sexta-feira, 12 de março de 2010

E ganhou a máquina de guerra

Filme vencedor transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos
LUIZ BOLOGNESI, ESPECIAL PARA O ESTADO

Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.

Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o "povo da floresta". A certa altura, eles reúnem todos os ''clãs'' para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?

Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do "ao vencedor, as batatas", Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.

Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.

Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.

Então há tempo.

Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.

Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.

Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.

No filme de Cameron, os na"vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.

Luiz Bolognesi é roteirista de filmes como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade

Padre Cícero contra o Demo da Motosserra


O pessoal do Greenpeace é do além. Para popularizar a ideia de que as matas devem ser preservadas, foram buscar ajuda até do milagreiro Padre Cícero, repaginado como "O Padroeiro das Florestas". Tudo para conter as investidas contra o Código Florestal do que chamam piedosamente de "bancada da motosserra".

A iniciativa do Greenpeace se baseia num "santinho" com 11 "mandamentos para o agricultor":



Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau
Não toque fogo no roçado nem na caatinga
Não cace mais e deixe os bichos viverem
Não crie o boi nem o bode soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer;
Não plante em serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza;
Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar a água da chuva;
Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta;
Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só;
Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar você a conviver com a serca;
Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer;
Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só.


O undecálogo vem estampado também nas costas de uma camiseta vermelha, que tem na frente a figura do Padim e em ambos o slogan apocalíptico "Quem desmata semeia o inferno na Terra" ("inferno" com minúscula e "Terra" com maiúscula).

Folhaonline/Marcelo Leite.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Mar da Sibéria borbulha com metano e pode piorar aquecimento

CLAUDIO ANGELO
editor de Ciência da Folha de S. Paulo

A imagem de um mar inteiro borbulhando como um colossal copo de sal de frutas pode parecer engraçada.

Mas cientistas da Rússia e dos EUA que observaram algo parecido com isso no Ártico garantem que não há motivo para rir: as bolhas são de metano, um gás-estufa poderoso, e seu vazamento em águas siberianas pode significar que um dos efeitos mais temidos do aquecimento global está em pleno curso.

O grupo liderado pelos russos Natalia Shakhova e Igor Semiletov, da Universidade do Alasca em Fairbanks e da Academia Russa de Ciências, afirma que metade das águas do mar do leste da Sibéria está supersaturada de metano em sua superfície.

Em alguns pontos, a concentração do gás é cem vezes maior que a esperada. Em outros, até mil vezes.



No verão, quando o mar descongela, o gás escapa para a atmosfera em bolhas, tão numerosas que podem ser detectadas por microfones na água.

O fenômeno foi mapeado por Shakhova e colegas entre 2003 e 2008, durante várias expedições ao mar do leste siberiano, uma região de 2 milhões de km2.

"A quantidade de metano saindo da Plataforma Ártica Leste-Siberiana é comparável ao total que sai de todos os oceanos da Terra", afirmou a cientista em um comunicado.

O gás vem de vários depósitos de permafrost, ou solo congelado, abaixo do leito marinho. Esses solos, resquícios da Era do Gelo ricos em matéria orgânica, se decompõem liberando metano, gás com 21 vezes mais potencial de esquentar o planeta do que o CO2.

Segundo os cientistas, a liberação de uma parte que seja do metano estocado no fundo do mar do Ártico poderia provocar um aquecimento global descontrolado, com consequências catastróficas. No entanto, o próprio permafrost age como uma "tampa" para o gás, que fica aprisionado na forma de compostos estáveis.

Mas "essa tampa de permafrost está claramente perfurada", afirmou Shakhova. Segundo ela, o aquecimento das águas árticas nas últimas décadas está acelerando o processo de degradação do permafrost.

"Feedback"

O derretimento desses solos submarinos lança ao ano 8 milhões de toneladas de metano no ar. Ainda é uma fração mínima do total desse gás emitido no mundo.

Porém, à medida que o aquecimento se intensifica, o vasto estoque de metano siberiano pode parar na atmosfera, provocando um "feedback" positivo: aquecimento causando mais aquecimento.

"Esses depósitos submarinos são uma fonte de metano diferente, que nunca havia sido considerada antes e que precisa ser monitorada", disse Shakhova em teleconferência.

Segundo ela, o fato de que as águas da região são rasas --50 m, em média-- torna o vazamento mais preocupante.

"Não dá tempo de o metano ser oxidado ou degradado no mar. Ele vaza direto para a atmosfera."

O geoquímico alemão Martin Heimann, do Instituto Max Planck em Jena, elogia o trabalho do grupo, que chamou de "evidência convincente" em comentário na "Science". No entanto, ele diz que ainda não está claro o que causa as emissões.

