Pesquisador da Embrapa põe na ponta do lápis a contribuição do bioma para o regime hídrico brasileiro e mostra que Pantanal depende da savana para existir. Sem o Cerrado, o Brasil passaria sede.
Espalhado por regiões elevadas do Brasil central, o Cerrado é responsável por levar água a oito das doze grandes regiões hidrográficas do país. É o que mostra pesquisa de Jorge Enoch Furquim Werneck Lima, da Embrapa Cerrados, que estimou a contribuição do bioma para manter as águas circulando pelo território.
Conforme o estudo, a bacia do São Francisco deve 94% da vazão ao Cerrado. Mas há casos em que a contribuição do bioma responde por mais de 100% do volume gerado em uma bacia. É o que ocorre na bacia do Paraguai, que engloba o Pantanal, com 136%. Ou seja, os rios do Cerrado levam mais água para o Pantanal do que ele transfere ao rio Paraguai. “São as águas do Cerrado que viabilizam a existência do Pantanal”, afirmou Lima em reportagem da Embrapa Cerrados. Outras bacias, como as do Parnaíba (106%), do Tocantins/Araguaia (70%) e a do Paraná (50%) também recebem águas do Cerrado.
A geração de energia também não pode dispensar as águas do Cerrado. “Setenta por cento das águas que passam nas turbinas de Tucuruí vêm do bioma, a metade da água que passa em Itaipu também vem desse bioma. No caso da usina hidrelétrica de Sobradinho, que possui um dos maiores reservatórios do mundo, esse valor chega a quase 100%”, ressaltou o pesquisador.
Além da geração de eletricidade, as águas do Cerrado são responsáveis pelo abastecimento de cidades e pela irrigação de terras agrícolas, isso sem falar no que representam para o turismo e lazer, como o caso do rio Araguaia. Ele é um dos principais cursos d’água do bioma, banhando Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará.
Outras matérias sobre o assunto no ECO
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Angústias da mata ciliar

Osvaldo Ferreira Valente*
Em viagem recente, percorria uma estrada que se desenvolvia ao longo de um rio e pude logo notar que as suas margens tinham sido reflorestadas há pouco, num daqueles programas, muito comuns nos dias de hoje, de recomposição de matas ciliares. Parei e fiquei contemplando, por alguns minutos, aquelas espécies de plantas que estavam iniciando a formação de um novo ambiente diversificado. Rememorei alguns conhecimentos hidrológicos e passei a imaginar o que diriam aquelas plantas se pudessem dialogar comigo. E para minha surpresa, uma mais espevitada começou a falar:
- Meu caro viajante, aqui estamos nós em fase de crescimento. Eu mesma tenho esperança de ser um majestoso jatobá em futuro breve. Vamos criar um ambiente importante para animais silvestres e para uma variada fauna no solo. Vamos dar frutos e as nossas companheiras que estão mais próximas da lâmina d’água do rio irão fazer sombra e fornecer alimentos para peixes e outros animais aquáticos.
Argumentei que da mata ciliar são esperadas muito mais coisas e ela logo me interrompeu:
- Sim, nós sabemos, e estamos preparadas para ajudar na retenção de parte das enxurradas que chegarem por aqui, armazenando um pouco das partículas sólidas transportadas por elas e mesmo na retenção de outros resíduos gerados pelas atividades produtivas ao nosso redor, incluindo até os excessos de aplicações de agrotóxicos. Já as nossas companheiras lá da beirada poderão ajudar na estabilização do leito do rio. Por outro lado, meu caro viajante, o nosso papel ambiental fica um pouco prejudicado pela artificialidade daquela metragem em relação ao leito do rio. Para nós fica difícil entender que devemos ocupar uma faixa de 30 metros de cada lado de pequenos córregos, por exemplo, em qualquer dos variados biomas brasileiros. É impressionante a capacidade que homens e mulheres têm de artificializar tudo, até mesmo quando tentam defender ou reproduzir os comportamentos naturais.
