quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Alarmante
Agrotóxicos: dos impactos imediatos ao modelo de produção




Leila Lea*
Os números impressionam: em 2009, foram vendidas no Brasil 789.974 toneladas de agrotóxicos, movimentando US$ 6,8 bilhões e fazendo do país o maior consumidor desse tipo de substância no mundo.

São mais de 400 tipos de agrotóxicos, comercializados sob a forma de 2.195 diferentes produtos. Os dados, do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos Defensivos (Sindag, entidade das empresas produtoras de agrotóxicos), levantam, no mínimo, algumas curiosidades. Como e por que o Brasil se tornou o principal consumidor de agrotóxicos no mundo? Que conseqüências diretas isso traz para a população? Há regulação para esse uso intensivo? Isso é seguro?

Além das questões imediatas, o tema dos agrotóxicos levanta outros debates, que se relacionam ao contexto e às bases materiais desse consumo intenso dos ‘defensivos agrícolas’, como são chamados pelas empresas produtoras, ou ‘venenos’, nomenclatura comumente utilizada entre pequenos agricultores e trabalhadores do campo. Afinal, se o Brasil utiliza os agrotóxicos em larga escala, certamente o modelo de produção agrícola majoritário no país é compatível com o uso dessas substâncias. E que modelo é esse? Por que ele é baseado na utilização dos agrotóxicos? Que tipo de interesses essa questão envolve, e quais seus impactos econômicos, sociais, políticos e ambientais?

Foram temas como esses que deram o tom do Seminário Nacional contra o Uso de Agrotóxicos, realizado entre os dias 14 e 16 deste mês na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema - São Paulo. Organizado pela Via Campesina e pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), o Seminário foi apoiado pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz e contou com a participação de cerca de 90 pessoas, representando mais de 30 movimentos sociais, instituições, entidades ambientalistas e organizações da sociedade civil.

Impactos na saúde

“Aconteceu em outubro de 2009, no interior do Espírito Santo. Foi feita uma pulverização aérea de agrotóxicos em uma plantação de café próxima a uma escola. Os aviões passavam perto da escola despejando os agrotóxicos e as aulas não puderam continuar. Por causa do cheiro forte, as crianças começaram a passar mal e algumas chegaram a desmaiar”. O relato, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), foi apenas um dos apresentados no Seminário para ilustrar alguns dos impactos imediatos do uso de agrotóxicos no dia-a-dia da população. A constatação de que aqueles que lidam com ‘veneno’ ficam frequentemente enjoados, depressivos, adoecem mais de câncer e tem índices de suicídios mais altos do que trabalhadores de regiões em que não há contato direto com agrotóxicos foram alguns dos elementos destacados pelo MPA.

Se a experiência concreta dos trabalhadores aponta problemas decorrentes do contato humano com os agrotóxicos, estudos recentes na área vão na mesma direção. No início de 2008, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), uma das responsáveis pelo monitoramento do uso de agrotóxicos no Brasil, decidiu colocar uma série de ingredientes ativos de agrotóxicos em reavaliação. A decisão, publicada no Diário Oficial da União de 25 de fevereiro daquele ano, aponta alguns dos motivos que determinaram a reavaliação: no caso da substância cyhexatina, “os estudos demonstram alta toxidade aguda bem como apresentam suspeita de carcinogenicidade para seres humanos, toxidade reprodutiva e neurotoxidade”. Isso quer dizer que a suspeita da Anvisa é de que esses produtos possam produzir efeito venenoso ou letal sobre o tecido nervoso de seres humanos, câncer e outros problemas.

Já os motivos que levaram à revisão do glifosato, outro ingrediente ativo de agrotóxicos, foram “sua larga utilização no Brasil, os relatos de casos de intoxicação ocupacional e acidental, a solicitação de revisão [para aumento] da dose estabelecida para a Ingestão Diária Aceitável (IDA) por parte de empresa registrante, a necessidade de controle de limite máximo de impurezas presentes no produto técnico e possíveis efeitos toxicológicos adversos”. Letícia Silva, da Gerência Geral de Toxicologia da Anvisa, apresentou no Seminário dados que comprovam o aumento da utilização de glifosato no Brasil na última década: em 2000, foram vendidas no país 39.515 toneladas da substância. No ano passado, esse número chegou a 299.965 toneladas.

Na lista de reavaliações da Anvisa, itens como suspeita de indução de câncer em seres humanos, efeitos letais sobre tecidos nervosos e possibilidade de efeitos sobre o sistema reprodutivo aparecem diversas vezes para os 14 diferentes produtos colocados em reavaliação. Segundo Letícia Silva, os resultados da avaliação, publicados em agosto deste ano, determinam o banimento total da cyhexatina até julho de 2011 (a substância só será mantida no estado de São Paulo) e apresentam o indicativo do banimento da utilização de acefato, metamidofós e endossulfan, também muito utilizados no Brasil. Esse indicativo está em análise por uma comissão tripartite formada, além da Anvisa, pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama, responsável pela análise ambiental) e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa, responsável pela análise agronômica).

Na água da chuva e na mesa de casa

Além da reavaliação de ingredientes ativos, Letícia Silva apresentou dados do Programa de Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA. Segundo ela, as análises do PARA de 2009 encontraram substâncias que estão em reavaliação pela Anvisa, como o endossulfan. Proibido em 45 países, entre eles Estados Unidos e em toda a União Européia, o endossulfan foi reavaliado por suspeita de desregulação endócrina e toxicidade reprodutiva e teve seu banimento indicado. Como demonstrou Letícia, o endossulfan foi encontrado em culturas de pepino, pimentão e beterraba. Isso significa que produtos consumidos nas grandes cidades estão contaminados por essa substância.