"Como ninguém tinha observado esse vazamento antes, não sabemos se ele resulta da lenta erosão do permafrost, ou se de fato foi disparado pelo aquecimento global", disse Heimann à Folha.

O cientista diz que não está "nem um pouco alarmado" com o fenômeno. "Não vejo isso como uma catástrofe, certamente não como um ponto de virada climático", afirma. No entanto, continua, "precisamos monitorar esse metano, porque ele pode de fato indicar um "feedback" positivo."

Derrota de “Avatar” tem repercussões indígenas


Por Gonzalo Ortiz, da IPS

Quito, 10/3/2010 – O filme “Avatar” ter sido o grande derrotado na entrega do Oscar não foi ruim apenas para seu diretor, James Cameron. Também foi um revés na luta para recuperar zonas amazônicas dos efeitos da contaminação petrolífera. Várias organizações ambientalistas, como a Rede de Ação pela Selva Tropical (Ran) e a Rede para a Defesa da Amazônia, haviam solicitado a Cameron que divulgasse para a “sua legião de fãs no mundo que, enquanto Pandora é uma ficção, o que acontece com as comunidades indígenas do Equador é mais real do que se imagina”.

No filme, o mundo de Pandora, uma lua do planeta Polifemo, se vê ameaçado pela intenção dos humanos de ali explorar um mineral vital para o fornecimento de energia à Terra. Rebecca Tarbotton, diretora-executiva da Ran, compara a história de “Avatar” com o drama da vida real dos indígenas equatorianos que lutam contra a companhia petroleira Chevron, movendo um processo multimilionário por danos ambientais.

Além de uma campanha via e-mails desde fevereiro, apoiada por blogs e declarações à imprensa, Tarbotton pediu, na manhã de domingo, que Cameron cumprisse sua promessa de usar o filme para inspirar um ativismo ambiental em massa. Mas “Avatar” perdeu nas categorias de melhor diretor e melhor filme, ganhando apenas três estatuetas em categorias menores das nove para as quais estava indicado. Por isso, Cameron não subiu ao palco nem fez discurso algum na cerimônia de entrega do Oscar, no domingo em Los Angeles.

Claro que o diretor norte-americano tinha outros pedidos também: a organização Survival International, por exemplo, pediu-lhe, por meio de nota na revista Variety, que ajudasse o povo indígena dos dongria kondh da Índia, que tenta defender sua terra contra uma empresa mineradora desse país, empenhada em extrair bauxita de sua montanha sagrada. Não quer dizer que Cameron vá chorar por não ter ganho o Oscar, pois seu filme já arrecadou US$ 2,5 bilhões, convertendo-se na maior bilheteria da história do cinema.

A derrotada foi a causa ambiental, embora o julgamento contra a Chevron continue em sua longa peregrinação pelos tribunais. E já que se fala em recordes, trata-se do maior julgamento coletivo da história contra uma multinacional: as comunidades indígenas da área onde ocorre a atividade petroleira reclamam compensação de US$ 27 bilhões. Os demandantes, cerca de 300 indígenas e colonos mestiços, acusam a Texaco, adquirida pela Chevron em 2001, de lançar no ambiente mais de 18 bilhões de galões de água contaminada e de deixar vazar cerca de 17 milhões de galões de petróleo cru ao longo de sua atividade no Equador, entre 1964 e 1990.

Essas práticas ilegais causam contaminação do solo, das águas subterrâneas e dos riachos e rios da região, o que, de acordo com os demandantes, causou câncer, defeitos congênitos e abortos nas populações indígenas. A Chevron recusou o julgamento nos tribunais equatorianos, por isso o caso foi para os Estados Unidos, mas, após exames pelos tribunais norte-americanos, estes decidiram que a jurisdição equatoriana era perfeitamente válida. As mudanças de jurisdição e as manobras legais de todo tipo fazem com que o julgamento se arraste há mais de 16 anos.

Desde meados de fevereiro, o processo está nas mãos do novo presidente do tribunal provincial da província de Sucumbíos, Leonardo Ordóñez, que substituiu o juiz Juan Núñez, acusado pela empresa de ter aceito supostos subornos. “Só o que pedimos ao doutor Ordóñez é que trabalhe segundo a lei, com transparência e imparcialidade, e não permita mais abusos da Chevron para continuar retardando o julgamento”, disse o advogado da Frente de Defesa da Amazônia, Pablo Fajardo, em um comunicado.