A esta altura da conversa, resolvi pedir sua opinião a respeito da ação da mata ciliar naquilo que os ambientalistas chamam de “preservação da vazão dos cursos d’água”. A resposta foi bastante esclarecedora:
- Quanto a isso são grandes as nossas angústias, pois temos receio de provocar decepções futuras. Esperam, por exemplo, que nós sejamos capazes de promover infiltrações de água no solo e em quantidades suficientes para que os armazenamentos nos lençóis subterrâneos possam garantir as vazões de estiagens dos cursos d’água. Esquecem que nós ocupamos uma pequena percentagem da área da bacia hidrográfica e não poderemos assumir uma tarefa que compete a toda a sua superfície. Além do mais, nós também somos consumidoras de água, que retiramos do solo através de nossas raízes. Nas épocas de estiagens, enquanto nossas colegas lá do topo do morro têm de reduzir os seus consumos de água, perdendo folhas, por exemplo, as nossas raízes têm a felicidade de estar próximas dos lençóis subterrâneos, que estão menos profundos na margens dos cursos d’água, onde estamos. Com isso podemos fazer a festa da transpiração, transferindo boas quantidades de água dos lençóis para a atmosfera. Se os lençóis forem rebaixados pela atividade das raízes, há sempre a possibilidade de o próprio curso d’água, principalmente em regiões mais planas, colaborar para o seu reabastecimento. Se isso provocar quedas de vazões, paciência, pois estamos tendo apenas um comportamento natural no ecossistema e não temos nenhum compromisso com essa tal de “preservação de vazão” .
Voltei ao carro e continuei minha viagem. Passei a examinar, mentalmente, um jeito de usar aquele diálogo no curso sobre conservação de nascentes que estava indo ministrar para um grupo de produtores rurais. Olhei para o topo de um morro coberto por uma mata natural e decidi que irei procurar uma sua parenta para uma conversa semelhante à que acabei de narrar, pois, ao lado das matas ciliares, as matas de topos de morros são também consideradas “salvadoras da pátria” na conservação de vazões de nascentes, córregos e rios.
* Engenheiro florestal, professor titular aposentado da Universidade Federal de Viçosa e especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas
O ECO/Foto: O Jardineiro
USP cria Licenciatura em Educomunicação
Projeto da Escola de Comunicações e Artes destinado à criação de uma Licenciatura em Educomunicação acaba de ser aprovado pelo Conselho Universitário da USP, em sua sessão de 17 de novembro de 2009. A proposta apresentada pelo Departamento de Comunicações e Artes – CCA - obteve 67 indicações num colegiado composto por 86 votantes.
A Licenciatura destina-se a preparar profissionais para atender demandas provenientes do campo da educação formal (magistério) bem como daprática social que prevê o uso das tecnologias da informação e das linguagens da comunicação das artes em projetos voltados para a comunicação educativa.
O profissional a ser formado encontrará espaço de atuação na docência, especialmente nos cursos profissionalizantes de nível médio voltados para a comunicação e as tecnologias da informação. Terá atuação, ainda, no desenvolvimento de projetos destinados a qualificar a expressão comunicativa da comunidade escolar, fazendo uso das linguagens da comunicação, das artes, assim como das tecnologias da informação, tanto no ensino básico quanto no superior. No caso, o educomunicador agirá como um assessor a serviço das secretarias de comunicação, das diretorias de ensino e das próprias escolas.
A presença do educomunicador já é visível em escolas de redes públicas, bem como em projetos de organizações não governamentais que, na área do terceiro setor, empregam a mídia em programas educativos. O novo curso pretende potencializar as ações destes profissionais, assim como as práticas dos que, nos meios de comunicação, especialmente jornais, emissoras de rádio e de TV, se dedicam à comunicação educativa.
A iniciativa foi precedida, ao longo das últimas duas décadas, por pesquisas de mestrado e doutorado sobre a inter-relação Comunicação/Educação em programas de Pós-Graduação da USP, especialmente na ECA e na Faculdade de Educação. Por sua vez, o conceito da Educomunicação vem sendo aplicado, especialmente na última década, à ação profissional na interface entre os dois campos através de uma série de experiências de formação em serviço, em todo o país, mediante projetos de extensão, tanto presenciais quanto a distância, implementados por docentes e núcleos de pesquisa vinculados ao Departamento de Comunicações e Artes da ECA.