E os resultados não param por aí: o acefato, também indicado pela análise da Anvisa para ser banido no Brasil, foi encontrado em culturas de cebola e cenoura; e o metamidofós, também com banimento indicado e proibido em 37 países, foi encontrado em culturas de pimentão, tomate, alface e cebola. Mas o contato da população com os agrotóxicos vai além: Letícia também contou que, de acordo com dados de um estudo feito pela Universidade Federal do Mato Grosso em parceira com a Fiocruz, foi encontrado endossulfan em águas de chuva coletadas no Mato Grosso. De 104 amostras, 40 continham endossulfan alfa, 58 endossulfan beta e 40 endossulfan sulfato.

Para Alexandre Pessoa, professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz, que esteve presente no Seminário, a presença de agrotóxicos em águas de chuva tem implicações muito profundas: “A apresentação desses dados nos causa imensa preocupação. A contaminação das águas de chuva pela pulverização de agrotóxicos em grandes fazendas, feita através de aviões, tem impactos também para políticas públicas desenvolvidas pelo próprio governo federal. Exemplo disso são os programas Um Milhão de Cisternas e 1+2, através dos quais o governo faz uma parceria com a Articulação do Semi-Árido para utilização das águas de chuva para consumo dos pequenos agricultores. A presença de agrotóxicos nessas águas compromete o projeto”, adverte. E lembra: “As águas têm sido contaminadas em todo o seu ciclo hidrológico. Isso afeta não apenas as águas de chuva, mas também os corpos hídricos superficiais e o lençol freático. Nesse momento, está em revisão a portaria nº 518 do Ministério da Saúde [que estabelece procedimentos e responsabilidades do controle e da vigilância da qualidade da água] e isso precisa ser levado em consideração”.

Rosany Bochner, pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), explicou que os resultados considerados insatisfatórios pelo PARA dividem-se em duas categorias: resíduos que podem causar dano à saúde porque excederam os limites máximos estabelecidos em legislação e resíduos que podem causar dano à saúde porque são agrotóxicos não autorizados para aquele determinado alimento. Segundo dados do último ano, apresentados pela pesquisadora, 10% dos resultados insatisfatórios referem-se ao primeiro caso, e 85% ao segundo.

Esses danos à saúde podem ser divididos em agudos e crônicos. “Os efeitos agudos são aqueles mais visíveis, e que aparecem durante ou após o contato da pessoa com o produto e apresentam características mais marcantes. Já os efeitos crônicos podem aparecer semanas, meses, anos ou até mesmo gerações após o período de uso ou contato com o produto”, explicou. E completou: “Hoje temos uma situação que chamamos de iceberg da informação. Os problemas que mais conhecemos são os decorrentes das intoxicações por exposição aguda, o que é apenas uma ponta que fica mais visível. Os casos de intoxicações por exposição crônica, muito maiores, ficam escondidos”, analisou. Rosany é pesquisadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), criado em 1980 e vinculado à Fiocruz. O Sinitox é responsável pela coleta, compilação, análise e divulgação dos casos de intoxicação e envenenamento registrados pela Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica, e desde 2002 atua em conjunto com a Anvisa.

Economia política dos agrotóxicos

Os dados apresentados pela Anvisa também apontam elementos que remontam ao papel econômico da venda de agrotóxicos: enquanto o mercado mundial movimentado pela venda dessas substâncias cresceu 94% no mundo na última década, o índice de crescimento específico no Brasil no mesmo período foi de 172%. Segundo Letícia Silva, o fato de o país ser o maior consumidor de agrotóxicos do mundo amplia em muito as disputas judiciais no setor. Ela explica que a pressão política das empresas produtoras de agrotóxicos contra as reavaliações na Anvisa vem crescendo, o que passa inclusive pela tentativa de desqualificação técnica das restrições impostas pela Agência.

Ela lembra, ainda, que após países como China e Estados Unidos proibirem substâncias que ainda são permitidas no Brasil, essa pressão aumentou. A representante da Anvisa lembra que a legislação que rege o uso de agrotóxicos, a Lei 7802, de 1989, é avançada no sentido de regular o uso dessas substâncias. “Mas o que vemos desde que ela foi aprovada é uma pressão política que se reverteu em uma série de decretos, todos no sentido de flexibilizar a fiscalização e estender os prazos de adaptação às empresas produtoras”.

Segundo Horário Martins, engenheiro agrônomo que foi debatedor no Seminário, o mercado de agrotóxicos é extremamente concentrado. Ele explicou que as grandes empresas multinacionais que controlam a oferta e demanda de agrotóxicos atuam também nos ramos de sementes, na farmacêutica e veterinária, concentrando as áreas da biotecnologia. Os dados confirmam: as seis maiores empresas produtoras de agrotóxicos no mundo (Syngenta, Bayer, Monsanto, Basf, Dow e DuPont) concentram cerca de 70% de todo o mercado dessas substâncias. Horácio destacou, ainda, que somente a Monsanto reponde, hoje, por 25% do mercado brasileiro de sementes de hortaliças, estimado em US$ 200 milhões anuais. Segundo ele, essa alta concentração reflete um modelo de produção agrícola voltado para os lucros, que pressiona o setor público e consegue, direta ou indiretamente, influenciar os processos de construção dos marcos regulatórios para o uso dos agrotóxicos. “Estamos diante da perspectiva de o capital financeiro, representado por essas grandes empresas, controlar as áreas de saúde e alimentação”, analisou. O engenheiro agrônomo apontou que o agronegócio, representado pelas grandes empresas que controlam o mercado de sementes, agrotóxicos e também de transgênicos, determina um novo sistema agroalimentar mundial. A modificação genética de sementes para recebimento de agrotóxicos, segundo ele, demonstra como os transgênicos fazem parte de uma estratégia para vender pesticidas e aquecer esse lucrativo mercado.