As manobras da empresa norte-americana incluíram, como confirmou em janeiro o ex-chanceler do Equador, Fander Falconi, tentativas de impedir a prorrogação das preferências alfandegárias nos Estados Unidos para o comércio com o Equador. Segundo Falconi, a companhia havia implementado, em 2009, “uma das gestões mais fortes e ferozes já enfrentadas pela política externa equatoriana”, para impedir a renovação destas preferências alfandegárias.

A contratação de escritórios de advocacia, o emprego de negociadores especialistas e a ação diplomática equatoriana conseguiram se contrapor à influência política e diplomática da Chevron em Washington, disse Falconi antes de deixar o cargo. As preferências alfandegárias às quais se referiu são as que Washington concede a centenas de produtos do Equador, Peru e Colômbia em compensação pela luta contra o narcotráfico. A Bolívia, outro país que era favorecido pela iniciativa, foi excluída deste esquema no ano passado. IPS/Envolverde

Mudanças climáticas: ''os pobres são aqueles que sofrerão mais e primeiro''. Entrevista especial com Aron Belink



Por Redação IHU

A discussão entre vários grupos que estão envolvidos na questão do clima, buscando a articulação e compartilhamento de iniciativas é o principal objetivo da Campanha Global para Ações para Proteção do Clima (GCCA). Nesta entrevista, concedida por Aron Belinky, coordenador da GCCA no Brasil, ele analisa no que resultou a Conferência do Clima em Copenhague, a COP 15, e explica como andam as preparações para o evento. “A campanha está se direcionando, principalmente, em duas frentes. Uma delas é cobrarmos do governo brasileiro as medidas nacionais, que tem a ver com o que foi discutido durante a COP 15, como, por exemplo, o inventário nacional de emissões. A sociedade deve cobrar isso”, afirma. A entrevista foi realizada por telefone.

Ainda sobre avanços na GCCA deste ano, Belinky fala sobre suas abordagens. “Uma das coisas que ficaram claras é que a campanha deve se focar não só no projeto das Nações Unidas, mas também naquilo que acontece ao nível de cada país e a nível do cidadão, da empresa e do que cada um está fazendo no seu dia-a-dia”, garante.

Aron Belinky é pesquisador e consultor, especialista em responsabilidade social, sustentabilidade e consumo sustentável, tem formação em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (SP) e Geografia pela Universidade de São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está sendo preparado para a Campanha Global para Ações para Proteção do Clima deste ano?

Aron Belinky – Ainda estamos com a campanha fechada no Brasil, pois queremos fazer a campanha daqui coordenada com a internacional, que também está em fase de planejamento. Ainda não temos uma agenda exata para o ano. Possivelmente teremos isso mais definido no final de março. A campanha está se direcionando, principalmente, em duas frentes. Uma delas é para cobrarmos do governo brasileiro as medidas nacionais, que tem a ver com o que foi discutido durante a COP 15, como, por exemplo, o inventário nacional de emissões. Este é um ponto fundamental a ser tratado, e que até agora não apareceu. A sociedade deve cobrar isso. Outro exemplo são medidas ligadas ao combate ao desmatamento.

No plano internacional, temos duas grandes linhas em que vamos trabalhar. Uma é o projeto das Nações Unidas, propriamente dito, que é acompanhamento da COP 16, onde percebemos que haverão várias mudanças. O secretário da Conferência do Clima, Yvo de Boer [1], renunciou há algumas semanas. Ainda está sendo escolhido quem será seu sucessor, e isso é muito sintomático. Isso faz parte das dificuldades de ter um processo de organização e de solução dos conflitos na conferência que seja mais eficaz, para não dar uma paralisia como tivemos em Copenhague. Um outro ponto do plano internacional, que também vamos acompanhar, é todo o trabalho preparatório. Existem desde reuniões com o G8 e G20, que já estão acontecendo e que, de alguma maneira, preparam as negociações da COP 16, e também reuniões com outros grupos da sociedade civil. Por exemplo, tem essa conferência que acontecerá em Cochabamba, em abril. Lá os movimentos sociais, que são mais de esquerda, estão questionando como avançou a discussão do clima na COP 15, e estão colocando alguns pontos de cobrança. A discussão entre vários grupos que estão envolvidos na questão do clima é um ponto importante que iremos trabalhar ao longo do ano.

IHU On-Line – Em relação às campanhas anteriores, para onde esta nova edição quer avançar?

