de como ficará a qualidade da água. Afirma também que, ao contrário do que diz o estudo elaborado pela Eletrobrás, é alta a probabilidade de que a água ao longo de 144 km do rio Xingu fique “podre” (eutrofizada) e abaixo dos parâmetros mínimos exigidos pela Resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o que deveria impedir a expedição da licença.

Outro ponto importante diz respeito aos impactos na região da Volta Grande do rio Xingu, um trecho de mais de 100 km de rio, onde moram centenas de famílias, e que viverá uma “eterna seca” caso a obra seja construída, pois grande parte da água do rio será desviada para os canais a serem construídos. O problema é que a licença contrariou a decisão da equipe técnica do Ibama, que afirma que a quantidade de água que a Eletrobrás propõe liberar para esse trecho - e que foi aceita pela diretoria do órgão - é insuficiente para manter o modo de vida dessas pessoas, pois, com as alterações profundas no ciclo natural, não haveria mais como pescar ou navegar.

Além do BNDES, todos os demais financiadores também deverão ser notificados.
CIMI

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Movimentos sociais conectados: o MST e o Exército Zapatista


Os movimentos sociais do século 21 consolidaram suas identidades e afinaram os seus discursos na tentativa de conquistar a opinião pública. Nesse processo, o uso da Internet como instrumento estratégico para comunicação e para organização de suas luta tem sido fundamental.
Neblina Orrico

Foto:NPC

O protagonismo social e político dos movimentos sociais na América Latina ganhou uma nova forma de expressão com a utilização da Internet como aliada e ferramenta de luta. Dois movimentos sociais fazem uso da rede mundial de computadores como arma estratégica: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Brasil, e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), no México [1].

Por meio do uso da Internet, esses dois protagonistas disponibilizam informações divulgando a “sua versão” dos fatos e dos objetivos da sua luta, na tentativa de construir novos canais para uma nova sociabilidade [2].

Na construção do discurso dos sites “oficiais” dos dois movimentos foram desenvolvidas e utilizadas uma nova visão e uma nova representação das maneiras dos integrantes desses movimentos sociais lutarem por seus objetivos. Muitas vezes, esses sites – e todo o seu conteúdo – funcionam como principal instrumento de comunicação e como arma estratégica na elaboração das agendas dos movimentos sociais da atualidade. Funcionam ainda como contraponto ao discurso construído pelos meios de comunicação acerca das suas identidades. A construção de novos discursos que geram impactos na sociedade e se transformam em notícia é uma preocupação permanente da maioria dos movimentos sociais da atualidade, pois essa é uma maneira de legitimar suas ações e construir suas identidades.

Além disso, esses dois movimentos passaram a atuar em rede entre si e com outros atores sociais e construíram uma forma de luta, coordenando e conduzindo suas ações com o uso da Internet. Foram capazes de criar novas oportunidades de se apresentar ao mundo, de legitimar as ações, de divulgar as demandas pelas quais lutam, de pressionar os meios de comunicação tradicionais a noticiarem com menos parcialidade fatos ligados a eles e de eles próprios noticiarem fatos ligados às suas lutas.

Uma das características mais fortes do EZLN é a importância que seus membros dão para a opinião pública. Sabendo que as informações transmitidas na rede mundial de computadores podem chegar sem nenhum “tratamento” ao computador do público, os zapatistas têm o cuidado de utilizar uma comunicação estrategicamente transparente, uma linguagem simples e capaz de comunicar quem são e o que querem. Ela traz detalhes do dia-a-dia das comunidades zapatistas para o cotidiano das pessoas, ganhando a confiança de quem busca informações sobre eles de uma forma nunca antes feita por outros movimentos sociais latino-americanos.