Dados apresentados por Sílvio Porto, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), confirmam: a utilização de transgênicos não minimiza os custos e nem o uso de agrotóxicos, como muitas vezes afirmam as empresas. No ramo da soja, a venda de herbicidas passou de 73.302 toneladas em 2000 para 142.169 toneladas em 2005 e atingiu 226.825 toneladas em 2009, o que representou um aumento de 209% na década. Já a área plantada passou de 13, 97 milhões de hectares em 2000 para 22,74 milhões de hectares em 2005 e chegou a 23,35 em 2009, um aumento de 67%.

Agroecologia como alternativa

O Seminário realizado na Escola Nacional Florestan Fernandes também se dedicou à discussão das alternativas ao modelo do agronegócio, sustentado e impulsionador do uso abusivo de agrotóxicos. Segundo Denis Monteiro, da Articulação Nacional de Agroecologia, a agricultura familiar vem sendo discutida cada vez mais entre os movimentos sociais e deixando de ser considerada ‘coisa de fundo de quintal’: “A agroecologia e agricultura familiar têm aparecido como uma real alternativa ao agronegócio. Esse debate está na pauta dos movimentos sociais e estamos conseguindo mostrar que sementes produzidas e guardadas pelos povos agricultores são mais produtivas e têm menor custo do que as sementes transgênicas do agronegócio”, disse, lembrando que o enfrentamento aos transgênicos deve se dar conjuntamente ao enfrentamento aos agrotóxicos: “Trata-se da mesma lógica. Os transgênicos também estão relacionados à monocultura, degradação ambiental, dependência tecnológica de grandes empresas e determinam o aumento do uso de agrotóxicos”.

Como encaminhamento concreto, o Seminário aprovou, consensualmente, a construção da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Segundo Alexandre Pessoa, a iniciativa combinará denúncias e proposições: “As organizações presentes decidiram organizar-se em dois eixos, que são o combate aos agrotóxicos e o desenvolvimento da alternativa de produção saudável consolidada na agroecologia. A Campanha, que deverá ser construída nacional e internacionalmente, deve estabelecer um conjunto de ações permanentes que revelarão com estudos, pesquisas e mobilização social os impactos e riscos à saúde pública decorrentes do uso intensivo de agrotóxicos no Brasil. Isso será combinado com desenvolvimento de ações de agroecologia, que deve ser difundida como alternativa no país”.
, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio

(Adital/MercadoÉtico)

20% das espécies de plantas no mundo corre risco de extinção



O habitat mais ameaçado são as florestas tropicais, como a Amazônia.

As plantas são tão ameaçadas pelo risco de extinção como os mamíferos, de acordo com uma análise global realizada por instituições europeias. O estudo revelou que uma em cada cinco espécies de plantas no mundo corre risco de extinção.

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção, com os resultados da análise realizada pelo Royal Botanic Gardens de Kew e pelo Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido, e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), foi divulgada nesta terça-feira (28/9), na capital inglesa.

O estudo, considerado uma das principais bases para a conservação, revelou a verdadeira extensão da ameaça às plantas do mundo, estimadas em cerca de 380 mil espécies.

Cientistas das três instituições realizaram avaliações a partir de uma amostra representativa de plantas de todo o mundo, em resposta ao Ano Internacional da Biodiversidade das Nações Unidas e às Metas de Biodiversidade – 2010.

Os resultados anunciados deverão ser considerados na Cúpula da Biodiversidade das Nações Unidas, que reunirá governos em meados de outubro em Nagoia, no Japão, com o objetivo de estabelecer novas metas.

O trabalho teve apoio principalmente na ampla base de informações botânicas do Herbário, Biblioteca, Arte e Arquivos de Kew – que inclui cerca de 8 milhões de espécimes preservadas de plantas e fungos –, nos 6 milhões de espécimes do herbário do Museu de História Natural, em dados digitais de outras fontes e nas bases de informação da rede de parceiros dos Royal Botanic Gardens em todo o mundo.

“O estudo confirma o que já suspeitávamos: as plantas estão sob ameaça e a principal causa é a degradação induzida por humanos em seus habitats”, disse Stephen Hopper, diretor dos Royal Botanic Gardens de Kew.

“Pela primeira vez temos um retrato global claro do risco de extinção das plantas mais conhecidas no mundo. Esse relatório mostra as ameaças mais urgentes e indica as regiões mais ameaçadas”, afirmou.

Segundo Hopper, existem questões cruciais para serem respondidas, como qual a velocidade e a causa da perda de espécies e o que pode ser feito com relação a isso.

“Para responder a essas questões, precisamos estabelecer uma base a partir da qual possamos medir as transformações. A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção faz exatamente isso, avaliando uma ampla amostra de espécies vegetais que são coletivamente representativas de todas as plantas do mundo”, disse.

O cientista acrescentou que as Metas de Biodiversidade para 2020, que serão discutidas em Nagoia, são ambiciosas. Mas um aumento de escala nos esforços se faz necessário em um momento de perda pronunciada da biodiversidade. “As plantas são o fundamento da biodiversidade e sua relevância para as incertezas climáticas, econômicas e políticas tem sido negligenciada por muito tempo”, afirmou.

“Não podemos ficar de braços cruzados olhando as espécies vegetais desaparecer – as plantas são a base de toda a vida na Terra, fornecendo ar limpo, água, comida e combustível. A vida de todo animal e ave depende delas, assim como a nossa. Obter as ferramentas e o conhecimento necessários para reverter a perda de biodiversidade é agora mais importante que nunca. A Lista Vermelha dá essa ferramenta aos cientistas e conservacionistas”, destacou.