Aron Belinky – O problema da discussão do clima é que temos muitas frentes ao mesmo tempo. Se pensarmos naquilo que era objetivo na COP 15, um tratado climático global que fosse justo, legalmente vinculante e ambicioso, vemos que isso terá que passar, necessariamente, por muita negociação diplomática e pelo compromisso dos países comprometidos. Ainda não está claro qual será a agenda específica da COP 16, já que ela irá depender dessas negociações preparatórias. Na verdade, o objetivo final continua sendo o mesmo, que é uma convenção do clima que seja capaz de levar em conta tanto as questões da justiça, de responsabilidades de países, o que tem muito a ver com a contribuição para os fundos de adaptação, quanto a questão da ambição. Por exemplo, aquele acordo fechado no final da COP 15, em que os países deveriam colocar suas metas, ficou extremamente fraco e modesto.

Nossa meta de cobrar continua. Queremos que cada país participante apresente metas de redução nas emissões de gases de efeito estufa que apontem contra a elevação da temperatura, para que esta não passe de dois graus. A essência do que está sendo cobrado não muda. O que muda, na verdade, é a tática com que a campanha irá operar. Talvez isso não seja simples para o público externo. Conversamos em um momento em que a campanha ainda está discutindo de que maneira transformar essas diretrizes estratégicas em pontos de campanha.

IHU On-Line – Como a questão do consumo será discutida dentro da Campanha Global para Ações para Proteção do Clima?

Aron Belinky – Isto já está bem claro. Recentemente, tivemos uma discussão sobre o planejamento global da campanha, e uma das coisas que ficaram claras é que a campanha deve se focar não só no projeto das Nações Unidas, mas também naquilo que acontece ao nível de cada país e a nível do cidadão, da empresa e do que cada um está fazendo no seu dia-a-dia. Neste sentido, vamos enfatizar na campanha a importância de que, além de termos os resultados e um marco regulatório de política política pública na área internacional, tenhamos também uma referência no cotidiano das pessoas que seja de um consumo menos impactante. Já trabalhamos muito nesta direção, mas a mensagem é a de que toda a entidade irá trabalhar dentro da sua própria vida. O Greenpeace, que é parceiro da campanha, tem seu modo de falar. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), que também é parceiro, tem o seu modo. Cada um irá enfatizar, de acordo com a sua agenda, o fato de que não são só os governos, mas também o cotidiano das pessoas e das organizações.

IHU On-Line – Que desafios se colocam, para sociedade civil, governos e empresas, em relação a questão do aquecimento global, principalmente depois dos acordos firmados em Copenhague?

Aron Belinky – Na verdade nenhum acordo foi firmado. Aquele acordo de Copenhague, como foi chamado, que saiu de última hora, costurado na proposta do Obama, ninguém considera como acordo climático. Ali se tem intensões muito frouxas e básicas sobre o que poderia ser um acordo do clima, mas não serve de referência para ninguém. É um documento extremamente genérico, e o máximo que irá servir é para que novas conversas sejam feitas em cima dele. Não se imagina que uma empresa, um governo ou uma entidade qualquer vá fazer alguma coisa em função disso que saiu de Copenhague. Quando falo disso, falo na Conferência das Nações Unidas. O que também aconteceu em Copenhague, e isso é importante olharmos, foram dezenas de reuniões entre empresas, grupos setoriais de várias áreas e uma série de eventos paralelos, entre organizações da sociedade civil e entre governos de nível sub-nacional. Por exemplo, José Serra, governador de São Paulo, encontrou Schwarzenegger [2], governador da Califórnia, para discutir o que cada um pode fazer ou está fazendo em seus estados pela questão da mudança do clima.

Esses acordos, feitos fora do âmbito das Nações Unidas, não têm essa força global que uma conferência do clima teria e tem, mas são muito importantes no sentido de dar orientações e de estabelecer, em termos de campos de cooperação entre essa turma. Aí vemos um lado positivo. Não se tem uma orientação geral para todas as empresas, mas se tem muitos direcionamentos. Está muito claro para qualquer empresa, que esteja atenta ao que foi discutido, que o caminho agora para o desenvolvimento econômico passa pela energia limpa, que passa por soluções de baixa emissão de carbono. Esta sinalização já está dada para as empresas, e acredito que muitas vão começar a agir olhando isso como um direcionamento estratégico. Lembrando que já se tem um tratado internacional apontando para isso, isso já tem uma tendência demonstrada pelos vários contatos.

IHU On-Line – De alguma forma, a falta de resultados em Copenhague pode significar, de alguma forma, um avanço?