O novo curso, com 2.800 horas e duração de quatro anos, será oferecido no período noturno, a partir de fevereiro de 2011. Uma equipe multidisciplinar de 19 professores doutores, especialistas em teorias, linguagens e gestão da comunicação, educação, teoria e crítica das artes e tecnologias da informação assumirá as disciplinas e a direção do novo programa. De acordo com o Prof. Ismar de Oliveira Soares, Chefe do CCA-USP, a aprovação do novo curso é uma vitória de um esforço coletivo de uma equipe de pesquisadores e docentes da ECA – muitos dos quais aposentados, que identificaram o potencial da ECA para o atendimento das demandas que a sociedade da informação está colocando para o ensino da comunicação e da educação no mundo contemporâneo.
NCE/USP
A Licenciatura destina-se a preparar profissionais para atender demandas provenientes do campo da educação formal (magistério) bem como daprática social que prevê o uso das tecnologias da informação e das linguagens da comunicação das artes em projetos voltados para a comunicação educativa.
O profissional a ser formado encontrará espaço de atuação na docência, especialmente nos cursos profissionalizantes de nível médio voltados para a comunicação e as tecnologias da informação. Terá atuação, ainda, no desenvolvimento de projetos destinados a qualificar a expressão comunicativa da comunidade escolar, fazendo uso das linguagens da comunicação, das artes, assim como das tecnologias da informação, tanto no ensino básico quanto no superior. No caso, o educomunicador agirá como um assessor a serviço das secretarias de comunicação, das diretorias de ensino e das próprias escolas.
A presença do educomunicador já é visível em escolas de redes públicas, bem como em projetos de organizações não governamentais que, na área do terceiro setor, empregam a mídia em programas educativos. O novo curso pretende potencializar as ações destes profissionais, assim como as práticas dos que, nos meios de comunicação, especialmente jornais, emissoras de rádio e de TV, se dedicam à comunicação educativa.
A iniciativa foi precedida, ao longo das últimas duas décadas, por pesquisas de mestrado e doutorado sobre a inter-relação Comunicação/Educação em programas de Pós-Graduação da USP, especialmente na ECA e na Faculdade de Educação. Por sua vez, o conceito da Educomunicação vem sendo aplicado, especialmente na última década, à ação profissional na interface entre os dois campos através de uma série de experiências de formação em serviço, em todo o país, mediante projetos de extensão, tanto presenciais quanto a distância, implementados por docentes e núcleos de pesquisa vinculados ao Departamento de Comunicações e Artes da ECA.
O novo curso, com 2.800 horas e duração de quatro anos, será oferecido no período noturno, a partir de fevereiro de 2011. Uma equipe multidisciplinar de 19 professores doutores, especialistas em teorias, linguagens e gestão da comunicação, educação, teoria e crítica das artes e tecnologias da informação assumirá as disciplinas e a direção do novo programa. De acordo com o Prof. Ismar de Oliveira Soares, Chefe do CCA-USP, a aprovação do novo curso é uma vitória de um esforço coletivo de uma equipe de pesquisadores e docentes da ECA – muitos dos quais aposentados, que identificaram o potencial da ECA para o atendimento das demandas que a sociedade da informação está colocando para o ensino da comunicação e da educação no mundo contemporâneo.
NCE/USP
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Investir na natureza hoje economizará trilhões no futuro

Fernanda B. Muller, do CarbonoBrasil
Um novo relatório lançado na última sexta-feira (13/11) com apoio do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP) ressalta que investir hoje no capital natural, como a proteção dos ecossistemas, biodiversidade e recursos naturais, resultaria na economia de trilhões a longo prazo.
O estudo chamado ‘A economia dos ecossistemas e da biodiversidade’ é uma grande iniciativa internacional para chamar atenção aos benefícios econômicos globais da biodiversidade, enfatizar o crescente custo da perda da biodiversidade e da degradação dos ecossistemas, e para reunir especialistas dos campos da ciência, economia e política, possibilitando ações práticas para avançar.
Investimentos anuais de cerca de US$ 45 bilhões na expansão das áreas protegidas no mar e na terra, garantiriam benefícios da ordem de US$ 4-5 trilhões ao ano dentro de algumas décadas, disse o coordenador do estudo Pavan Sukdev no lançamento em Bruxelas segundo a AFP.