Alguns dos dados revelados pelo estudo:

* Cerca de um terço das espécies (33%) da amostra é conhecida em grau insuficiente para permitir uma avaliação de conservação. Isso demonstra a escala da tarefa de conservação que será enfrentada por botânicos e cientistas – muitas plantas são tão pouco conhecidas que não é possível saber se estão ou não em perigo.
* De quase 4 mil espécies que foram cuidadosamente avaliadas, mais de um quinto (22%) foi classificado como ameaçado.
* Plantas são mais ameaçadas que aves, tão ameaçadas como mamíferos e menos ameaçadas que anfíbios e corais.
* Gimnospermas – o grupo vegetal que inclui as coníferas – são o grupo mais ameaçado.
* O habitat mais ameaçado são as florestas tropicais, como a Amazônia.
* A maior parte das plantas ameaçadas é encontrada nos trópicos.
* O processo mais ameaçador é a perda de habitat induzida pelo homem, em especial a conversão de habitats naturais para uso da agricultura.
Foto: Araquém Alcântara
Agência Fapesp/Minha caa Meu mundo

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Homenagem a Mi Sato

Editus DVD 360 - ¨Tocú¨


Só para ajudar a alegrar o seu dia........

Vote pelos animais!




Uma campanha genial dá as dicas de como votar nestas eleições em quem também leva em conta o bem-estar animal. A promotora da campanha é a Sociedade Mundial de Proteção Animal(WSPA), que fez um mapeamento dos candidatos das várias regiões do País, segundo seu histórico de ética e e preocupação com a causa animal.



Confira a lista de candidatos antes de fazer sua escolha e não deixe sua vaca ir pro brejo!Confira o site da WSPA

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pantanal ameaçado pelas mudanças climáticas. Entrevista especial com Paulo Teixeira de Sousa Júnior


Por Redação IHU


Além do clima extremamente seco nesta época do ano, a baixa produção da pecuária contribui para a maior intensidade de focos de queimada no Pantanal, menciona Paulo Teixeira à IHU On-Line. Ele explica que com a perda da competitividade econômica do gado pantaneiro e, progressivamente, a redução desses animais no ecossistema, a biomassa cresceu na região. “Esses animais pisam na grama e a presença deles, na época das secas, acabava tendo um impacto positivo no sentido de evitar as queimadas porque a biomassa estava menor. Temos hoje um volume muito maior de biomassa, grama e outros resíduos que o gado come e, nessa época, isso seca e pega fogo”.

Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, Teixeira aponta as mudanças climáticas como uma ameaça ao Pantanal e outras áreas úmidas. “De acordo com o pior cenário apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC (sigla em inglês), podemos ter uma redução de até 85% das áreas úmidas com a questão das mudanças climáticas. Isso será desastroso, porque estima-se que as áreas úmidas armazenam uma quantidade de carbono duas vezes superiores ao que já tem na atmosfera”. Em contrapartida, áreas úmidas como a pantaneira são fundamentais para mitigar os efeitos das mudanças climáticas na medida em que regulam o ciclo hidrológico e purificam a água.

Paulo Teixeira de Sousa Júnior é graduado em Química pela Universidade de Brasília - UnB. Obteve os títulos de mestre e doutor em Química Orgânica pela Universidade de São Paulo - USP e pela University of East Anglia, na Inglaterra, respectivamente. Atualmente, atua como voluntário no Centro de Pesquisas do Pantanal. É também diretor Pantanal Regional Environmental Programme, um dos 14 centros de pesquisa da United Nations University, e professor da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Mato Grosso registra o pior desastre de sua história em função das queimadas. Quais os motivos das queimadas na região e seus efeitos para o Pantanal?

Paulo Teixeira – Uma das principais razões dessas queimadas é o clima extremamente seco deste ano. No mês de setembro, na região Centro-Oeste, o clima é bastante seco e isso origina as queimadas. Outra razão dessa maior intensidade de focos de queimadas no Pantanal diz respeito à produção de gado. Nos últimos anos, com a perda da competitividade econômica do gado pantaneiro, reduziu-se o número de cabeças de gado na região e isso começou a permitir que a biomassa crescesse: esses animais pisam na grama e a presença deles, na época das secas, acabava tendo um impacto positivo no sentido de evitar as queimadas porque a biomassa estava menor. Temos hoje um volume muito maior de biomassa, grama e outros resíduos que o gado come e, nessa época, isso seca e pega fogo. Esse é um fato que vai contra o senso comum de outras regiões: enquanto em alguns locais do país o gado é o causador do impacto ambiental, no Pantanal, o que está causando impacto ambiental é a saída do gado.

Outra razão que tem influenciado o avanço das queimadas é a retirada da mata do Pantanal para produzir carvão para carvoarias.

IHU On-Line - Quais as consequências caso o fogo se espalhe?

Paulo Teixeira – As consequências são a perda da biodiversidade e prejuízos para a pecuária local, a qual já está abalada.

A questão do fogo no Pantanal não é incomum. Alguns pesquisadores inclusive advogam a questão da queimada controlada no Pantanal. Há uma controvérsia na região a respeito de dever ou não ser permitido fazer queimadas controladas, as quais vêm sendo feitas há alguns anos. Não é a queimada em si que geraria o problema, mas a forma descontrolada e o volume de fogo que está acontecendo neste momento.

IHU On-Line - Qual a necessidade de preservar as áreas úmidas, por exemplo, o Pantanal, como uma resposta para as mudanças climáticas globais? O ecossistema corre algum risco em função das mudanças climáticas e do aquecimento global?

Paulo Teixeira – O Pantanal contribui para melhorar os impactos das mudanças climáticas na medida em que regula o ciclo hidrológico e purifica a água, atuando como se fosse uma esponja: na época das chuvas, ele absorve lentamente a água e, na época das secas, essa água vai sendo lentamente liberada. De acordo com o pior cenário apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC (sigla em inglês), podemos ter uma redução de até 85% das áreas úmidas com a questão das mudanças climáticas. Isso será desastroso, porque estima-se que as áreas úmidas armazenam uma quantidade de carbono duas vezes superiores ao que já tem na atmosfera. Mas isso se aplica mais a outras áreas úmidas do que ao Pantanal, como a tundra, no norte do Canadá e a região do norte da Escócia, que têm áreas úmidas com solos ricos em carbono. O Pantanal não é um bom poço de carbono, ele armazena mais carbono na biomassa e na vegetação existente no ecossistema.