Aron Belinky – Um avanço acho que não. Eu diria que a falta de resultados, ou seja, as Nações Unidas não terem conseguido chegar a um tratado global como se esperava, seguramente, não ajuda ninguém. Assim, ajuda quem está trabalhando contra aquilo que acreditamos, que é uma economia de baixo carbono. O único grupo que vi, que ficou contente com a falta de resultados em Copenhague, foram aqueles órgãos que trabalham para desacreditar toda a discussão sobre mudança climática, e que estão aproveitando essa frustação que acabou acontecendo para reforçar a crítica, dizendo que o aquecimento global não é bem assim e que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não sabe o que está falando. Sim, o aquecimento é um problema e ele é causado pela ação humana. Se algum dado não é tão preciso assim, isso não invalida o conjunto de esforços.

Acho que o sucesso do sistema de decisão na ONU, a grande falha de Copenhague, não ajudou ninguém. Foi negativo e se alguma coisa boa pode surgir disso é a percepção de que é preciso melhorar o sistema decisório, que é o que estamos fazendo agora, de como discutir a COP 16 e não terminar em algum tipo de impasse por causa da forma de decisões.

IHU On-Line – Como o senhor vê a tese do decrescimento sustentável?

Aron Belinky – Falando como campanha, ainda não temos uma opinião formada. Pessoalmente, acho que se trata de algo que faz um certo sentido, mas o caminho para ela passa pela educação por uma outra vertente. Esta é uma discussão cultural, comportamental e de valores da sociedade. Esta questão cabe na discussão do clima, mas é importante falar sobre perfil de decrescimento. O que foi debatido em relação a esse tema foram as condicionantes: porque isso acontece? Se está aliado a um aumento do consumo per capita ou não? Onde esse consumo aumenta? Tem muita coisa para ser discutida sobre esse assunto. Ele não pode ser tomado sozinho.

IHU On-Line – Alguns pesquisadores dizem que os países pobres são os que vão sentir primeiro e de forma mais intensa os problemas do aquecimento global. O Brasil vai sentir quando?

Aron Belinky – Certamente, a questão das mudanças climáticas, que ocorrem em função do aquecimento global, afeta todo o mundo no planeta, tanto ricos quanto pobres, e, de alguma maneira, todos terão efeitos dramáticos e grandes prejuízos em função disso. Este é um ponto de partida. Dentro desse cenário, podemos dizer que os mais pobres são aqueles que sofrerão mais e primeiro. Isto, principalmente, pelo fato de que, por um lado, esses países pobres têm menos recursos para se prevenir e para remediar, o que acontece quando se tem um evento extremo causado pela mudança climática, um inverno ou verão rigoroso, por exemplo, e se o país tem instituições bem estabelecidas e uma rede social estruturada, de uma maneira as consequencias conseguem ser amenizadas ou administradas de modo que as pessoas sofram menos. Num país pobre, se tem muito menos estrutura e recursos para fazer frente com esse tipo de situação, e as pessoas vão sofrer mais. Geralmente não se tem estoques ou redes de distribuição de comida ou assistência para acidentes. Um outro exemplo é ter um sistema de defesa civil estruturado e com tamanho capaz de fazer frente aos desastres, como no caso das enchentes. No Brasil, quando há uma enchente, são os pobres que sofrem mais, pois eles moram em locais mais sucetíveis às questões climáticas. É por isso que os pobres vão sofrer antes.

O Brasil é um país que tem, por um lado, alguns núcleos ricos e, por outro, grandes massas pobres, e não tem estrutura para atender a todos. Do ponto de vista dos efeitos dos eventos climáticos, o Brasil é um dos países que sofrerá muito. Até porque o Brasil é pouco preparado para lidar com isso. É só ver essas chuvas no final do ano passado, o tipo de problema que tivemos e a capacidade de reação do país, que é extremamente limitada, sem ter uma mapeamento claro de onde podem haver riscos. Umas das prioridades para o Brasil deve ser um mapeamento das áreas de vulnerabilidade climática. Deve haver um estudo prévio que diga: se tivermos um aumento de chuvas na região sul e uma intensidade de ventos, onde isso causará problemas? Tem que ser mapeado, na terra mesmo, e deve haver um plano para atender isso. Deve haver recurso e planejamento, de modo que, quando venha a tragédia, se consiga diminuí-la por já estar preparado. O Brasil não está nada preparado.

Notas:

[1] Yvo de Boer é o atual secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Em fevereiro de 2010, anunciou a renúncia ao cargo, o que acontecerá efetivamente em julho de 2010. Foi diretor-geral adjunto do Ministério do Ambiente holandês, vice-presidente da Comissão das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, consultor do Banco Mundial e do governo chinês.