O estudo alega que como parte da solução a longo prazo é necessário entender melhor e obter mensurações quantitativas dos valores da biodiversidade e dos ecossistemas para poder apoiar análises políticas integradas.
Assim, são necessários indicadores dos serviços ecossistêmicos e novas abordagens para mensuração macroeconômica, abrangendo o valor destes serviços.
Leia o relatório
(CarbonoBrasil)
FOME: Cúpula sem agricultores, sem prazos e sem números

Por Sabina Zaccaro, da IPS
Roma, 17/11/2009 – Os agricultores do mundo não são parte das delegações oficiais enviadas à Cúpula Mundial sobre a Segurança Alimentar, iniciada nesta segunda-feira (16) em Roma. Mas, se acertaram para chegar e expressar seus pontos de vista. Suas comunidades são as que mais sofrem o impacto da crise alimentar. Pequenos produtores da selva amazônica, da África, das ilhas do Pacífico e do Himalaia se reuniram na capital italiana por ocasião do Fórum pela Soberania alimentar dos Povos, que começou sexta-feira e termina hoje, paralelamente à cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).
O objetivo do fórum foi debater sobre os sérios efeitos da crise nas comunidades agrícolas e camponesas. Os pequenos agricultores e outros pequenos produtores de alimentos representam mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo, estima o fórum da sociedade civil. “Produzem mais de 75% das necessidades alimentares do mundo mediante a agricultura camponesa e a pequena produção pecuária, além da pesca artesanal”, disseram os organizadores. Segundo a FAO, a quantidade de pessoas famintas no mundo aumentou este ano para 1,020 bilhão, devido à crise econômica mundial aos elevados preços dos alimentos e dos combustíveis, às secas e aos conflitos.
“A quantidade de famintos anunciada pela FAO inclui, em grande parte, os que produzem alimentos. E isto representa o aspecto mais incrível da fome”, disse à IPS Antonio Onorati, do Comitê Internacional de Planejamento da Sociedade Civil. Os conhecimentos e as práticas indígenas têm o potencial de melhorar a segurança alimentar local e mundial, mas ainda não são reconhecidos, de acordo com as organizações de produtores.
Por estes dias, as questões-chave sobre a mesa das entidades de agricultores e camponeses têm a ver com quem decide as políticas alimentares e agrícolas, onde são tomadas estas decisões, quem controla os recursos para produzir alimentos, como estes são obtidos e como ajudar as pessoas que não têm acesso diretamente a eles, isto é, os pobres das cidades. Os resultados de seu trabalho serão apresentados no fechamento da cúpula da FAO, amanhã.
Leia mais
Um passo importante, artigo de Sérgio Abranches
"É meio estranho um país prometer reduzir suas emissões futuras sem dar a conhecer suas emissões presentes"
Sérgio Abranches é cientista político. Artigo publicado em "O Globo":
O governo brasileiro, ao admitir levar a Copenhague compromissos com ações, quantificadas, rompe com uma atitude histórica da diplomacia que sempre se negou a assumir qualquer compromisso numérico. É um passo importante. O compromisso anunciado ontem pelos ministros Dilma Roussef e Carlos Minc não se refere a emissões já realizadas, como as metas assumidas pela União Europeia, pelo Japão e que devem ser também adotadas pelo EUA.
O que se promete é um esforço voluntário de redução entre 36% e 39% das emissões projetadas para 2020, em um cenário "Business as Usual". Os técnicos fizeram uma projeção de quais seriam as emissões brasileiras em 2020, se não houvesse uma política de redução de emissões. O compromisso é agir para que essa projeção seja reduzida entre 36% e 39%. Não se utiliza um ano base com emissões reais medidas, em relação ao qual se define um corte. Estima-se uma trajetória e a meta é um desvio para menos em relação a essa tendência.
A maior parte da redução dessa tendência, virá da queda do desmatamento, segundo o governo: algo entre 21% e 25%. O restante virá dos demais setores, em particular de mudanças na produção agrícola, com medidas como o aumento do plantio direto, que reduz as emissões derivadas de material orgânico em decomposição com a aragem da terra.