Caso essa previsão do IPCC se confirme, esse carbono será liberado para a atmosfera, alimentando o efeito estufa e gerando um ciclo perverso: mais CO2, agravamento do efeito estufa e redução do nível das áreas úmidas.

IHU On-Line – O impacto das mudanças climáticas é diferente em áreas úmidas e áreas secas?

Paulo Teixeira – O impacto em si não muda; vamos conviver com eventos extremos: chuvas e secas serão mais intensos. As áreas úmidas tendem a mitigar o impacto das mudanças climáticas porque elas contribuem para a estabilização do microclima regional. Se, com as mudanças climáticas, se reduzirem as áreas úmidas, se reduz também a zona tampão. Então, perderemos esse serviço ambiental das áreas úmidas.

IHU On-Line - Qual é a importância de áreas de transição como o Pantanal para o equilíbrio do ecossistema?

Paulo Teixeira – Esse fenômeno, que chamamos de pulsos de inundação, que é exatamente esse movimento de vai e vem das águas, é fundamental para a manutenção do ecossistema na região. Isso porque, na época das cheias, a água carrega nutrientes e se amplia a área de pastagem para os organismos aquáticos e, na época da seca, esses organismos aquáticos se restringem a corpos d’água menores e passamos a ter locais ricos em organismos aquáticos que servem de pastagem para os organismos terrestres. É exatamente esse vai e vem das águas o responsável pela riqueza da biodiversidade de áreas úmidas tropicais com as características do Pantanal.

IHU On-Line - Quais os impactos da alteração ambiental do planalto do Pantanal e como isso se reflete no ecossistema?

Paulo Teixeira – Infelizmente, a maneira como a agricultura vem sendo praticada no planalto, em alguns casos, causa impactos bastante negativos porque ela tende a causar assoreamento dos rios. Há um carreamento muito grande de detritos sólidos por causa da compactação dos solos e do uso intensivo de pesticidas. Por exemplo, no Mato Grosso do Sul temos o rio Taquari, que foi completamente assoreado, já perdeu a calha por conta disso. A agricultura empresarial, da forma como tem sido feita no planalto, em alguns casos, onde a legislação não tem sido seguida, tem sido bastante prejudicial. Temos legislação adequada para que isso não ocorra, mas nem sempre essa legislação é obedecida.

IHU On-Line - Áreas úmidas como a pantaneira têm um papel importante na garantia de água limpa e produção de alimentos?

Paulo Teixeira – Tem. Esse papel que as áreas úmidas têm na produção de alimentos é algo muito antigo. Vemos a própria história do rio Nilo, no Egito; é nada mais do que isso. Na época da cheia, o rio Nilo levava nutrientes para o solo e em toda aquela região em volta deste rio se planta muita coisa até hoje. O mesmo ocorre aqui. Só que a planície pantaneira não é apropriada para a agricultura. Mas temos lá criação de gado, temos uma região que dá muito peixe. Não dá para fazer agricultura em larga escala naquela região, mas ela produz alimentos na medida em que produz gado e peixe.

IHU On-Line - Que fatores estão causando alterações no meio ambiente e na biodiversidade do Pantanal?

Paulo Teixeira – Um pouco tem relação com essa questão da forma com que a agricultura é praticada no planalto. Os principais impactos ambientais que o Pantanal sofre vêm do planalto e não da planície, mas não são os únicos. Existem também impactos ambientais que ocorrem na planície pantaneira. Temos, no Mato Grosso do Sul, um problema de desmatamento da planície para abastecer carvoarias. Lá e também no Mato Grosso, no Pantanal em geral, um problema que tem ocorrido é a perda de competitividade do gado pantaneiro. Se olharmos uns 40 anos atrás, as músicas que falavam em gado sempre o associavam ao Pantanal. Hoje não é mais assim. O gado daqui perdeu a competitividade para o gado de outras regiões e isso está empobrecendo a população local com consequências no meio ambiente. Isso porque esse gado vem sendo criado aqui há mais de 300 anos e o ecossistema de adaptou à presença dele.

Na época da seca, ele come a biomassa e pisa encima do capim, de maneira que onde tem gado, em época de seca, não temos um volume de biomassa muito grande. A retirada do gado está fazendo com que essa biomassa cresça bastante e na época da seca pega fogo e causa impacto em função disso. Ademais, os fazendeiros tradicionais têm um processo que se chama limpeza de campo, que vem sendo feito de maneira sustentável há bastante tempo, porque o gado já está acostumado com o bioma local.

O empobrecimento da região está levando a um barateamento das terras, que vêm sendo vendidas para pessoas de outras regiões que, por desconhecimento, têm causado impactos quando vão fazer a limpeza de campo de maneira inadequada. Podemos colocar as ameaças ao Pantanal em três níveis: da planície (com as fazendas de gado); do planalto (com a agricultura em larga escala que tem causado assoreamento dos rios); e sob o ponto de vista ainda do planalto podemos citar a questão das pequenas hidrelétricas. Tem-se implantado uma série de hidrelétricas e o que as autoridades têm visto é o impacto de cada uma isoladamente.

Com relação ao aspecto global, a principal ameaça que temos hoje no Pantanal ou nas áreas úmidas em geral são as mudanças climáticas. Segundo as previsões mais pessimistas do IPCC, podemos ter uma redução de 85% das áreas úmidas, com todas as consequências nefastas que isso acarreta, de perda dos serviços ecossistêmicos dessas áreas.