Ao iniciar a utilização da internet como estratégia de luta, há mais ou menos seis anos, o MST também deu início a um “burilamento” de seu discurso, abandonando a sua velha tática discursiva para usar uma nova maneira de divulgar informações sobre o movimento para o resto da sociedade. Isso é consequência do processo de aquisição de identidade e consciência próprias pelo qual os trabalhadores e trabalhadores rurais sem-terra se afirmam como sujeitos sociais atuantes. Concomitantemente com o início da informatização do MST, foi iniciada a etapa de mostrar ao mundo que o movimento é integrado por pessoas altamente comprometidas com a luta pela democratização da terra no Brasil e não por arruaceiros, como tenta mostrar a mídia tradicional. Além disso, é preciso destacar a iniciativa do movimento de investir em um ambicioso projeto de inclusão digital dos trabalhadores rurais que já estão assentados. Para o MST, é importante que os camponeses e seus filhos tenham acesso às novas tecnologias como tentativa de incentivá-los a permanecer no campo, sem deixar de estarem informados sobre o que se passa no mundo.

O cotejo entre o discurso do MST e do EZLN mostrou que os dois movimentos sociais utilizam maneiras diferentes para atingir a sociedade por meio da rede mundial de computadores. O discurso emancipatório dos movimentos sociais, agora veiculado também pela internet, representa uma nova maneira de lutar pela mudança social. Enquanto os zapatistas preferem uma linguagem muito mais poética e metafórica, que resgata elementos da linguagem indígena dos Chiapas, mas que, mesmo assim, é simples e transparente, o MST investe na objetividade e em textos jornalísticos para alcançar o internauta. Numa época em que a linguagem adquiriu evidência e centralidade na constituição, manutenção e desenvolvimento das nossas sociedades, os sites dos movimentos se tornaram verdadeiros cartões de visita, apresentando e divulgado a bandeira de luta do movimento, seja pela realização da reforma agrária, seja por justiça social e por democracia. Graças à Internet, eles obtêm visibilidade pública e angariam simpatizantes que se tornam adeptos das suas bandeiras de luta e apoiam suas causas.

As análises sobre os movimentos sociais constituídos no fim do século passado ou mesmo no início deste século devem necessariamente levar em consideração que esses novos movimentos sociais do século 21 aprenderam a utilizar a internet como ferramenta para criar novas conexões que buscam diminuir as fronteiras entre eles e a sociedade, vinculando a sua luta particular a uma luta maior contra as velhas e as novas formas de dominação. Atualmente, os movimentos sociais tentam mudar a realidade social, contribuindo com a (re)construção de uma simetria das relações de poder por meio do discurso divulgado em suas páginas de internet.

[1] As constatações deste artigo são resultado de uma pesquisa qualitativa, feita em 2005, que analisou textos virtuais e entrevistas com representantes dos dois movimentos em questão para a realização da dissertação de mestrado Movimentos sociais e a internet da mesma autora.
[2] Lévy (1999, p. 256)
Fonte:Le Monde

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

SOJA E POBREZA
Município do Tocantins lidera ranking de soja e de pobreza

Aditivado por projeto controverso que enriquece fazendeiros e transnacionais, Campos Lindos (TO) é líder estadual de produção de soja. Localidade tem a maior proporção de pobres de todo o país, segundo pesquisa do IBGE

Por Maurício Hashizume*
A propaganda do agronegócio associa a expansão acelerada da soja à prosperidade. Os problemas são os fatos, que não escondem os problemas socioambientais vinculados à atividade. Uma dessas chagas atende pelo nome de Projeto Agrícola Campos Lindos, no Nordeste do Tocantins, a 491 km da capital Palmas (TO). O empreendimento, que este ano completou uma década e exporta milhares de toneladas do grão todos os anos, é resultado de dois contestados processos de "titulação" pública, não teve licença ambiental para se instalar, foi palco de trabalho escravo e desalojou famílias tradicionais que hoje padecem com índices vergonhosos de pobreza.

A Repórter Brasil preparou duas reportagens especiais que recuperam o processo de gênese do lucrativo negócio numa das áreas mais privilegiadas do Cerrado e revelam as consequências nada reluzentes para o "povo comum" da região. Este capítulo inicial trata da formação do Projeto Agrícola Campos Lindos - marcado pela aguda intervenção do ex-governador Siqueira Campos (PSDB), pelo beneficiamento privado dos "amigos do rei" e pela postura polêmica de órgãos públicos que deveriam zelar pelo interesse coletivo. O segundo e último capítulo esmiuçará as marcas da indigência no cotidiano e o grau de violação de direitos fundamentais em Campos Lindos (TO).
RepórterBrasil