[2] Arnold Alois Schwarzenegger é um ex-ator, atual governador do estado da Califórnia (Estados Unidos)
Envolverde

terça-feira, 9 de março de 2010

Twitter e reflorestamento da Mata Atlântica

Quem tem Twitter pode ajudar a organização não governamental IPÊ a plantar árvores. A cada 30 mil tweets recebidos, serão 5 mil árvores plantadas. A estratégia é parte de campanha da operadora de celular VIVO que vai só até o dia 10, quarta-feira. Veja como fazer isso abaixo ou acesse o link:

http://www.vivo.com.br/oquevocefaria/?WT.ac=euvivo.home.tv1.oquevocefaria

Em uma nova ação em parceria com a Vivo, o IPÊ convida twitteiros de todo o Brasil a dar ideias de conexão que serão úteis para a conservação da biodiversidade e para a sustentabilidade ambiental. Na campanha, iniciada em fevereiro pela Vivo, a menina salvou a mangueira (sua árvore predileta) enviando vários torpedos pelo celular para a sua rede de amigos. Mas, e você, o que faria utilizando seus SMS´s?

Para participar, use a criatividade e responda a frase: “Com torpedos, a menina salvou sua árvore preferida. E você, o que faria?”. Cada tweet com a hashtag: #oquevcfaria vai ajudar no reflorestamento de 1m2 de mata nativa nas regiões do Pontal do Paranapanema e Nazaré Paulista, no estado de São Paulo, onde o IPÊ mantém vários projetos de conservação.

O objetivo da campanha é provar o poder de conexão por torpedo para mobilizar pessoas. (Divulgação IPÊ)

segunda-feira, 8 de março de 2010

MUDANÇA CLIMÁTICA:
O perigoso metano escapa do Ártico


Stephen Leahy

A camada de gelo, que armazena milhares de milhões de toneladas de metano sob as frias águas do Mar Ártico, está deixando escapar esse gás-estufa para a atmosfera, segundo pesquisa publicada pela revista especializada Science.

Não se sabe se isto pode ser um dos primeiros indicadores de um círculo vicioso que acelere o aquecimento global.

Os pesquisadores estimam que, anualmente, sejam emitidas oito milhões de toneladas de metano pela Plataforma Ártica da Sibéria Oriental, o que equivale a todo o metano liberado pelos oceanos do mundo, que cobrem 71% do planeta. Os resultados das medições, realizadas agora na Sibéria, representam menos de 2% das emissões mundiais de metano derivadas de fontes com base na terra, como animais, arrozais ou vegetação em processo de putrefação.

“Isso é muito significativo. Antes se presumia que esta região tinha emissão zero”, afirmou à IPS Natalia Shakhova, pesquisadora da Universidade do Alasca em Fairbanks. As concentrações de metano medidas sobre os oceanos costumam ficar entre 0,6 e 0,7 partes por milhão (ppm), mas agora registram 1,85% no Mar Ártico em geral, e entre 2,6 e 8,2 ppm na Plataforma Ártica da Sibéria Oriental, uma área de aproximadamente dois milhões de quilômetros quadrados, disse Shakhova.

Ela e seu colega Igor Semiletov lideraram oito expedições internacionais a essa região, uma das mais remotas e desoladas do mundo. Seus resultados são os publicados na última edição da Science, na semana passada. Os níveis globais de metano aumentam anualmente desde 2007, após terem permanecido estáveis durante uma década, informou Ed Dlugokencky, do Laboratório de Pesquisas do Sistema Terrestre em Boulder, no Estado do Colorado, que funciona vinculado ao Escritório Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos.

Os cientistas comprovaram, em 2007, um aumento do metano no Ártico, mas isto não voltou a ocorrer em 2008, disse à IPS por e-mail Dlugokencky, especialista em metano atmosférico. Ele suspeita que as emissões submarinas da Sibéria não sejam novas, mas que ocorrem durante algum tempo. É necessário verificar por outros meios as estimativas de Shakhova que falam de oito milhões de toneladas, disse. Porém, reconheceu que este estudo representa a primeira medição direta já realizada na região, e que enfatiza a urgência de mais pesquisas.

Nos últimos anos, os pesquisadores experimentaram comoção ao verem algumas áreas do Mar Ártico “em ebulição”, quando os gases das profundezas saem, borbulhantes, para a superfície. Grandes setores do solo oceânico, que se estendem ao longo das áreas costeiras, foram, na realidade, “permafrost” – gelo permanente –, que passou a estado líquido há milhares de anos, depois do grande derretimento da última era do gelo. O permafrost é solo congelado e contém grandes concentrações de carbono e metano.