IHU On-Line - Alguns especialistas dizem que, nos EUA, a destruição de áreas úmidas ocasionou grandes enchentes. Isso é real? No Brasil, isso pode ocorrer caso não haja uma política de preservação no Pantanal?

Paulo Teixeira – É um risco, porque, se desregulamos o ciclo hidrológico, pode acontecer uma série de consequências, inclusive enchentes.

IHU On-Line – A nova proposta do Código Florestal pode ser boa para o Pantanal?

Paulo Teixeira – Essa nova proposta que está em debate não é boa para ninguém. É boa só para o agronegócio. O lobby da bancada ruralista no Congresso em cima da proposta foi muito forte e há uma rejeição muito grande de vários setores da sociedade a essa proposta. Acreditamos que o bom senso ao final vá prevalecer, porque a pressão social está muito grande. Antes das eleições não deve sair a votação. Mas se passar, essa proposta será preocupante. Mas acredito que não passe. Temos que ser otimistas.
(Envolverde/IHU On-Line)

domingo, 26 de setembro de 2010

ONG britânica escolhe Fotógrafo de Meio Ambiente de 2010


A edição de 2010 do prêmio Fotógrafo de Meio Ambiente do Ano da ONG britânica Instituto para a Gestão do Meio Ambiente e da Água (CIWEM, na sigla em inglês) premiou o alemão Florian Schulz pelo registro de um grande grupo de arraias na costa do México.

A competição aceita inscrições de amadores e profissionais contanto que seus trabalhos reflitam questões climáticas, sociais e a natureza.

Criado em 2008, o prêmio já é considerado uma referência internacional.

As fotos são julgadas em cinco quesitos: impacto, criatividade, originalidade, composição e qualidade técnica.

Os vencedores do concurso irão participar de uma mostra na galeria londrina The Air entre 25 e 30 de outubro. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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Estadão

sábado, 25 de setembro de 2010

Dia Mundial com Carro... Compartilhado


Por Helio Mattar*, do Instituto Akatu

E com mais e melhores redes de metrô e trem, corredores de ônibus, hidrovias e ciclovias.

Ouço no noticiário do rádio e leio nos portais e blogs de internet comentaristas e cidadãos indignados com a cidade parada em congestionamentos, como ocorre diariamente. “Mas hoje não é o Dia Mundial sem Carro?”, questionam quase furiosos.

Assim que os relógios bateram zero hora de hoje, nossos problemas de excesso de veículos e falta de transporte público suficiente e decente não acabaram. O planejamento de nossas cidades não passou à meia noite de ontem, feito um lobisomem do bem, a priorizar o transporte coletivo de massa – sustentável e sustentado, amplo, articulado, ramificado e vascularizado – em vez dos carros. Não deixamos, de um minuto para outro, de construir túneis e pontes para investir mais em trens, metrô, ciclovias, corredores de ônibus e outras inovações que atendam às necessidades das grandes cidades e apontem para um transporte público de baixo carbono e eficiente.

Não, isso é processo. Depende de conscientização, reflexão e mobilização. E é precisamente para isso que existem as intervenções do Dia Mundial sem Carro, das quais o Akatu participa. Para que nos próximos Dias Mundiais sem Carro tenhamos efetivamente menos carros nas ruas; percamos menos tempo, saúde e dinheiro no trânsito e ganhemos em qualidade de vida, disposição no trabalho e convivência com a família e os amigos.

Se ao poder público falta muito ainda que avançar em planejamento e realizações de mobilidade, o que nós, consumidores, temos feito para contribuir? Dia Mundial sem Carro é momento para refletirmos. Exceto pelo reconhecimento social, precisamos mesmo de carro próprio? Ou precisamos de transporte? Precisamos nos deslocar?

No ano passado, o Brasil produziu 3,1 milhões de veículos. Já somos o sexto produtor mundial, atrás de China (13,7 milhões), Japão (7,9 milhões), EUA (5,7 milhões), Alemanha (5,2 milhões) e Coreia do Sul (3,5 milhões).

Projeções do governo e da indústria apontam que nesse ano, produziremos mais 3,4 milhões, e a produção brasileira deve dobrar até 2025. Somando-se à massa de metal que já circula pelas nossas cidades.

Será que a vida no planeta agüenta? Ainda que achemos solução para a equação da energia, que encontremos tecnologias novas e baratas de motores elétricos a partir de energia solar ou eólica para substituir os combustíveis de petróleo, resta-nos a equação da matéria física. A Terra é finita, hoje já exploramos 30% a mais de recursos que o planeta pode repor. De onde tiraremos minérios e água? E onde poremos todos esses carros? As grandes cidades já mostram sua saturação.

Segundo pesquisa do Movimento Nossa São Paulo, o paulistano economicamente ativo médio perde por dia duas horas e quarenta minutos no trânsito. São 973 horas em um ano. Em uma vida, são 58,4 mil horas ou 2.433 dias ou 81 meses ou quase sete anos. Quase sete anos da vida no trânsito!

Na cidade de São Paulo, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), R$ 33 bilhões são perdidos na produção por ano por causa do trânsito. Esse montante corresponde a 10% do PIB do município. O crescimento desordenado da frota e dos sistemas de trânsito da cidade se vinga na própria cidade. Em dez anos, a (falta de) mobilidade em São Paulo consome um ano inteiro de São Paulo.

Além de mais ciclovias, mais metrô, trens, ônibus e de tornar nosso rios navegáveis – como ocorre na Europa e na Ásia –, uma opção para mobilidade mais sustentável é o sistema de carros compartilhados – o car sharing como é chamado nos EUA e Europa.

Tão simples quanto eficiente, o carro compartilhado fica disponível em estacionamentos estrategicamente localizados na cidade e pode ser alugado e devolvido em qualquer uma. O usuário faz um cadastro, paga uma mensalidade ou anuidade, e recebe um cartão magnético que lhe dá acesso ao serviço. Passa o cartão tanto na retirada como na entrega do veículo e paga por hora ou quilômetro rodado. A conta é fechada mensalmente e debitada em cartão de crédito.