A redução das expectativas de emissão pode significar uma queda real em percentuais inferiores. É diferente da lei de mudança climática de São Paulo, que tem como meta a redução de 20% das emissões de 2005 até 2020. Há vários requisitos para que o compromisso brasileiro ganhe credibilidade.
O primeiro é que o governo divulgue com transparência os números em que se baseou, as hipóteses para as projeções, os coeficientes usados para estimar a contribuição de cada setor, para que possam ser verificados e criticados por especialistas da academia, do setor privado e pela imprensa. Dependendo da metodologia, das hipóteses e dos números de base, a contribuição que viria da agricultura, indústria e transportes pode ser modesta.
A dúvida maior tem a ver com o fato de que o Ministério da Ciência e Tecnologia tem se recusado sistematicamente a atualizar o inventário das emissões brasileiras, que é de 1994. Como avaliar projeções de emissões, se não há dados oficiais sobre as emissões brasileiras? O ministro Minc divulgou recentemente estimativas para 2007, que funcionários graduados do MCT afirmaram não ter credibilidade.
É meio estranho um país prometer reduzir suas emissões futuras sem dar a conhecer suas emissões presentes.
Por que é preciso cuidado com a base dos dados? Porque entre 1994 e 2008, a estrutura industrial, de transportes e de produção de commodities passou por mudanças enormes.
A estabilização, a abertura comercial e a privatização provocaram uma primeira onda de transformações estruturais. Com a recuperação posterior à crise cambial de 99 e o boom do período Lula, houve um novo ciclo de mudanças estruturais e de expansão. A produção de automóveis mais que dobrou nesses 14 anos. A produção de commodities explodiu com a expansão do comércio internacional, com repercussões, inclusive, nos índices de desmatamento.
As transformações introduzidas na matriz elétrica pelo governo Lula, com aumento significativo da geração de eletricidade com combustíveis fósseis, mudou a intensidade de carbono da matriz elétrica. A queda do desmatamento entre 2005 e 2009 reduziu sua participação nas emissões totais. O Brasil de 2004-2008 é muito maior, mais complexo e de muito maior intensidade de carbono no PIB, que o Brasil de 1994. Há ainda pouco detalhamento de como esse objetivo será alcançado na prática e como as ações necessárias serão financiadas.
Essas questões terão que ser respondidas com transparência e os números submetidos à verificação independente. Politicamente, ao apresentar, um número, mesmo com todas as ressalvas, o Brasil terá quebrado um tabu e, na diplomacia, atravessado um marco definitivo.
É parecido com a situação do EUA e da China, que também vinham se negando a assumir compromissos quantificados. Se os três apresentarem números, ainda que discutíveis e insuficientes, Copenhague terá uma evolução mais promissora rumo a um acordo consistente.
Os três terão atravessado a fronteira sem retorno entre a política da negação e a política do comprometimento. Uma vez ultrapassado esse marco, é uma questão de aprofundamento e melhoramento do compromisso.
(O Globo/JCiência)
Sérgio Abranches é cientista político. Artigo publicado em "O Globo":
O governo brasileiro, ao admitir levar a Copenhague compromissos com ações, quantificadas, rompe com uma atitude histórica da diplomacia que sempre se negou a assumir qualquer compromisso numérico. É um passo importante. O compromisso anunciado ontem pelos ministros Dilma Roussef e Carlos Minc não se refere a emissões já realizadas, como as metas assumidas pela União Europeia, pelo Japão e que devem ser também adotadas pelo EUA.
O que se promete é um esforço voluntário de redução entre 36% e 39% das emissões projetadas para 2020, em um cenário "Business as Usual". Os técnicos fizeram uma projeção de quais seriam as emissões brasileiras em 2020, se não houvesse uma política de redução de emissões. O compromisso é agir para que essa projeção seja reduzida entre 36% e 39%. Não se utiliza um ano base com emissões reais medidas, em relação ao qual se define um corte. Estima-se uma trajetória e a meta é um desvio para menos em relação a essa tendência.