As águas extremamente frias do Ártico e sua cobertura gelada mantinham o permafrost submarino a temperaturas suficientemente baixas para que o derretimento fosse bastante lento. Até agora. Nos últimos anos, as temperaturas da superfície de boa parte da paisagem ártica e siberiana, particularmente no verão boreal, aumentaram entre seis e dez graus em relação aos registros normais. Isto levou a um enorme aumento no caudal de muitos rios que desembocam no Mar Ártico.

Shakhova e seus colegas acreditam que este aumento substancial de águas mais quentes na pouco profunda Plataforma da Sibéria Oriental acelerou o derretimento do permafrost submarino, rachando a cobertura gelada e permitindo que o metano vaze para a atmosfera. “O que nos preocupa é que o permafrost submarino já apresenta sinais de desestabilização”, disse a cientista em um comunicado. “Se a desestabilização aumentar, as emissões de metano poderão não ser em teragramas, pois serão significativamente maiores”, acrescentou. Um teragrama é igual a um bilhão de gramas ou um milhão de toneladas.

O metano é um gás-estufa cerca de 25 vezes mais potente do que o dióxido de carbono. É comum ser chamado de hidrato de metano quando está congelado no permafrost ou sob o mar. Ignora-se seu volume total. “A liberação na atmosfera de apenas 1% do metano, que se presumia armazenado em depósitos de hidrato pouco profundos, pode alterar em três ou quatro vezes a atual carga atmosférica de metano”, disse Shakhova em um comunicado. “As consequências climáticas disto são difíceis de prever”, acrescentou.

O estudo de Shakhova é apenas um de pelo menos uma dezena que mostram claramente que a região do Ártico não só está derretendo como também emitindo mais carbono e metano. O permafrost ocupa 13 milhões de quilômetros quadrados da terra no Alasca, Canadá, Sibéria e partes da Europa. Um novo estudo canadense documentou que o limite mais ao sul do permafrost diminuiu 130 quilômetros nos últimos 50 anos, na região de James Bay, em Québec.

Outro estudo, da Universidade da Flórida, diz que isso poderia causar emissões de um bilhão de toneladas de carbono por ano até meados do século. As emissões geradas pelos seres humanos ficam entre sete bilhões e oito bilhões de toneladas. Outra pesquisa canadense, divulgada no ano passado, mostra que a região está ficando mais escura e absorvendo mais calor no verão, devido a uma significativa mudança no crescimento de pastagens e líquens. Nos últimos 30 anos, estes se converteram em arbustos maiores devido às temperaturas mais altas.

Sem reduções importantes nas emissões contaminantes causadas pelos seres humanos, principalmente mediante a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento, os dois a três metros superiores do permafrost de toda a região ártica podem descongelar até o final deste século, alerta o informe “”Reações do clima ártico: implicações globais”, apresentado em setembro pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF).

Se isso ocorrer, os volumes de carbono e metano liberados poderão ser muitas vezes maiores do que os atualmente existentes na atmosfera, o que fará aumentar em seis, oito ou mesmo dez graus as temperaturas médias mundial. As consequências são inimagináveis. “As mudanças que estamos vivendo não são totalmente inesperadas. Simplesmente estão ocorrendo muito antes”, disse Mark Serreze, pesquisador do Centro Nacional de Dados da Neve e do Gelo no Colorado e co-autor do informe do WWF. Se os hidratos de metano ou grandes áreas de permafrost começarem a derreter, “isso será uma péssima notícia para a humanidade”, disse Serreze à IPS em setembro passado. IPS/Envolverde
Foto:Maxtemperature

Uma Maria especial

Embora eu ache que todos os dias deveriam ser das mulheres, assim como de toda a diversidade e de todas as formas de vida, comemoro esta data simbólica com um artigo sobre uma mulher exemplar: Maria da Penha.

Uma Maria especial
Roberta Sampaio - O Estado de S.Paulo
Maria da Penha fundou uma organização não governamental para acompanhar a aplicação da lei que leva seu nome.

Para Maria da Penha, a brasileira que deu nome à lei 11.340, a qual coíbe a violência doméstica e familiar contra a mulher, só uma coisa pode ser pior do que a dor de ficar paraplégica e sofrer duas tentativas de homicídio, praticadas pelo pai das suas três filhas: a omissão do Estado.

"As duas violências foram muito graves, a doméstica e a institucional. Em ambas, me senti impotente. Mas não ver a quem recorrer é algo que deixa a pessoa muito frustrada, deprimida", desabafa a biofarmacêutica cearense, que lutou por quase 20 anos para ser contemplada pela Justiça - ainda que nos moldes brasileiros. Explica-se: seu ex-marido, Marco Antonio Heredia Viveros, foi condenado a dez anos e seis meses de prisão, mas cumpriu só dois anos em regime fechado. Hoje encontra-se em liberdade.