Impostos, combustível, seguro e manutenção do carro correm por conta da locadora. O sistema funciona integrado com os outros modais de transporte, e os estacionamentos ficam próximos a estações de trem, metrô, bicicletários, terminais de barco e ônibus.

O car sharing pode também potencializar o uso do táxi, indo de casa, do consultório ou do escritório até o estacionamento mais próximo. E para levar alguém ao aeroporto ou ao porto? Reuniões ou consultas distantes? Estádios de futebol também são pontos estratégicos, imagine não ter mais de procurar estacionamento no jogo do seu time...

O sistema ainda engatinha, em São Paulo. É o primeiro da Amércia Latina e começou com sete veículos há dois anos; são 12 carros hoje distribuídos em 11 estacionamentos na região da avenida Paulista. Mas em Londres, Paris e Nova York já é comum; na Suíça, o car sharing já soma 75 mil clientes e 2.000 carros à disposição.

A modalidade começou há 20 anos na Alemanha e era ridicularizada, vista como iniciativa de “ecochato”. Mas o negócio cresceu a taxas anuais de 20%, inclusive na crise de 2008 e 2009.

A idéia não é obrigar o usuário a deixar o carro em casa. Nenhuma “mobilização” forçada funciona. Mas é dar informação sobre os impactos do uso do carro individual e oferecer opções. Além de desafogar o trânsito, a prática ajuda o meio ambiente. Segundo uma empresa que opera na cidade de Colônia, na Alemanha, um carro compartilhado tira cinco carros privados das ruas. Estudo norte-americano aponta que lá são 13 carros particulares retirados de circulação.

Em Paris, já virou política pública: a prefeitura criou um programa para oferecer 3.000 carros compartilhados no ano que vem. A meta é reduzir 200 mil toneladas de emissões de CO2 por ano. O custo? Cerca de 40 milhões de euros (aproximadamente R$ 96 milhões).

Só na cidade São Paulo, segundo o Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP, 4.000 pessoas morrem todos os anos por causa da poluição do ar, 80% de origem veicular. O custo disso para o sistema de saúde chega a R$ 1,5 bilhão anual.

Alguém se anima a estender a implementação do carro compartilhado nas várias metrópoles brasileiras?

*Helio Mattar é diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e não usa carro de casa para o trabalho

(Envolverde/Instituto Akatu)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

ALERTA! Estudo denuncia invasão de terras indígenas no Mato Grosso


Redação Repórter Brasil

Terra Indígena Maraiwatsede, dos índios Xavante, tem 90% de sua área tomada por fazendeiros. Dois projetos de soja são responsáveis pelo maior desmatamento em Unidades de Conservação do Estado, destaca levantamento.

O Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA) da ONG Repórter Brasil lançou, nesta semana, novo estudo sobre os impactos da soja, com foco nos reflexos em Terras Indígenas (TIs) do Mato Grosso.

Maior produtor do grão no país, Mato Grosso abriga também o maior número de TIs. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2008, apenas 44 (ou 31,2%) dos 141 municípios do Estado não cultivam soja ou não tinham registro da cultura. No mesmo ano, 54 cidades (38,3%) tinham entre 10 mil e 575 mil hectares de soja. Das 78 TIs listadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) em terreno mato-grossense, ao menos 30 ficam em municípios com mais de 10 mil hectares de soja.

Problemas inerentes à produção de soja no Cerrado, como desmatamento, desertificação, pressão sobre os territórios, contaminação de solos e de cursos d´água já têm afetado várias aldeias indígenas.

Um dos casos mais graves é a invasão e o desmatamento dentro da TI Maraiwatsede. Homologada pelo governo federal em 1998 com extensão de 165 mil hectares, a área permanece com 90% de seu território tomado ilegalmente por fazendeiros e posseiros não indígenas, majoritariamente criadores de gado e produtores de soja e arroz. Estas atividades são responsáveis por um dos maiores desflorestamentos registrados em áreas protegidas no Mato Grosso: 45% da mata nativa da TI Maraiwatsede já foi destruída, como aponta o Relatório 2010 do Programa de Monitoramento de Áreas Especiais (ProAE) do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam).

Entre os invasores, estão “personalidades” - o ex, o atual e o irmão do prefeito de Alto Boa Vista (MT), o prefeito de São Félix do Araguaia (MT), e vários vereadores. Mas são duas fazendas de soja as maiores responsáveis pelo desmatamento ilegal da área, tendo sido multadas várias vezes pelo Instituto Brasileiro de Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e agora denunciadas também pelo Ministério Público Federal (MPF).

O estudo destrincha este caso e aborda ainda a pressão da sojicultura em outras áreas, como a TI Sangradouro, também dos Xavantes, e terras de Paresi, Irantxe e Nambikwara, que passaram a cultivar soja em parcerias com fazendeiros, questionadas pelo poder público.

Por fim, o relatório do CMA/Repórter Brasil discute alternativas e boas práticas do setor, como o projeto Y Ikatu Xingu, que busca recuperar as áreas degradadas da cabeceira do Rio Xingu.

(Repórter Brasil)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ambientalistas criam "praia" no Tietê, em São Paulo



Os canteiros da marginal Tietê, em São Paulo, foram tomados na manhã desta quarta-feira por pessoas em trajes de banho, guarda-sóis, cadeiras e esteiras, entre as pontes das Bandeiras e Cruzeiro do Sul.


ONG lança campanha Vá de Galinha em SP

Foi a segunda edição do "Praia no Tietê", um movimento organizado pela Fundação SOS Mata Atlântica com o objetivo de chamar a atenção para a despoluição do rio, cujo dia oficial é hoje.