A maior parte da redução dessa tendência, virá da queda do desmatamento, segundo o governo: algo entre 21% e 25%. O restante virá dos demais setores, em particular de mudanças na produção agrícola, com medidas como o aumento do plantio direto, que reduz as emissões derivadas de material orgânico em decomposição com a aragem da terra.
A redução das expectativas de emissão pode significar uma queda real em percentuais inferiores. É diferente da lei de mudança climática de São Paulo, que tem como meta a redução de 20% das emissões de 2005 até 2020. Há vários requisitos para que o compromisso brasileiro ganhe credibilidade.
O primeiro é que o governo divulgue com transparência os números em que se baseou, as hipóteses para as projeções, os coeficientes usados para estimar a contribuição de cada setor, para que possam ser verificados e criticados por especialistas da academia, do setor privado e pela imprensa. Dependendo da metodologia, das hipóteses e dos números de base, a contribuição que viria da agricultura, indústria e transportes pode ser modesta.
A dúvida maior tem a ver com o fato de que o Ministério da Ciência e Tecnologia tem se recusado sistematicamente a atualizar o inventário das emissões brasileiras, que é de 1994. Como avaliar projeções de emissões, se não há dados oficiais sobre as emissões brasileiras? O ministro Minc divulgou recentemente estimativas para 2007, que funcionários graduados do MCT afirmaram não ter credibilidade.
É meio estranho um país prometer reduzir suas emissões futuras sem dar a conhecer suas emissões presentes.
Por que é preciso cuidado com a base dos dados? Porque entre 1994 e 2008, a estrutura industrial, de transportes e de produção de commodities passou por mudanças enormes.
A estabilização, a abertura comercial e a privatização provocaram uma primeira onda de transformações estruturais. Com a recuperação posterior à crise cambial de 99 e o boom do período Lula, houve um novo ciclo de mudanças estruturais e de expansão. A produção de automóveis mais que dobrou nesses 14 anos. A produção de commodities explodiu com a expansão do comércio internacional, com repercussões, inclusive, nos índices de desmatamento.
As transformações introduzidas na matriz elétrica pelo governo Lula, com aumento significativo da geração de eletricidade com combustíveis fósseis, mudou a intensidade de carbono da matriz elétrica. A queda do desmatamento entre 2005 e 2009 reduziu sua participação nas emissões totais. O Brasil de 2004-2008 é muito maior, mais complexo e de muito maior intensidade de carbono no PIB, que o Brasil de 1994. Há ainda pouco detalhamento de como esse objetivo será alcançado na prática e como as ações necessárias serão financiadas.
Essas questões terão que ser respondidas com transparência e os números submetidos à verificação independente. Politicamente, ao apresentar, um número, mesmo com todas as ressalvas, o Brasil terá quebrado um tabu e, na diplomacia, atravessado um marco definitivo.
É parecido com a situação do EUA e da China, que também vinham se negando a assumir compromissos quantificados. Se os três apresentarem números, ainda que discutíveis e insuficientes, Copenhague terá uma evolução mais promissora rumo a um acordo consistente.
Os três terão atravessado a fronteira sem retorno entre a política da negação e a política do comprometimento. Uma vez ultrapassado esse marco, é uma questão de aprofundamento e melhoramento do compromisso.
(O Globo/JCiência)
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Pequeno Livro Vermelho do REDD
REDD+
Um guia de propostas
governamentais e nãogovernamentais
para
a redução de emissões
por desmatamento
e degradação

PREFÁCIO
Se um acordo climático pós-Kyoto não conseguir evitar o
desmatamento tropical, torna-se praticamente impossível
alcançar as metas relacionadas à mudança do clima de modo
geral. As vidas e os meios de vida de milhões de pessoas
estarão em risco, e os eventuais custos econômicos do combate
à mudança do clima serão muito maiores do que o necessário.
Por estes motivos, o próximo acordo precisa criar incentivos
significativos para remunerar os países detentores de florestas
pelos valiosos serviços climáticos prestados ao mundo.
Avanços importantes vêm sendo feitos ao longo do último ano
por aqueles que trabalham no REDD. Mas para que o REDD
se torne um sucesso, três grandes desafios persistem.