Maria enfrentou uma luta solitária contra a impunidade durante oito anos. Depois, buscou o apoio de ONGs . Até que, em 2001, 19 anos e 6 meses após o crime que a deixou paraplégica, conseguiu que a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) acatasse, pela primeira vez na história, um caso de violência doméstica. "O Brasil foi condenado internacionalmente quando faltavam seis meses para a prescrição do crime."

Em 2008, recebeu uma indenização de R$ 60 mil do governo cearense, uma sugestão da OEA, instituição que a amparou depois que seu processo foi esquecido no Fórum de Fortaleza. Foi graças a sua insistência e determinação, portanto, que o seu caso não teve o mesmo desfecho do de tantas outras brasileiras (vivas ou mortas) cujos agressores são beneficiados pela omissão da Justiça, poder econômico e "brechas" da legislação.

Agora é bem fácil de entender por que Maria da Penha não se dá por satisfeita, apenas, com a existência da lei 11.340, que foi sancionada pelo presidente Lula em 7 de agosto de 2006, e cria mecanismos para punir agressões contra a mulher, no ambiente doméstico ou familiar. "Busquei a justiça que pensava que existia. Mas conheci um lado da Justiça que não funciona." Hoje, seu maior compromisso é batalhar para que a lei que leva seu nome saia do papel. Por isso, em novembro, fundou o Instituto Maria da Pena (IMP).

"O IMP foi criado para divulgar a Lei e monitorar a sua aplicação." Com sede em Fortaleza, sua cidade natal, o instituto já atua em Recife, onde há um alto índice de violência contra a mulher. "Pretendemos expandir o trabalho para outras capitais." Entre as ações, está a promoção de cursos para capacitar pessoas nas comunidades. "Queremos formar multiplicadores, para que localizem vítimas e as encaminhem para centros de referência, que vão cobrar do Estado a aplicação da Lei." Também quer criar o Observatório da Lei Maria da Penha, formado por núcleos de monitoramento, para acompanharem a aplicação da Lei, levando os resultados para a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) - órgão federal, com status de ministério.

"É importante que as mulheres apontem onde está a falha para que a Lei seja posta em prática", ressalta. "Por exemplo, se alguém denuncia à polícia o espancamento da vizinha, mas o policial vai lá e não prende o agressor, deve relatar isso." Num caso como esse, orienta, a pessoa deve ligar para o 180, serviço de atendimento à mulher da SPM, que funciona por 24 horas e permite ligações gratuitas, até do orelhão. "Tanto pode ligar para pedir a indicação da delegacia da mulher mais próxima, como para denunciar uma falha na aplicação da Lei."

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sábado, 6 de março de 2010

Em Washington/EUA, lei veta oferta de sacolas gratuitas

Desde janeiro, entrou em vigor em Washington uma lei que proíbe a distribuição gratuita de sacolas plásticas no comércio. Quem não leva sua própria bolsa pode carregar os itens na mão ou pagar US$ 0,05 por sacola.

A lei não se restringe a supermercados e inclui também livrarias, lojas de roupas e de presentes. A expectativa dos grupos ambientalistas é que ela se torne uma referência para os Estados americanos. Esse tipo de lei é a primeira no país, embora San Francisco já tenha proibido as sacolas plásticas.

Dados da Agência de Proteção Ambiental dos EUA apontam para um volume de plástico desperdiçado em 2008 de 3,96 milhões, entre bolsas, sacolas e embrulhos. Menos de 1% desse total foi reciclado.

Grandes redes de varejo nos EUA, como CVS e Target, já começaram a premiar com dinheiro ou créditos a iniciativa de consumidores que carregam suas próprias sacolas reutilizáveis.

Em Nova York, a legislação exige que os varejistas que distribuem gratuitamente sacolas plásticas façam a reciclagem do material.

Algumas redes no Estado já cobram pelo uso das sacolas. Em qualquer supermercado de médio porte de Nova York, ao lado do caixa, existem sacolas reutilizáveis disponíveis para venda.

Em Seattle, recentemente o uso de sacolas de papel e de plástico passou a ser desencorajado, com a cobrança de US$ 0,20 por sacola.

Consideradas um símbolo do desperdício no consumo, as sacolas plásticas têm sido culpadas pela poluição nos oceanos e emissão de carbono.

A onda de criação de taxas de cobrança pelo uso vem se espalhando em algumas cidades do país desde 2007. O assunto já foi discutido em Estados como Connecticut, Maryland, Massachusetts, Texas e Virgínia.
Fonte: Folha Online