Além da "praia", entre as 9h e as 13h, artistas de circo e de teatro apresentaram-se à beira do rio. Dois botes infláveis, cada um com quatro pessoas usando roupas especiais que protegiam da poluição, navegaram pelo Tietê da barragem da Penha até a ponte das Bandeiras.

De acordo com a fundação, a iniciativa pretende mostrar que o rio pode voltar a ser limpo e se tornar uma opção de lazer e de meio de transporte para os paulistanos.

Fundação SOS Mata Atlântica colocou banhistas com guarda-sois, cadeiras e esteiras à beira do rio Tietê

A iniciativa aproveitou o período eleitoral para cobrar políticas públicas voltadas à qualidade de vida e à continuidade das obras de descontaminação do rio.

A Sabesp iniciou também hoje a terceira fase de despoluição do Tietê, que deve consumir US$ 1,05 bilhão (em torno de R$ 1,8 bilhão) em investimentos. Só o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) investirá US$ 600 milhões na empreitada, segundo a companhia.

Nessa fase da despoluição, a Sabesp pretende construir redes coletoras de esgoto para 1,5 milhão de pessoas e tratar o esgoto coletado de outros 3 milhões de moradores da cidade. Até hoje, a companhia já investiu US$ 1,6 bilhão no Projeto Tietê.

Aproveitando o mote do Dia Mundial Sem Carro, lembrado também nesta quarta, a SOS Mata Atlântica montou uma simulação de ciclovia à beira do rio, como alternativa de transporte limpo na marginal.

A fundação também lançou a campanha "Vá de Galinha", para incentivar o motorista a deixar o carro em casa.
Folhaonline
Danilo Verpa/Folhapress

O que faltou nos debates políticos

Leonardo Boff


Nos debates políticos da campanha presidencial, temas fundamentais sequer foram tocados: que papel o Brasil vai desempenhar diante do horizonte sombrio que se está armando, para os próximos anos, sobre o planeta Terra com a acelerada exaustão de bens e serviços naturais e a gravidade dos eventos extremos de secas, enchentes e desertificação crescente, sem falar dos milhões de refugiados climáticos que não param de crescer?

Somos um país com vantagens comparativas inigualáveis em termos de água, de florestas úmidas, de biodiversidade e de fontes de energia alternativa e limpa, entre outras. Tais vantagens implicam uma responsabilidade irrenunciável de nossa parte, no sentido de ajudar nações em crise e na busca do equilíbrio perdido do sistema-Terra. Sobre tais questões quase nada se falou, à exceção de Marina Silva. Não queremos que se torne verdade o que advertiu recentemente o físico Stephen Hawking: “O ser humano precisa abandonar a Terra nos próximos 100 anos ou tornar-se uma espécie extinta”.

O Brasil está repleto de contradições. Por um lado, participa da tragédia global da humanidade pelas injustiças sociais que carrega e, por outro, possui todos os ingredientes para uma alternativa civilizatória de significado universal, como já o apontava, há tempos, o senador Cristovam Buarque.

Além da significativa contribuição ecológica que pode oferecer, vejo, entre tantos valores relevantes de nossa experiência como povo, dois que podem configurar positivamente a fase planetária da humanidade: nossa criatividade o nosso capital de esperança.

A criatividade pertence à essência do ser humano, pois ele não é um ser pronto, mas está sempre por fazer. Criatividade supõe capacidade de improvisação, descoberta de saídas surpreendentes e espontaneidade na ruptura de tabus ligados a traços culturais. Penando sob a colonização e a escravidão, o povo inventou mil formas de dar um jeito na vida, de resistir, de negociar, de protelar e de sobreviver, nunca perdendo o sentido de humor, de festa o encantamento pela vida.

Bem dizia Celso Furtado: “uma sociedade só se transforma se tiver capacidade para improvisar… ter ou não acesso à criatividade, eis a questão” (O longo amanhecer 1999 pp. 79 e 67). A maioria dos gestores públicos não sabe valorizar esse enorme potencial criativo do povo e democratizá-lo para todos.

No mundo globalizado faz-se urgente a criatividade para dar uma moldura diferente a esse fenômeno inédito. Há o risco de que seja mais do mesmo, prolongando o velho paradigma, baseado na dominação dos outros e da natureza, sempre em função dos mais fortes e opulentos.

Depois, há o superávit de esperança, própria da alma brasileira. A esperança é a última que morre. É por ela que temos a confiança de que Deus escreve direito por linhas tortas. A esperança projeta continuamente visões otimistas. “Um dia a coisa vai mudar… se Deus quiser” ouve-se frequentemente na boca do povo. Nossas canções estão perpassadas de esperança. Assim cantam as comunidades eclesiais de base: “virá um dia em que todos, ao levantar a vista, veremos nesta terra, reinar a liberdade”. Essa aura de esperança permite relativizar e tornar suportáveis os dramas que milhões padecem. Por causa da esperança de que o Inesperado pode ocorrer, resistem e se organizam para torná-lo real e não deixá-lo apenas mera utopia que é a má utopia.

A crise econômico-financeira de 2008 projetou, por todas as partes, uma nuvem escura da desesperança principalmente entre os pobres, cujo numero cresceu em 200 milhões. Se não houver esperança de dias melhores através de políticas mundiais de solidariedade e de corresponsabilidade coletiva, conheceremos a violência da insurreição das vítimas e da repressão dos poderosos, de dimensões inimagináveis.

A carga utópica que caracteriza a cultura brasileira que se traduz por inarredável confiança no futuro com algo promissor e benfazejo, poderá ajudar a remover a sensação de impotência e a superar a cultura do cinismo. O Brasil pode ser o antecipador da “Terra da boa Esperança” (Ignace Sachs), de uma civilização biocentrada, cordial e ecumênica.

Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.
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