Em primeiro lugar, é necessário que um mecanismo de REDD
ofereça incentivos para todos os países detentores de florestas
– se algum grupo significativo de países for excluído, então
o desmatamento será transferido para aquelas áreas e as
emissões de gases de efeito estufa e a degradação florestal
não serão efetivamente evitadas.
Segundo, tais incentivos precisam ter a escala necessária
para resolver o problema – se forem insuficientes em termos
de valor, não conseguirão sobrepor-se às demais atividades
econômicas legítimas que impulsionam o desmatamento.
Terceiro, os cidadãos de países detentores de florestas
– especialmente aqueles que dependem da floresta para
seus meios de vida – precisam participar ativamente da
estruturação da solução. Assim como não há solução paraas mudanças climáticas sem as florestas, não há solução
para o desmatamento sem o apoio dos povos das florestas.
Graças ao trabalho de muitos membros da comunidade
REDD e outros, existem caminhos para solucionar as questões
científicas, econômicas e metodológicas pendentes. Agora
precisamos urgentemente de vontade política e de ação efetiva
para elaborar e implementar soluções em escala nacional
para responder aos desafios.
Agradeço a publicação do Pequeno Livro Vermelho do REDD
e espero que ele possa ajudar a promover o avanço do debate
sobre florestas – passando de conversas sobre o papel das
florestas no combate à mudança do clima para a ação, com
a urgência e a clareza que os povos do nosso planeta exigem.
SUA EXCELÊNCIA BHARRAT JAGDEO
Presidente da Guiana
O Livro está ao lado, na raiz da árvore!
Um guia de propostas
governamentais e nãogovernamentais
para
a redução de emissões
por desmatamento
e degradação

PREFÁCIO
Se um acordo climático pós-Kyoto não conseguir evitar o
desmatamento tropical, torna-se praticamente impossível
alcançar as metas relacionadas à mudança do clima de modo
geral. As vidas e os meios de vida de milhões de pessoas
estarão em risco, e os eventuais custos econômicos do combate
à mudança do clima serão muito maiores do que o necessário.
Por estes motivos, o próximo acordo precisa criar incentivos
significativos para remunerar os países detentores de florestas
pelos valiosos serviços climáticos prestados ao mundo.
Avanços importantes vêm sendo feitos ao longo do último ano
por aqueles que trabalham no REDD. Mas para que o REDD
se torne um sucesso, três grandes desafios persistem.
Em primeiro lugar, é necessário que um mecanismo de REDD
ofereça incentivos para todos os países detentores de florestas
– se algum grupo significativo de países for excluído, então
o desmatamento será transferido para aquelas áreas e as
emissões de gases de efeito estufa e a degradação florestal
não serão efetivamente evitadas.
Segundo, tais incentivos precisam ter a escala necessária
para resolver o problema – se forem insuficientes em termos
de valor, não conseguirão sobrepor-se às demais atividades
econômicas legítimas que impulsionam o desmatamento.
Terceiro, os cidadãos de países detentores de florestas
– especialmente aqueles que dependem da floresta para
seus meios de vida – precisam participar ativamente da
estruturação da solução. Assim como não há solução paraas mudanças climáticas sem as florestas, não há solução
para o desmatamento sem o apoio dos povos das florestas.
Graças ao trabalho de muitos membros da comunidade
REDD e outros, existem caminhos para solucionar as questões
científicas, econômicas e metodológicas pendentes. Agora
precisamos urgentemente de vontade política e de ação efetiva
para elaborar e implementar soluções em escala nacional
para responder aos desafios.
Agradeço a publicação do Pequeno Livro Vermelho do REDD
e espero que ele possa ajudar a promover o avanço do debate
sobre florestas – passando de conversas sobre o papel das
florestas no combate à mudança do clima para a ação, com
a urgência e a clareza que os povos do nosso planeta exigem.
SUA EXCELÊNCIA BHARRAT JAGDEO
Presidente da Guiana
O Livro está ao lado, na raiz da árvore!
Sensação de paz
When Mantas Dance from liquidmocean on Vimeo.
Com pouco mais de onze minutos, o vídeo acima é um verdadeiro show de imagens com o nado suave de arraias-jamanta. Elas foram captadas durante os três anos e meio em que Mark Thorpe viveu na ilha Yap, na Micronésia. Clique e confira o majestoso balé desses parentes dos tubarões.
O ECO
domingo, 15 de novembro de 2009
Afro-brasileiros e indígenas estão “atolados” na pobreza, critica comissária
Paula Laboissière, da Agência Brasil
A alta-comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para Assuntos de Direitos Humanos, Navanethem Pillay, voltou a criticar sexta sexta-feira (13/11), em seu último dia de visita ao Brasil, a situação de negros e indígenas no país. Ambas as populações, segundo ela, estão “atoladas” na pobreza, além de não ter acesso aos serviços básicos e nem a oportunidades de emprego.
Durante entrevista coletiva, Pillay se referiu à questão dos povos indígenas como invisível e lembrou que, de todos os funcionários federais e estaduais que conheceu durante a visita, nenhum deles tinha origem indígena. Para a alta-comissária, o fato serve como um indicativo de uma contínua marginalização.
“A maior parte dos povos indígenas do Brasil não está se beneficiando do impressionante progresso econômico do país e está sendo retida na pobreza pela discriminação e indiferença, expulsa de suas terras na armadilha do trabalho forçado.”
Em relação aos negros, Pillay ressaltou que a violência aparece como uma das principais causas de morte no grupo. Ela insistiu que há, no Brasil, uso excessivo de força tanto de agentes policiais quanto de milícias. “Até que isso mude, a situação vai prejudicar o progresso do Brasil em muitas outras frentes.”
A alta-comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para Assuntos de Direitos Humanos, Navanethem Pillay, voltou a criticar sexta sexta-feira (13/11), em seu último dia de visita ao Brasil, a situação de negros e indígenas no país. Ambas as populações, segundo ela, estão “atoladas” na pobreza, além de não ter acesso aos serviços básicos e nem a oportunidades de emprego.
Durante entrevista coletiva, Pillay se referiu à questão dos povos indígenas como invisível e lembrou que, de todos os funcionários federais e estaduais que conheceu durante a visita, nenhum deles tinha origem indígena. Para a alta-comissária, o fato serve como um indicativo de uma contínua marginalização.
“A maior parte dos povos indígenas do Brasil não está se beneficiando do impressionante progresso econômico do país e está sendo retida na pobreza pela discriminação e indiferença, expulsa de suas terras na armadilha do trabalho forçado.”
Em relação aos negros, Pillay ressaltou que a violência aparece como uma das principais causas de morte no grupo. Ela insistiu que há, no Brasil, uso excessivo de força tanto de agentes policiais quanto de milícias. “Até que isso mude, a situação vai prejudicar o progresso do Brasil em muitas outras frentes.”
Turismo predatório no Pantanal
Americano é denunciado por Ministério Público

O norte-americano Charles Alexander Munn foi denunciado esta semana pelo Ministério Público Estadual (MPE) em Mato Grosso por destruir ou danificar florestas de preservação permanente e pode ser enquadrado na Lei de Crimes Ambientais. As irregularidades alegadas pelo órgão ocorreram no Parque Estadual Encontro das Águas, entre os municípios de Barão de Melgaço e Poconé, onde montou base sem alvará para "exploração turística" da região.
A Secretaria Estadual do Meio Ambiente identificou, a pedido do MPE, o uso de ceva para atrair onças na região, a fim de realizar a chamada “focagem de animais”. Conforme a reportagem, o responsável pelo acampamento Miguel dos Santos Oliveira contou que a atividade começou a ser montada entre março e maio de 2008.
O Eco vinha denunciando as atividades de Munn desde outubro do ano passado. À época, o norte-americano contestou as acusações, agora corroboradas pelo Ministério Público Estadual e órgãos ambientais de Mato Grosso. Confira as reportagens abaixo.
A promotoria também pediu que seja levantada a ficha criminal do acusado, bens que estejam em seu nome, além da apreensão das estruturas que montou na área protegida para fixação de barracas, chalana e embarcações menores usadas na "focagem de onças".
Se as denúncias forem acatadas, deve ser instaurado um processo judicial. O visto de Munn para o Brasil vence em 2012.
O Eco
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